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Ameaçadora Sim! Mas nem “inteligência”, nem “artificial”

Há poucas semanas, com o lançamento da ferramenta ChatGPT interativa de busca e conversação, voltam à cena o encantamento e pavor com os avanços tecnológicos da chamada “Inteligência Artificial – IA”. Tratado o tema por diversos especialistas, trazemos aqui duas publicações recentes. Uma delas alusiva à entrevista do internacionalmente conhecido neurocientista brasileiro, Miguel Nicolelis à Folha de São Paulo, resumida em artigo de Victor Gaspodini (em DCM). A outra, artigo da professora Dora Kaufman (em O Globo), estudiosa do mesmo tema.

Três aspectos resumem os ensinamentos daqueles dois especialistas:

1) Tais algoritmos não são o que se tenta alardear sobre os mesmos; não são nem “inteligência”, nem “artificiais”, porquanto apenas objetos de engenharia  baseada em lógica binária; portanto incapazes de emular o cérebro humano nos sentimentos, intuições, valores, presentes no comportamento e decisões humanas; capacidades estas desenvolvidas através de milênios mediante as interações de seres vivos e seu ambiente social e material;

2) Trazem sim vários riscos e ameaças à sociedade, pois potencializam a disseminação de engodos, a inculcação ideológica de falsos “consensos” e “verdades”, como por exemplo as das pressões pela desvalorização do trabalho, supostamente condenado à sua inexorável substituição absoluta pelas máquinas; daí a necessidade da instituição de mecanismos de regulação, conforme já tem mobilizado os governos mundo afora;

3) Em desdobramento ao item dois, esconde-se a IA como potencial libertadora do trabalho humano, pela superação da atual fase histórica do capitalismo, hoje caracterizada como “Capitalismo da Informação”, em gradativa substituição do “trabalho material”, característico da era industrial, pelo “trabalho imaterial” (atividades de criação, desenho, pesquisa, inovação), gerando conhecimento socialmente disseminado, quando a apropriação privada do valor criado é diretamente do ambiente social, sem a mediação do processamento nas fábricas e unidades de produção.(Tessa Morris Suzuki, conforme  já analisado e publicado neste blog).

A seguir, os dois artigos. Mas antes um poemeto [1] .

"INTELIGÊNCIAS"

Máquina sabe, mas não sente

Jogar xadrez...

máquina aprende.

Gente sabe, gente sente

Nas dores da vez...

se aprende.

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“Inteligência artificial não é nem inteligente nem artificial”, diz Nicolelis

Publicado por Victor Gaspodini, em DCM – Diário do Centro do Mundo, - 8 de julho de 2023

O neurocientista Miguel Nicolelis afirmou, em entrevista para a Folha de S. Paulo, neste sábado (08), que a “inteligência artificial” não é “nem inteligente e nem artificial”. O pesquisador também fez críticas ao escritor israelense Yuval Harari, autor do livro “Sapiens”, e à ferramenta ChatGPT.

“Do ponto de vista científico, digo isso há anos, e agora Noam Chomsky usa a mesma frase, a inteligência artificial não é nem inteligente nem artificial. Não é artificial porque é criada por nós, é natural. E não é inteligente porque a inteligência é uma propriedade emergente de organismos interagindo com o ambiente e com outros organismos. É um produto do processo darwiniano de seleção natural. O algoritmo pode andar e fazer coisas, mas não são inteligentes por definição”, explica Nicolelis.

O cientista trabalha há 30 anos com redes neurais, mecanismo por trás dos atuais algoritmos de aprendizado de máquina. Referência em interfaces entre cérebro e máquina, atuou no desenvolvimento de neuropróteses capazes de restaurar movimentos do corpo. Na abertura da Copa de 2014, no Rio de Janeiro, um cadeirante chutou a bola ao gol com o auxílio de um equipamento desenvolvido por ele.

De acordo com Nicolelis, “é absurdo” afirmar que modelos de linguagem como o ChatGPT são dez vezes mais inteligentes que um ser humano. “De certa maneira, o ChatGPT é um grande plagiador, porque pega o material feito por um monte de gente, mistura e gera algo que chama de produto novo, mas, na realidade, é em grande parte influenciado pelo produto intelectual de milhares e milhares de seres humanos. Para o sistema capitalista atual, moderno, a inteligência artificial é a grande ferramenta de marketing, porque gera uma total desigualdade no relacionamento com a força de trabalho. Um patrão pode dizer: tenho um aplicativo de inteligência artificial, se o trabalhador não aceitar o salário que estou disposto a pagar, que é 10% do que ganha hoje, demito e uso o aplicativo. Existe toda uma ideologia de substituição do trabalho humano, que não pode ser feita 100%, não há como”, afirma o pesquisador.

Sobre a obra “Sapiens”, de Yuval Harari, Nicolelis diz que o escritor israelense “mistura coisas de outras áreas sem ter conhecimento profundo”. “No Sapiens, ele mistura as referências e interpreta os nossos resultados de uma maneira que não tem absolutamente nada a ver com o que fizemos. É um trabalho que gastei 30 anos da minha vida. Quando ele fala que no futuro vamos colocar essa coisa chamada interface cérebro-cérebro, que era algo experimental que fiz entre ratos, fiz entre macacos e fizemos entre seres humanos, para reabilitação. Mas não é que eu vou trocar meus sentimentos com outras pessoas. É uma troca de comandos motores, coisas apropriadas para reduzir a lógica digital. Ele fez uma interpretação disso como se eu estivesse lendo a mente de alguém, o que nunca vai acontecer. Ele fala: ‘nós vamos viver até os 200 anos’, ‘vamos acabar com o envelhecimento’. Tudo isso é fantasia”, explica Nicolelis.

 

Miguel Nicolelis pesquisou exoesqueletos que ajudam pacientes, antes em cadeiras de rodas, a dar primeiros passos. Foto: Bruno Santos/Folhapress

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 O medo da Inteligência Artificial

Os alertas encontram respaldo no imaginário popular, mas precisamos de regulação, não de alarmismo

Por Dora Kaufman*, publicado em O Globo, 22-06-2023

Desde o lançamento do ChatGPT, sucedem-se alertas sobre o “risco existencial” da inteligência artificial. Uma das mais recentes é a declaração de 22 palavras do Center for AI Safety: “Mitigar o risco de extinção pela IA deve ser prioridade global, com outros riscos de escala social, como pandemias e guerra nuclear”. Menos sucinto é o alerta de Toby Ord, considerado por muitos como novo Carl Sagan. No livro “The precipice: existential risk and the future of humanity” (2020), Ord define como “catástrofes existenciais” os riscos que ameaçam destruir o potencial de longo prazo da humanidade ou nos confinar a um mundo falido sem volta. Entre as ameaças, lista as armas nucleares, a mudança climática, as pandemias e a AGI (inteligência artificial geral, ou inteligência de máquina no nível humano).

