Sergio Augusto de Moraes
Mesmo se dizendo breve não é
fácil escrever a história da humanidade em 400 pgs, como tenta fazer Yuval N.
Harari em seu livro “SAPIENS - Uma breve história da humanidade” (L&PM
Editores, 2016). Talvez por isto, entre outras coisas, o livro deixa lacunas
imperdoáveis. Mas mesmo assim, ao abordar esta história, o autor transmite
informações importantes.
Para atrair o grande público ele
usa fórmulas singelas para explicar fenômenos complexos e os fatos sociais surgem
naturalmente, como lebre da cartola de um mágico. Se é assim tudo indica que o
autor conseguiu seu objetivo, o livro transformou-se num “bestseller”
internacional.
Mas se observarmos com mais
rigor vemos que Harari cai no ecletismo, no subjetivismo e em omissões
inaceitáveis.
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Homo erectus africano (homo ergaster), vivido há entre 1,8 e 1,4 milhões de anos |
Uma das falhas mais notáveis é
sua análise do surgimento do homo sapiens. Ele constata que “os primeiros
homens e mulheres, há 2,5 milhões de anos , tinham cérebros de cerca de 600 centímetros
cúbicos. Sapiens modernos apresentam um cérebro de 1200 a 1400 centímetros
cúbicos”. Até aqui tudo bem, boa informação. Estamos falando do homo-erectus.
Todavia mais adiante afirma que
“Por mais de 2 milhões de anos as redes neurais dos humanos continuaram se
expandindo, mas, com exceção de algumas facas de sílex e varetas pontiagudas,
os humanos tiraram muito pouco proveito disso. Então o que impulsionou a
evolução do enorme cérebro humano durante esses 2 milhões de anos? Francamente,
não sabemos” (pgs 16 e 17).
Singularmente ele assinala
pouco depois que “o caminhar ereto sobre duas pernas, a produção de ferramentas
sofisticadas, a domesticação do fogo, a vida em sociedade e um cérebro grande
deram vantagens enormes a humanidade”. Então como não sabemos?
Se não nos limitarmos aos
quatro fatores acima mencionados e levarmos em consideração as mudanças climáticas,
o uso contínuo da alimentação carnívora e particularmente o trabalho com as ferramentas, associados
às mutações genéticas, identificaremos os principais impulsionadores desta
evolução.
Quando a mutação favorecia a
sobrevivência e a reprodução, ela permanecia. Quando não, a descendência era
descartada pela seleção natural. Em cada ramo da árvore filogenética os fatores
acima mencionados atuaram a curto, médio e a longo prazo. O que ainda não
sabemos é como todos eles atuaram. Mas já sabemos da ação de alguns.
Por exemplo, sabemos que as
fases de aceleração evolutiva se produziram sob o efeito de eventos climáticos;
que o cozimento de alimentos, ao reduzir a demanda de energia e o tempo para a
digestão, deixou mais tempo para a caça e favoreceu o crescimento do cérebro,
um órgão que exige muita energia. Pelo que vem acontecendo na história, a
aceleração das descobertas científicas vai permitir outros avanços na
identificação do peso de cada um dos fatores apontados na evolução até o homo sapiens.
Em sua análise Harari não leva
em conta a unidade dialética entre quantidade e qualidade, especialmente
relevante para compreensão de fenômenos de longo prazo, como é o caso do tempo
decorrido entre as mutações genéticas que atuaram neste período de
aproximadamente 2 milhões de anos.
Harari continua “... mas mesmo
com tais atributos, desenvolvidos durante 2 milhões de anos, os homens ...continuaram sendo criaturas fracas e marginais”. Até que
há cerca de 150 mil anos surge o homo sapiens. Algumas páginas depois ele atribui o salto do homo sapiens ao topo
da cadeia alimentar “...à sua linguagem única”(pg 27). A linguagem foi um fator
da maior importância mas há que correlacioná-la com os fatores que agiram durante
2 milhões de anos. Ela evoluiu com eles e é também consequência dos mesmos.
Mais adiante, depois da etapa
do homem caçador-coletor, ao constatar que “não existe justiça na história” Harari
diz:
“Entender a história humana nos milênios que sucederam a Revolução
Agrícola (algo em torno de 12000 anos atrás) se resume a uma única questão:
como os humanos se organizavam em redes de cooperação em massa, uma vez que
careciam de instintos biológicos para sustentar tais redes? A resposta sucinta
é que os humanos criaram ordens imaginadas e desenvolveram sistemas de escrita.
Essas duas invenções preencheram as lacunas deixadas por nossa herança biológica”(pg
141).
Depois ele afirma que tais ordens imaginadas nunca foram neutras nem
justas e que “todas as distinções mencionadas aqui - entre homens livres e
escravos, brancos e negros, ricos e pobres - se baseiam em ficções.”
E continua:
“a Revolução
Agrícola certamente aumentou o total de alimentos à disposição da humanidade,
mas os alimentos extras não se traduziram em uma dieta melhor ou em mais lazer.