Computador exibe imagem do ChatGPT Gabby Jones/Bloomberg

Ord fundamenta a inclusão da AGI nos riscos existenciais com base numa pesquisa realizada em 2016 entre os participantes das conferências NeurIPS e ICML: dos 21% que responderam à pesquisa, 50% creem no advento da AGI em 45 anos (a previsão dos pesquisadores americanos é 74 anos). Além de previsões de longo prazo estarem mais para ficção, o próprio Ord admite a fragilidade da pesquisa (o que a leitura dos originais confirma). Inclui a IA no rol das ameaças existenciais à humanidade com base em previsões inconsistentes, como são igualmente inconsistentes os demais alertas apocalípticos.

Inteligência Artificial: UE aprova proposta para regular IA

Esses alertas, contudo, encontram respaldo no imaginário popular moldado pela ficção científica e no medo de uma tecnologia poderosa e obscura. Entre os signatários misturam-se preocupações honestas a meras estratégias de desviar a atenção dos problemas reais ou aplicar a “doutrina do choque”, denunciada por Naomi Klein em livro de mesmo nome. Com menos repercussão, outros eminentes especialistas declaram-se céticos em relação à AGI. Precisamos de regulamentação, e não de alarmismo.

Inteligência artificial : do Brasil aos EUA, propostas de regulação aumentam o cerco às novas tecnologias

A boa notícia é que desde maio a IA está entrando na pauta dos governos. Foi tema da 49ª Cúpula dos Países Desenvolvidos; a Casa Branca se reuniu com executivos de big techs; representantes da UE e dos Estados Unidos firmaram pacto de elaborar diretrizes comuns; o primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, anunciou a pretensão de promover um “pacto de IA” com o presidente Joe Biden; o presidente Emmanuel Macron promoveu sessão de trabalho com a presença de ministros-chave sobre os impactos éticos da IA e os impactos sobre a indústria, o meio ambiente e a soberania nacional.

No Brasil, em 3 de maio, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, transformou o substitutivo para instituir o Marco Legal da IA no Brasil, elaborado pela comissão de juristas do Senado, em Projeto de Lei, o PL 2.338, que precisa ser amplamente debatido na sociedade, incluindo agências setoriais e ministérios, especialistas acadêmicos, organizações da sociedade civil. O futuro não é inexorável, depende de como dirigirmos a IA para um desenvolvimento sustentável. No nosso caso, passa por incluí-la na pauta do governo Lula.

*Dora Kaufman, professora da PUC-SP e colunista da Época Negócios, é autora do livro "Desmistificando a inteligência artificial"

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[1] de Alfredo M. da Silveira

LEIA TAMBÉM NESTE BLOG:

Homo Deus Não

Supervalorização e Demonização da Inteligência Artificial

Sapiens, Harari, Marx e Engels

Seu emprego está ameaçado?


Supervalorização e demonização da "inteligência artificial"

Em anos recentes, a aceleração da velocidade e capacidade dos microprocessadores viabilizou o relançamento de técnicas de modelagem de sistemas de há muito conhecidas, tais como as de análise estatística e de redes neurais artificiais, agora podendo manejarem grandes bases de dados sob o novo ambiente de conectividade da internet.

Dentro da revolução informacional digital em curso, iniciada no último quarto do século XX, parece estar-se abrindo agora um ciclo de inovações mediante novas combinações de tecnologias. E a grande “estrela” do momento chegou ao senso comum das pessoas sob a denominação geral de “Inteligência Artificial - IA” , algoritmos que “aprendem” mediante a interação com uma variedade de ambientes, sejam eles, físicos, de outras máquinas, ou humanos.

O feliz artigo da Profa. Dora Kaufman, a seguir, apresenta-nos com casos ilustrativos bem esclarecedores, uma visão crítica de como se tem difundido as informações sobre “Inteligência Artificial - IA”. A complexidade e a opacidade dos sistemas favorecem a especulação sobre o alcance e consequências sociais dessas inovações. Nas palavras da autora: “Evitando supervalorizar ou demonizar a IA, o desafio é conhecer o funcionamento e a lógica da tecnologia para aproveitar os benefícios e mitigar os riscos”.

Serão tais desenvolvimentos portadores de virtualidades emancipatórias para a humanidade? 

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Supervalorização e demonização da inteligência artificial - desviam a atenção dos danos reais e comprometem os benefícios*.

Dora Kaufman**

Outubro - 2021

Caetano Veloso canta os algoritmos de inteligência artificial (IA). Após nove anos de seu último álbum inédito, Abraçaço (2012), Caetano lança o álbum autoral Meu Coco (2021), com destaque para a canção 'Anjos Tronchos': "Agora a minha história é um denso algoritmo, que vende venda a vendedores reais / Neurônios meus ganharam novo outro ritmo / E mais e mais e mais e mais e mais [...]”. Inspirar um dos maiores expoentes da música brasileira reflete a relevância atual da IA. Conhecer seus fundamentos, contudo, é importante para evitar supervalorizar e demonizar uma tecnologia, ainda em seus primórdios, e com tantos benefícios à sociedade.

Kai-Fu Lee, em novo livro, coautoria com o escritor de ficção científica Chen Qiufan (AI 2041: Ten Visions for Our Future, 2021), observa que as pessoas confiam em três fontes para aprender sobre IA: ficção científica, notícias na mídia e pessoas influentes. Todas fontes que, em geral, carecem de rigor científico. Num formato original, o livro projeta cenários fictícios a partir de um “mapa de tecnologia” montado com base em pesquisas científicas e possíveis externalidades (desafios, regulamentações, conflitos e dilemas). Para Lee, após uma evolução lenta por décadas, nos últimos cinco anos a IA se tornou a tecnologia mais avançada do mundo. Contudo, a complexidade e a opacidade dos sistemas favorecem a especulação. O carro autônomo ilustra bem a lacuna entre expectativa e realidade.

Cinco anos atrás, praticamente, todos os principais fabricantes de veículos motorizados e empresas de alta tecnologia previram a implantação generalizada de sistemas de direção automatizada até 2020, previsão replicada pela mídia mundo afora. Steven Shladover, engenheiro especializado e um dos fundadores do Partners for Advanced Transportation Technology (PATH) - programa líder em pesquisa de Sistemas Inteligentes de Transporte da Universidade da Califórnia, Berkeley -, em artigo recente, vaticina: "As operações automatizadas só serão viáveis durante os próximos anos dentro de condições estreitamente definidas. Devemos esperar algumas implementações limitadas de caminhões automatizados de longa distância em rodovias rurais de baixa densidade e entrega local automatizada de pequenos pacotes em ambientes urbanos e suburbanos durante a década atual. Serviços automatizados de caronas urbanas e suburbanas também podem se tornar disponíveis de forma limitada, mas os desafios específicos do local para sua implantação são suficientes para que seja improvável que atinja uma escala nacional em breve”.

O protagonismo da IA em processos eleitorais é outro mito. Yochai Benkler, professor da escola de direito na Universidade de Harvard, Robert Faris e Hal Roberts realizaram um dos mais completos estudos sobre as eleições americanas de 2016, publicado, em 2018, no livro “Network Propaganda: manipulation, disinformation, and Radicalization in American Politics”. Os autores concluíram que a eleição de Donald Trump decorreu mais da dinâmica do ecossistema de mídia dos EUA e da polarização política assimétrica do que por sistemas comerciais de publicidade. Segundo os autores, “a publicidade psicograficamente microdirecionada da Cambridge Analytica é altamente improvável de ter feito diferença na campanha de 2016”, e alertam para a tendência dos analistas em atribuir à responsabilidade de problemas históricos da sociedade, por ser o elemento novo mais visível, às tecnologias digitais.

É inestimável a contribuição de Shoshana Zuboff no entendimento do modelo de negócio baseado em dados (“data-driven models”) e algumas de suas consequências. Militante contra o poder das big techs, seu livro “The Age of Surveillance Capitalism: The fight for a human future at the new frontier of power” (2019) é permeado de afirmações contundentes - “exploração dos dados comportamentais para ler as mentes dos usuários tornando possível saber o que um determinado indivíduo em um determinado momento e lugar estava pensando, sentindo e fazendo” - , contudo, em sua maioria, não explicita as evidências (fundamento de qualquer pesquisa empírica crível) e/ ou não explicita as amostras base das pesquisas (parte significativa das amostras são de perfis “Weird” - Western, Educated, Industrialized, Rich, Democratic - ou seja, enviesada). Conhecer o “consumidor target” para influenciar suas escolhas é a essência da propaganda, que há décadas migrou o foco da funcionalidade do produto (“valor de uso”) para o desejo e a emoção do consumidor; o que precisa ser investigado, com metodologias científicas, é a mudança de natureza derivada da coleta e mineração de dados em larga escala, ou seja, a natureza da disrupção (partindo do pressuposto que ela existe).

O historiador Yuval Harari (“Homo Deus: Uma breve história do amanhã”, 2016) afirma que no século XXI, a partir de bases de dados gigantescas e poder computacional inédito, os algoritmos “sabem não apenas como você se sente, como sabem 1 milhões de outras coisas a seu respeito das quais você mal suspeita”. Harari, igualmente, não revela a fonte dessas afirmações. Pode ser que sejam verdadeiras, pode ser que não, o ponto é que essas afirmações, ditas por autores de referência, são replicadas sem o devido questionamento: alguém conhece uma pesquisa empírica qualificada (método científico, extensa base de dados) que confirme tamanho poder e influência dos algoritmos de IA sobre a decisão dos indivíduos e, particularmente, sobre a formação da subjetividade humana?

Ao condenar o uso da IA com foco nas externalidades negativas, eliminamos, simultaneamente, as externalidades positivas. A arquitetura de redes neurais GAN (Generative Adversarial Network), por exemplo, é combatida por gerar as chamadas “Deep Fakes”, mas elas têm potencial de contribuir positivamente em outras áreas, como na saúde. Diferente da CNN (Convolutional Neural Network) - arquitetura de rede neurais aplicada em visão computacional para identificar e classificar objetos -, a GAN cria imagens bi ou tridimensionais (imagem, voz, vídeo) possibilitando, por exemplo, criar dados sintéticos de qualidade, suprindo a carência de dados para pesquisas médicas, e melhorar uma imagem de tomografia computadorizada e/ou ressonância magnética em baixa resolução (menos tempo de exposição, protege o paciente de altas doses de radiação).

A técnica que permeia quase todas as implementações de IA hoje, chamada de redes neurais profundas ou deep learning, é “apenas” um modelo estatístico de probabilidade com aplicação restrita ao desempenho de tarefas específicas (previamente determinadas). Como todos os modelos estatísticos de probabilidade, existe uma variável de incerteza intrínseca, produzem conhecimento provável, mas inevitavelmente incerto. A personalização é com base em "clusters", não é individual, agrupa conjunto de usuários com perfis similares. A capacidade preditiva desses modelos decorre de variáveis pré-estabelecidas pelos desenvolvedores, logo incorpora a subjetividade humana; seus algoritmos são treinados em bases de dados, em geral, tendenciosas; e a visualização dos resultados nem sempre é trivial de ser assimilada pelos usuários. Ou seja, são modelos limitados sem essa suposta objetividade e precisão.

Evitando supervalorizar ou demonizar a IA, o desafio é conhecer o funcionamento e a lógica da tecnologia para aproveitar os benefícios e mitigar os riscos.

LEIA TAMBÉM:

Homo Deus Não

SAPIENS – Harari,Marx e Engels

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 (*) Originalmente publicado em Época Negócios, 01 de outubro – 2021

(**) Dora Kaufman professora do TIDD PUC - SP, pós-doutora COPPE-UFRJ e TIDD PUC-SP, doutora ECA-USP com período na Université Paris – Sorbonne IV. Autora dos livros “O Despertar de Gulliver: os desafios das empresas nas redes digitais”, e “A inteligência artificial irá suplantar a inteligência humana?”. Professora convidada da Fundação Dom Cabral.

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Piketty: "Que venha o socialismo!"

Em Junho de 2019, ao introduzir uma entrevista do Prof. Jean Ziegler publicada neste Blog dizíamos que “(...)Carecemos de uma alternativa consistente ao capitalismo, uma proposta elaborada democraticamente que desenhe uma outra sociedade, que garanta a preservação do planeta, a extinção da miséria e a redução das desigualdades.” Agora, em entrevista ao jornal francês “Le Point”, Thomas Piketty lança um novo livro “Que venha o socialismo” no qual retoma o desafio de desenhar uma alternativa democrática ao capitalismo.

Na apresentação da obra, o autor defende que não podemos nos contentar em sermos “contra” o capitalismo ou o neoliberalismo e que é preciso ser “a favor” de algo. Segundo ele, apesar das críticas existentes, socialismo continua sendo o termo mais adaptado para designar a idéia de um sistema econômico alternativo ao capitalismo. Abaixo a reportagem da “Carta Capital”* diz mais sobre tal proposta.

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Em novo livro, Piketty defende socialismo e diz: ‘desigualdade não gera crescimento’

Autor defende que não se deve somente ser contra o capitalismo ou neoliberalismo; é preciso ser a favor de algo.

A revista francesa Le Point desta semana traz uma entrevista com o economista francês Thomas Piketty. O autor do best seller “O Capital no Século XXI” acaba de lançar um livro no qual reúne suas crônicas econômicas publicadas nos últimos quatro anos.