Em vez disso, se traduziram em explosões populacionais e elites favorecidas. Em
média, um agricultor trabalhava mais que um caçador-coletor e obtinha em troca
uma dieta pior. A Revolução Agrícola foi a maior fraude da história. Quem foi
responsável? Nem reis, nem padres, nem mercadores. Os culpados foram um punhado
de espécies vegetais, entre as quais o trigo, o arroz e a batata. As plantas
domesticaram o homo sapiens, e não o contrário”(Pgs 89, 90).
Vejamos o que diz F. Engels a
respeito desta Revolução:
“O desenvolvimento de todos os ramos da produção – criação
de gado, agricultura, ofícios manuais domésticos – tornou a força de trabalho
do homem capaz de produzir mais do que o necessário para sua manutenção. Ao
mesmo tempo, aumentou a soma de trabalho diário correspondente a cada membro da
gens, da comunidade doméstica ou da família isolada. Passou a ser conveniente
conseguir mais força de trabalho, o que se logrou através da guerra; os
prisioneiros foram transformados em escravos (antes eles eram comidos ou
eventualmente incorporados à tribo). Dadas as condições históricas gerais de
então, a primeira grande divisão social do trabalho (entre tribos dedicadas ao
pastoreio e as outras) ao aumentar a produtividade deste, e por conseguinte a
riqueza, e ao estender o campo da atividade produtora, tinha que trazer consigo
– necessariamente - a escravidão. Da primeira grande divisão social do
trabalho, nasceu a primeira grande divisão da sociedade em duas classes:
senhores e escravos, exploradores e explorados.” (“A origem da família, da
propriedade privada e do Estado”, Ed. Vitória, 1963, pg128).
Aqui Harari, talvez para soar
como algo exótico, violenta a história da humanidade, ignora os fenômenos
sociais ao atribuir tudo isto a algumas
espécies vegetais, destacadamente ao trigo, ao arroz e à batata.
Mas afinal o que move a
história da sociedade humana?
Segundo Harari
“Como você faz
as pessoas acreditarem em uma ordem imaginada como o cristianismo, a democracia
ou o capitalismo? Primeiro você nunca admite que a ordem é imaginada. Você sempre
insiste que a ordem que sustenta a sociedade é uma realidade objetiva criada
pelos grandes deuses ou pelas leis da natureza... a ordem imaginada está incrustada
no mundo material...embora só exista em nossa mente ...e ela, a ordem imaginada
é quem ...define nossos desejos”.(pgs 121, 123).
Ao invés da “ordem imaginada”
adotada pelo autor, Engels diz que
“...Marx descobriu a lei do desenvolvimento da
história humana: o fato tão simples, mas que até ele se mantinha oculto pelo
cipoal ideológico, de que o homem precisa, em primeiro lugar comer, beber, ter
um teto e vestir-se antes de poder fazer política, ciência, arte, religião,
etc; que, portanto, a produção dos meios de subsistência imediatos, materiais,
e por conseguinte a correspondente fase econômica de desenvolvimento de um povo
ou de uma época é a base a partir da qual se desenvolveram as instituições
políticas, as concepções jurídicas, as ideias artísticas e inclusive as ideias
religiosas dos homens e de acordo com a qual devem, portanto, explicar-se; e
não o contrário, como se vinha fazendo até então..."(“Discurso
diante da sepultura de Marx” F. Engels).
Para Marx e Engels
“A história
de todas as sociedades até agora tem sido a história da luta de classes. Homem
livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, membro das corporações e
aprendiz, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em contraposição uns aos
outros e envolvidos em uma luta ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que
terminou sempre com a transformação revolucionária da sociedade inteira ou com
o declínio conjunto das classes em conflito” (“ O Manifesto Comunista 150 anos
depois”, ed. Contraponto, 1997, pg 8).
Por ter como guia a tal “ordem
imaginada” e não os fenômenos sociais da história da humanidade é que Harari
afirma “Mas é um fato comprovado que a maior parte dos ricos são ricos pelo
simples motivo de terem nascido em uma família rica, enquanto a maior parte dos
pobres continuarão pobres no decorrer da vida simplesmente por terem nascido em
uma família pobre” (pg 143). Parece que ser ricos ou pobres é para Harari uma
lei da natureza. Aliás o autor mistura as leis da natureza com as da sociedade sem muito critério.
Seria longo demais analisar as
teses de Harari como, por exemplo, a das vantagens que os imperialismos, no
decorrer dos tempos, trouxeram aos povos dominados. Seriam necessárias muitas
páginas o que não cabe num texto como este.
Por fim dando um salto para o
Epílogo do livro encontramos: “Avançamos de canoas e galés a navios a vapor e
naves espaciais - mas ninguém sabe para onde estamos indo. Somos mais poderosos
do que nunca, mas temos pouca ideia do que fazer com todo esse poder.” (pg
427).
Os opressores, os donos do
grande capital, sabem bem o que fazer com “todo esse poder”: aumentar sua
riqueza. Eles são poucos. Mas boa parte da humanidade pensa que “todo esse
poder” poderia acabar com a fome, reduzir as doenças e as desigualdades entre
pessoas, povos e classes sociais. É uma ideia há muito tempo acalentada, pelo
menos desde a Grécia clássica.
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