Após a publicação em 2019 de “Capital e Ideologia”, um livro de mais de 1.200 páginas, e de um filme documentário que estreou este ano e cujo título retoma o nome seu best seller, Piketty lança este mês “Vivement le socialisme!”, título que poderíamos traduzir como “Que venha o socialismo!”.

O economista Thomas Piketty

Na apresentação da obra, o autor defende que não podemos nos contentar em sermos “contra” o capitalismo ou o neoliberalismo e que é preciso ser “a favor” de algo. Segundo ele, apesar das críticas existentes, socialismo continua sendo o termo mais adaptado para designar a idéia de um sistema econômico alternativo ao capitalismo.

Nas páginas da revista Le Point o economista francês mais conhecido da atualidade denuncia novamente o que classifica como uma narrativa da desigualdade, imposta ao mundo desde o início dos anos 1980 pelo que ele chama de “revolução de Ronald Reagan”.

Piketty usa o exemplo dos Estados Unidos, que entre 1930 e 1980 aplicaram impostos visando os mais ricos, que chegaram a 90%.

No entanto, relembra o francês, Reagan foi eleito em 1981 e implementou uma reforma fiscal que reduziu os impostos a uma média de 28%.

“Os Estados Unidos são um caso extremo”, diz Piketty. “Eles inventaram um imposto progressivo bastante elevado, como em nenhum outro lugar, mas logo em seguida, com o mesmo vigor, foram no sentido oposto.”

O economista explica que o objetivo da Casa Branca na época era incentivar o crescimento do país, mesmo que isso representasse um possível aumento das desigualdades.

Renda dos americanos caiu pela metade em 30 anos

Ao avaliar a estratégia de Reagan, Piketty argumenta que a ideia do presidente não era absurda, mas não deu certo. “Trinta anos mais tarde, constatamos que os americanos não alcançaram o aumento de renda esperado e, ao contrário, a taxa de crescimento da renda por habitante caiu pela metade entre 1990 e 2020.”

Além disso, os salários dos mais pobres estagnaram – um fenômeno que, segundo o francês, ajudaria a explicar a instabilidade política atual nos Estados Unidos.

“O sistema de desigualdade no qual se construiu a globalização desde os anos 1980 não apenas foi ineficaz para gerar crescimento, como também é cada vez mais insustentável do ponto de vista político. A classe média e os mais pobres não querem mais isso e votam contra a Europa e a globalização sempre que podem”, lança o economista, citando como exemplo o apoio, principalmente entre o eleitorado mais jovem, às propostas de Elizabeth Warren e Bernie Sanders para a criação de uma taxa anual de 8% para os bilionários nos Estados Unidos.

Se inspirar no que deu certo no século 20

Ainda usando o caso norte-americano, Piketty fala da questão da educação como outro parâmetro da desigualdade. Se o crescimento nos Estados Unidos caiu pela metade desde os anos 1980, isso se deve também à estagnação educativa, acusa o economista.

“O país ainda tem grandes universidades, ricas e no topo dos rankings, mas 70% dos americanos mais pobres não têm acesso a uma boa educação. Os Estados Unidos perderam seu avanço histórico nessa área”, aponta Piketty.

O francês utiliza o exemplo da economia norte-americana antes de Ronald Reagan para, como ele mesmo afirma, se basear no que teria dado certo no mundo durante o século 20.

“Eu mencionei o imposto progressivo dos Estados Unidos – que cobra mais dos que ganham mais – porque ele permitiu reduzir muito a desigualdade sem impedir o crescimento, pois a receita gerada – pelos encargos – serviu para investir na educação, na saúde e nas infraestruturas”, detalha o francês.

“A lição que podemos tirar de tudo isso é que correr em busca de cada vez mais desigualdade não é o que gera crescimento econômico”, resume Thomas Piketty nas páginas da revista Le Point.

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(*) Originalmente publicado em Carta Capital-Economia, 9 de outubro de 2020. 

Leia também: Fadiga do capitalismo.

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Os ladrões das multidões

Sergio Augusto de Moraes
Dezembro - 2019
Nos ensaios* “Robôs e Capitalismo” e "Capitalismo na era do computador" , Tessa M. Suzuki** demonstra e discute:
a) o deslocamento no capitalismo tardio, do local de produção da mais-valia, da linha de produção material de mercadorias, típicas do capitalismo industrial, para a produção imaterial de conhecimento incorporado às inovações;
b) que, nestes casos, a inovação tem que ser contínua e perpétua;
c) que assim o conhecimento é transformado em mercadoria;
d) que a mercadoria conhecimento torna-se um produto da sociedade como um todo;
e) que quem “captura” o conhecimento social e o transforma em mercadoria, dele extraindo mais-valia, são as grandes corporações;
f) que a sociedade como um todo, e não uma classe específica, passa a ser o objeto da exploração por aquelas corporações.

Por outro lado, Don Tapscott, canadense especialista em internet corporativa, em entrevista sobre Sociedade e Internet***, diz que “A idéia de que a concentração de informação é sinônimo de poder faz parte do velho modelo industrial. A dinâmica das revoluções se baseava num líder e numa vanguarda...foi assim com George Washington, Fidel Castro e Mao-Tsé-Tung. Agora, como a internet reduz o custo da colaboração, as pessoas podem se unir da noite para o dia com uma força tão extraordinária a ponto de, no Egito, derrubar Hosni Mubarak, na Tunísia...etc” .
Hoje poderíamos acrescentar: no Brasil em 2013, na França, na Bolívia, na Colômbia, no Chile.
Parece que a universalização e o acesso instantâneo à informação e ao conhecimento tem dois lados: por um serve de base às grandes corporações para continuar extraindo mais-valia; por outro é um instrumento indispensável às grandes manifestações populares de nossos dias.
Mas como vemos, nestes casos, isto não basta. Falta definir quem somos e para onde queremos ir.

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*Aqui disponibilizados em sua íntegra, versões em português, através dos links:
Tessa Morris-Suzuki, “Robots and Capitalism”, New Left Review 147, setembro/outubro, 1984. A autora deu sequência ao debate suscitado por este artigo mediante a publicação de “Capitalism in the computer age”, New Left Review, I/160, Novembro-Dezembro 1986. Foram republicados pela editora Verso Books em “Cutting Edge – Technology, Information, Capitalism and Social Revolution”, London, New York, 1997.

*** Entrevista “A inteligência está na rede” Veja, edição 2212, em 2011.

SEU EMPREGO ESTÁ AMEAÇADO?

Seu emprego pode estar ameaçado pelos robôs. Como preparar-se para transitar para outro? Ou para outro trabalho?
Difícil é passar de um trabalho material para outro imaterial. Isto está posto com urgência para a sua geração, a de seus filhos e a de seus netos. O artigo a seguir tenta levantar a ponta do véu que encobre as questões de fundo envolvidas neste assunto. Indispensável.
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Capitalismo da Informação

Alfredo Maciel da Silveira
Setembro/ 2019
Desde a reestruturação industrial iniciada nos anos 70, com introdução da microeletrônica nos processos industriais e o avanço para a robotização e automação que prosseguem até hoje, abrira-se o debate sobre o futuro do capitalismo, tendo em vista que sua dependência da exploração da força de trabalho humano (trabalho vivo) aplicada diretamente nas linhas de produção estaria agora posta em xeque pela progressiva extinção daquela forma de trabalho. Até mesmo em interpretações neoconservadoras deste fenômeno contemporâneo, o capitalismo estaria em transição “suave” para o que denominaram uma “sociedade pós-industrial” e não mais “capitalista”.
Nos anos 80, debruçando-se sobre o campo de observação das regiões do mundo que estiveram na vanguarda daquelas transformações, percebíveis já na ocasião quanto a seus desdobramentos e tendências futuras, as pesquisas de Tessa Morris-Suzuki (doravante TMS) resultaram nos dois premonitórios e seminais artigos(1), objetos de apresentação neste presente texto cuja intenção é lhes servir como um guia de leitura.
Embasada no quadro conceitual da teoria do valor-trabalho e na abordagem marxista da dinâmica do capitalismo (fazendo-nos inclusive lembrar um paralelo com Marx, que se inspirara na observação do nascente capitalismo industrial da Inglaterra, vanguarda de seu tempo), a autora interpreta os novos fenômenos, não como tendentes aos “limites absolutos” do sistema capitalista, mas sim como manifestação da metamorfose do próprio capitalismo no rumo do que denominou “capitalismo da informação”. Isto lhe permitirá levantar o véu das relações de trabalho e das relações de dominação de classe nas novas condições de funcionamento do sistema. E, finalmente, trazer-nos sua contribuição para o esclarecimento do novo contexto social que deve embasar a ação política transformadora da sociedade.
Aqui não se pretende retomar a discussão - ensejada pelo seu primeiro artigo de 1984 - da teoria do valor-trabalho e de seu lugar na análise da autora, o que de resto ela já o fez no artigo de 1986 (ver Nota 1 ao final). Mas dado o lugar central do processo inovativo na análise da autora, ajuda-nos a compreensão dos dois artigos se começarmos pela crítica mais recente, focada na arguída dificuldade da relação entre valor-trabalho e inovação.
A crítica à teoria do valor-trabalho no ambiente de inovação concentra-se no caráter não repetitivo desta para justificar a "impossibilidade" de se lhe atribuir valor. Mesmo nos marcos tradicionais do capitalismo industrial - que TMS demonstrará estar superado pelo atual "capitalismo da informação" ou informacional - aquela crítica parece não considerar que em grande medida e desde o início do capitalismo, foram institucionalizados mecanismos defensivos dos detentores da inovação, mediante registro de marcas, patentes, copyright, licenças, de modo a lhes conferir o caráter de mercadoria, ou seja, de modo que se lhe pudesse  atribuir valor de troca, ou dela extrair lucros de monopólio. 
Posteriormente, ainda nos marcos do capitalismo industrial, o processo inovativo se rotinizou e se institucionalizou nas estruturas das grandes corporações, de modo a se converter num fluxo contínuo de inovação, na busca incessante dessas organizações em preservar posições monopolistas e assim auferir lucros de monopólio. Portanto já havia passado a época de um Edison-gênio da lâmpada incandescente, ou de um Tesla-gênio do motor de indução, e de tantos outros que personificavam a autoria e propriedade da inovação.
Desde há aproximadamente um século, a principal forma de concorrência intercapitalista não é em preço, qualidade, etc. É justamente a concorrência em inovações, ponto central da linha de pesquisa neo-schumpeteriana(2) na ciência econômica contemporânea.
Portanto, bem antes das tendências à automação e do recuo do trabalho material, já havia intensa apropriação privada do trabalho vivo (material e imaterial) incorporado ao processo inovativo.
Assim pois se chega ao que parece a dificuldade maior da crítica dantes mencionada. Ao apontar a dificuldade de valoração do "trabalho de inovação" pela ausência de "trocas repetidas" ela nega o que é flagrante: a incorporação crescente e rotineira do trabalho vivo ao fluxo inovativo, reconhecidamente o lugar central da concorrência intercapitalista.
Mas TMS subordina esse conceito de inovação a um outro muito mais amplo que é o da produção de conhecimento.
Na verdade, desde fins do século passado assiste-se à confluência de dois processos. Ao processo inovativo, da concorrência schumpeteriana, característico do secular capitalismo industrial e plenamente institucionalizado em sua fase monopolista, superpõe-se a onda devastadora do novo “capitalismo da informação” (TMS), a deslocar o foco da produção de bens para a da produção de conhecimento.
A partir do último quarto do século XX deflagrou-se a larga onda de revolução científico-tecnológica que prossegue em nossos dias, a refazer toda a base produtiva, os meios e formas de vida humanas, a estrutura social e o ambiente cultural. Na produção e nos serviços ao nosso redor, inclusive na vida doméstica, assiste-se à introdução da robótica e da chamada “inteligência” artificial, a apontarem tendência à automação radical e com esta a eliminação do trabalho vivo material nas linhas de produção tal como historicamente vicejou sob o clássico paradigma do capitalismo industrial.
Prossegue e exacerba-se o processo inovativo, inclusive aquele inerente à própria onda de destruição criativa da revolução científico-tecnológica, centrado em atividades nas quais a energia humana vertida em trabalho desloca-se intensamente do campo material para o imaterial. Mais importante do que a tendência à automação, a novidade é trazida pela revolução informacional contemporânea. A escala e abrangência generalizada, amplamente difundida em todos os setores da produção e da vida, adquirida pelo conhecimento como insumo da produção, e as diversas peculiaridades econômicas e morfológicas deste insumo, seja como bem livre, seja como mercadoria, traz a debate as mutações do sistema produtivo e das relações de produção, reiterando antigas questões sobre as formas de apropriação do valor criado, e da distribuição da renda e da riqueza social.
Note-se que em sua evolução, as categorias do conhecimento e da informação tornam-se “irmãs siamesas” porquanto em regra geral, a circulação da primeira é necessariamente mediada pela segunda. Daí que no discurso analítico sobre o novo ambiente socioeconômico em evolução se observe o trânsito contínuo entre as duas categorias. Isto é bem presente nos referidos trabalhos de TMS.
Veja-se ilustrativamente esta passagem, onde a autora realça que a verdadeira essência das transformações então em curso nos anos 80 não estava simplesmente na tendência à automação, mas sim na passagem da produção de bens para a de conhecimento-informação como mercadoria(3):
 “(...) Um mundo de ficção científica, de uma economia inteiramente automatizada, só tem importância enquanto nos ajuda a entender os processos reais do desenvolvimento contemporâneo. No meu artigo antecedente eu sugeri que uma característica essencial daquele desenvolvimento é não simplesmente a automação da produção, mas um deslocamento no foco da atividade econômica da fabricação de bens materiais para a produção de conhecimento. Isto acontece de três maneiras. Primeiramente as companhias introduzem na produção equipamentos controlados por processadores eletrônicos, e assim a força de trabalho vem a ser concentrada mais e mais nas áreas de planejamento, pesquisa e desenho: continuamente modificando e desenvolvendo o conhecimento a ser aplicado na fabricação de bens materiais. Neste caso a empresa não vende imediata e diretamente informação como mercadoria mas a utiliza para aumentar o valor de seus produtos finais. Em segundo lugar, um número crescente de empresas começam a se especializar na produção e venda da mercadoria “informação para a produção”, isto é, a comercialização de desenho, software, bases de dados, etc, que será utilizada por outras firmas em seus processos de produção. Em terceiro lugar, há também uma expansão da produção e venda da “informação bem de consumo”, na forma de livros e periódicos, programas de TV, vídeos, softwares de uso doméstico, e assim por diante.”
A autora analisa em profundidade a existência de amplo estoque de conhecimento social livre, portanto sem um preço, cuja apropriação desigual pelo poder assimétrico das grandes empresas permite-lhes a produção de novos conhecimentos, estes sim de caráter privado e destinados a venda no mercado, portanto mediante um preço.
Citando:
 “(…)Uma vez mais nos defrontamos com o fato de que na produção de informação o conhecimento social livre é apropriado e convertido em fonte de lucro privado. Fomos movidos para fora da imagem do capitalismo clássico descrita por Marx, onde os insumos da produção são comprados no mercado a preços competitivos e onde as fontes de exploração podem consequentemente situar-se somente no próprio processo de trabalho. Agora é teoricamente possível para as corporações extraírem lucros sem a exploração direta de sua força de trabalho, mediante o uso de um bem livre, para criar um produto que então temporariamente se torna monopólio privado da corporação”.
Ao longo especialmente de seu segundo artigo, de 1986, a autora problematiza os limites da teoria marxista tradicional do valor-trabalho para dar conta dessas condições contemporâneas em que parte significativa dos lucros provém da produção e venda da mercadoria conhecimento, tendo por insumos outros conhecimentos socialmente gerados desde fora do trabalho direto na linha de produção. Remete-se inclusive ao Marx dos “Grundrisse”, que antevia um mundo da exploração da força de trabalho social, generalizada, e não mais a dos trabalhadores diretamente envolvidos no processo produtivo.
Por essa linha de argumentação a autora chega ao ponto central de sua tese das mutações que conduziram a um “capitalismo da informação”, onde há esferas de exploração de valor criado pelo trabalho para alem do circuito de produção. E questiona:
 “(…) Se aceitarmos que a exploração direta do trabalho está se tornando menos importante como fonte de lucro, e que a exploração privada do conhecimento social está se tornando mais importante, podemos continuar a descrever o sistema econômico como “capitalista”? A resposta a esta questão inevitavelmente dependerá de nossa interpretação do termo “capitalista”. Como temos já indicado, uma sociedade na qual a produção comercial de informação é uma importante fonte de lucro privado não constitui um sistema generalizado de produção de mercadorias. Mas ela retem a característica fundamental do capitalismo: aquela de que a concentração privada da propriedade nas mãos de uma pequena fração da sociedade habilita-lhe apropriar-se de uma fração desproporcional do produto social(…)”
Para mais adiante sumarizar:
 “(…)Capitalismo, em outras palavras, é um sistema dinâmico, capaz de assumir formas muito diferentes em distintos contextos históricos. O capitalismo industrial, baseado na exploração direta da força de trabalho manufatureira é transmutado pelo processo de automação em um novo sistema onde a exploração crescentemente engloba todos aqueles envolvidos na criação do conhecimento social e na sua transmissão de geração a geração. Contra a idéia de uma sociedade “pós-industrial” ou “pós-capitalista”, contrapomos a idéia do “capitalismo da informação”, onde os altos níveis de automação e a “informatização[softening] da economia” coexistem com novas e ampliadas esferas de exploração de muitos por poucos”.
Na parte final da exposição a autora analisa em mais detalhe:
1) o conhecimento social como fonte de lucro privado;
2) as relações de trabalho que asseguram o controle da informação pelas grandes corporações privadas e, finalmente;
3) o novo contexto social que deve embasar a ação política transformadora.

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Notas

[1] Tessa Morris-Suzuki, “Robots and Capitalism”, New Left Review 147, setembro/outubro, 1984. A autora deu sequência ao debate suscitado por este artigo mediante a publicação de “Capitalism in the computer age”, New Left Review, I/160, Novembro-Dezembro 1986.
Ambos os artigos, em português, podem ser acessados respectivamente em:
[2] Joseph Schumpeter, através de suas obras durante o século XX, teorizou o desenvolvimento econômico como impulsionado por ondas de inovação e correspondente difusão, numa sucessão de desequilíbrios indutores de investimento e de renovação das estruturas produtivas (“destruição criativa”). No que importa mais de perto ao referido neste artigo como sendo a linha de pesquisa “neo-schumpeteriana”, trata-se do aspecto da mencionada institucionalização do processo inovativo, como um fluxo contínuo ancorado em estruturas especializadas das grandes corporações, tais como as já tradicionais atividades de “Pesquisa e Desenvolvimento – P&D”, e que hoje se estendem por redes de pesquisa cada vez mais e mais complexas, integradas e internacionalizadas inclusive através de mercados.
[3] As citações, traduzidas pelo autor, pertencem ao artigo de 1986, “Capitalism in the computer age”, referido na Nota 1 acima.

Fadiga do capitalismo

O avanço da ultra-direita que ameaça o mundo não é uma consequência da “fadiga da democracia” como dizem alguns, e sim da fadiga do capitalismo, que não consegue sair da crise iniciada em 2008 sem golpear a democracia, os direitos políticos e sociais conquistados pela luta dos povos. Carecemos de uma alternativa consistente ao capitalismo, uma proposta elaborada democraticamente que desenhe uma outra sociedade, que garanta a preservação do planeta, a extinção da miséria e a redução das desigualdades.
Na entrevista abaixo* o professor suíço Jean Ziegler ilumina elementos para tal proposta e aponta nesta direção.
Ziegler: “as sociedades multinacionais privadas são as verdadeiras donas do mundo”. Foto: Henning Kaiser / Picture Alliance / Getty Images

A Esperança está na Sociedade Civil Planetária, segundo Jean Ziegler.

Descrentes da democracia representativa, os cidadãos vivem hoje um “desespero silencioso e secreto”, num mundo controlado pelas corporações globais. Para o sociólogo suíço Jean Ziegler a esperança está na “sociedade civil planetária.”

1. Vemos em diferentes partes do mundo uma reação popular contra partidos tradicionais e contra a política. Também vemos a vitória de políticos como Orbán, Trump, Salvini e Bolsonaro. Por qual motivo o senhor acredita que estamos vendo essa onda?

O mundo se tornou incompreensível para o cidadão, que não mais consegue lê-lo. As 500 maiores empresas multinacionais privadas — reunindo todos os setores, como bancos, indústria e serviços — têm 52% do PIB do mundo. Elas monopolizam um poder econômico-financeiro, ideológico e político que um imperador ou papa jamais teve na história da humanidade. Elas escapam de todos os controles do Estado, parlamentares, sindicais ou qualquer outro controle social. Têm apenas uma estratégia: maximização dos lucros no tempo mais curto e não importa a qual preço humano — ainda que sejam responsáveis, sem dúvida, por um processo de invenção científica, eletrônica e tecnológica sem precedentes e de fato extraordinário. Até o fim da União Soviética, um terço dos habitantes do mundo vivia sob algum tipo de regime comunista. O capitalismo estava regionalmente limitado. A partir de 1991, o capitalismo se espalhou por todo o planeta e instaurou uma só instância reguladora: a mão invisível do mercado. Isso produziu uma ideologia que alienou totalmente a consciência política dos homens e que dá legitimidade a uma só instância de regulação: o neoliberalismo. Esse sistema sustenta que não são os homens que fazem a história, mas os mercados, e que as forças do mercado obedecem às leis da natureza.

2. E qual é a implicação disso para o cidadão?

É dito ao homem que, por não ser mais o sujeito da história, cabe a ele se adaptar ao mundo. De fato, entre o fim da URSS, no começo dos anos 90, e os anos 2000, o PIB mundial dobrou. O volume do comércio se multiplicou por três e o consumo de energia dobrou em quatro anos. É um dinamismo formidável, mas isso tudo ocorreu de uma forma concentrada e nas mãos de um número reduzido de pessoas. Se considerarmos a fortuna pessoal dos 36 indivíduos mais ricos do mundo, segundo a Oxfam ( organização mundial contra a pobreza ), ela é igual à renda dos 4,7 bilhões de pessoas mais pobres da humanidade. Segundo um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura sobre a insegurança alimentar, a cada cinco segundos uma criança com menos de 10 anos morre de fome ou de suas consequências imediatas no mundo. O mesmo relatório diz que, em seu atual estado de desenvolvimento, a agricultura poderia alimentar normalmente 12 bilhões de seres humanos. Ou seja, quase o dobro da humanidade. Não há fatalidade. A fome é feita pelas mãos do homem e pode ser eliminada pelos homens. Uma criança que morre de fome é assassinada.

3. Isso é sustentável?

De forma alguma. A desigualdade não é só moralmente vergonhosa. Também faz com que o estado social seja esvaziado. Os mais ricos não pagam impostos como deveriam. Os paraísos fiscais, o segredo bancário suíço — que continua —, isso tudo permite uma enorme opacidade. Empresas são contratadas para criar estruturas que impedem que os reais donos do dinheiro sejam encontrados em sociedades offshore. Os documentos revelados pelo Panama Papers mostram muito bem isso. Portanto, podemos dizer que as maiores fortunas do mundo e as maiores multinacionais pagam os impostos que querem.

4. E qual a consequência disso?

O fato de que os mais ricos pilham o país e não pagam impostos gera duas situações: esvazia a capacidade social de resposta dos governos e impede a contribuição obrigatória dos países mais ricos às organizações especializadas da ONU que lutam contra a miséria no mundo. Portanto, esse sistema mata. No fundo, essa ditadura do mercado faz com que os cidadãos entendam que não é o governo no qual eles votaram que tem o poder de definir o destino. Isso cria uma insegurança completa e a desigualdade não é controlável. Se não bastasse, o cidadão é informado que seu emprego passa por um período profundo de flexibilização. Na França, há 9 milhões de desempregados, e três quartos dos empregos no setor privado são contratos de duração limitada. Outros milhões vivem de forma precária, como a maioria dos aposentados.

5. Quem são, portanto, os atores que influenciam o destino econômico de um país?

Vou dar um exemplo. As sociedades multinacionais privadas são as verdadeiras donas do mundo. Nos Estados Unidos, sob a administração Obama, foi criada uma lei que proibia o acesso, ao mercado americano, de minerais que tivessem sido extraídos por crianças, principalmente de minas no Congo. O cobalto, por exemplo, foi um deles. Essa lei gerou a mobilização de empresas como Glencore, Rio Tinto e tantas outras. Elas denunciaram que isso era inaceitável, por ser contra a liberdade dos mercados. Uma das primeiras medidas que Donald Trump tomou ao assumir o governo, em janeiro de 2017, foi a de acabar com essa lei. Como esse, existem muitos outros exemplos em meu livro.

6. Em quais setores?

A agricultura é outro. Em 2011, três semanas antes da reunião do G7 em Cannes, o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, foi à televisão e declarou que proporia que a especulação nas bolsas e no mercado financeiro fosse proibida, principalmente sobre arroz, milho, trigo e outros produtos agrícolas de base. Seria uma forma de lutar contra o aumento de preços dos alimentos básicos, especialmente nos países mais pobres. Faltando poucos dias para o G7, a França retirou sua proposta, depois de ter sido pressionada pelas grandes empresas do setor, como Unilever, Nestlé e outras.

7. O que isso significa para uma democracia?

É um sistema que priva o cidadão, mesmo numa democracia, de todo tipo de resposta efetiva à precariedade, à desigualdade, que destrói o estado social. É nesse contexto que se cria um desespero silencioso e secreto entre os cidadãos. E, como sempre ocorreu na história e como ocorreu nos anos 30 na Alemanha, é nesse momento que vêm os grupos de extrema-direita com sua estratégia de criar um bode expiatório.

8. De que forma?

O discurso é simples. Eles chegam e declaram ao cidadão: “Sim, sua situação é insuportável. Você tem razão”. Não falam como outros, que tentam dar esperanças ou dizer que as coisas vão melhorar. Mas, num segundo momento, o que fazem? Apresentam um bode expiatório para essa crise. Na Europa, são os imigrantes e os refugiados. A estratégia do bode expiatório tem funcionado. Basta ver os resultados do partido Alternativa para a Alemanha. Hoje, ele tem o mesmo número de representantes no parlamento que o tradicional SPD, o partido social-democrata alemão, de políticos como Willy Brandt. O mesmo ocorreu na Itália, com Matteo Salvini; na Hungria, com Viktor Orbán; na Holanda; na Áustria. Além disso, a consciência coletiva está sendo cimentada por uma ideologia neoliberal de que o homem não é mais o sujeito da história e que apenas pode se adaptar à situação e às forças do mercado, que obedecem às leis naturais.

9. Tal cenário ameaça minar a própria democracia?

Jean-Jacques Rousseau publicou O contrato social , em 1762, que foi a Bíblia para a Revolução Francesa. Ele descreveu a soberania popular e o fato de darmos voz a alguém para nos representar. A delegação é um pilar do contrato social. Mas esse contrato social, que é a fundação da República, está esgotado. A democracia representativa está esgotada. O povo não acredita mais nela. O povo vê que, ao votar em um deputado, não é ele que toma decisões, mas a ditadura mundial das oligarquias do capital financeiro globalizado. Ao mesmo tempo, esse povo não está disposto a abrir mão de seu poder nem de sua capacidade de intervenção. No caso dos coletes amarelos, na França, um dos pontos principais é o apelo por referendos populares como mecanismo. O que eles estão dizendo é: o parlamento faz o que quer. Queremos ter o direito de propor leis, de votar nelas.

10. E quais são as respostas possíveis?

Retirar das consciências essa placa de cimento que foi imposta. Liberar a consciência dos homens, que é, por natureza, uma consciência de identidade. Se um homem, de qualquer classe social ou de qualquer religião, vir diante dele uma criança martirizada, algo de si se afunda. Ele se reconhece imediatamente nela. Somos a única criatura na Terra com essa consciência da identidade. E é por isso que milhões de jovens na Europa e na América do Norte se mobilizam em imensos cortejos, todas as semanas, pela sobrevivência do planeta e contra o capitalismo. O que eles estão dizendo a seus governos? Assim não podemos continuar. Façam algo contra essa ordem canibal do mundo.

11. A questão climática pode ser decisiva nesse contexto para modificar a forma de pensamento?

Pelo Acordo de Paris, cada um dos 190 Estados que o assinaram assumiu obrigações precisas para limitar as emissões de CO2 na atmosfera. Do total de CO2 emitido, 85% vem de energias fósseis. O acordo pede que as cinco maiores empresas de petróleo reduzam 50% de sua emissão até 2030 e deem parte dos lucros ao desenvolvimento de energia alternativas, como solar, eólica e outras. Mas o que é que ocorreu desde 2015? As cinco grandes empresas de petróleo do mundo aumentaram sua produção, em média, em 18%. E financiaram energias alternativas somente em 5%. Os jovens dizem: isso não funcionará.

12. Onde está a esperança?

Na sociedade civil planetária. Na miríade de movimentos sociais — Greenpeace, Anistia Internacional, movimento antirracista, de luta pela terra — que lutam contra a ordem canibal do mundo. São entidades que não obedecem a um comitê central ou a uma linha de partido e que funcionam por um só princípio: o imperativo categórico. Kant dizia: “A desumanidade infligida a um outro humano destrói a humanidade em mim”. Eu sou o outro e o outro sou eu. Essa consciência, em termos políticos, cria uma prática de solidariedade entre os indivíduos e de reciprocidade entre os povos. Mas essa sociedade é invisível. Não tem uma sede. Ela é visível cinco dias por ano, no Fórum Social Mundial, organizado pelos brasileiros em Porto Alegre. O escritor francês George Bernanos escreveu: “Deus não tem mãos que não sejam as nossas”. Ou somos nós que mudaremos essa ordem canibal do mundo, ou ninguém o fará.

LEIA TAMBÉM: Piketty: "Que venha o socialismo!"

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(*) Por Jamil Chade, originalmente para a Revista Época, 31-05-2019


Três Visões do Super-Homem

Sérgio de Azevedo Morais*
Maio-2019

A publicação, neste blog, em julho de 2018, do ótimo artigo de Sergio Augusto de Moraes cotejando reflexões do escritor Yuval N. Harari sobre a evolução da espécie humana, expostas em seu livro “SAPIENS - Uma breve história da humanidade”, com o pensamento de Marx e Engels sobre o mesmo tema, convida a uma indagação sobre o futuro dessa evolução e, em especial, sobre a provável influência desse processo sobre a espécie humana nos séculos e milênios à nossa frente.
Imagem - Cirque du Soleil
Como é normalmente admitido, as mutações genéticas que determinaram o aparecimento do Homo Sapiens, assim como o de todas as classes de seres vivos que nos precederam na escala evolutiva –  desde os organismos unicelulares – deveram-se, essencialmente, ao acaso. O bioquímico francês Jacques Monod (1910-1976), Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1965, escreveu, em seu livro “O Acaso e a Necessidade” (1971), que se tornou um clássico:
“Dizemos que essas alterações são acidentais, que ocorrem ao acaso. E, porque elas constituem a única fonte possível de modificações do texto genético, segue-se necessariamente que apenas o acaso está na fonte de toda novidade, de toda criação na biosfera. O acaso puro, o só acaso, liberdade absoluta, mas cega, na raiz mesma do prodigioso edifício da evolução: hoje essa noção central da biologia moderna não é mais uma hipótese entre outras possíveis, mais ou menos concebíveis. É a única hipótese concebível, como também a única compatível com os fatos da observação e da experiência.”
É sabido que a certeza acima expressa não é compartilhada por todos. O que não nos impede de prosseguir. Mas não sem antes informar – o que pode interessar aos amigos deste blog – que Jacques Monod foi um herói da resistência francesa à ocupação alemã durante a segunda guerra mundial, tendo militado no Partido Comunista Francês nos últimos anos da guerra.
Prossigamos. A evolução, naturalmente, não se resume às mutações genéticas. Sabemos que determinadas mutações tornaram os indivíduos em que elas ocorreram mais – ou, eventualmente, menos – competitivos na luta pela vida, e este fator foi decisivo para a sobrevivência ou a extinção de todas as espécies que existem ou existiram em nosso planeta. Além disto, a sobrevivência e o predomínio de determinadas espécies foram favorecidos ou prejudicados pelo ambiente em que os seres mutantes estavam inseridos, por fenômenos naturais etc. No caso do Homo Sapiens e de seus ancestrais hominídeos, é evidente que as formas de organização social existentes à época em que as mutações se deram também influenciaram o sucesso ou a derrocada dos indivíduos mutantes.
Admite-se, de forma mais ou menos consensual, que no período abrangido pela História a configuração genética dos seres humanos tem-se mantido essencialmente estável. E parece razoável supor que, com as enormes populações distribuídas atualmente por todo o planeta, e com os conhecimentos e recursos à disposição das sociedades humanas, mutações genéticas que possam eventualmente ocorrer agora em alguns indivíduos não serão seguidas pela extinção dos indivíduos não mutantes – que em qualquer caso, formarão a imensa maioria.
Se for verdadeira a assertiva acima, a evolução humana possível ficará restrita à esfera dos fatos da consciência, da psique, da cultura, da organização social.
Jean-Jacques Elisée Reclus (1830-1905), um geógrafo e pensador anarquista que participou da Comuna de Paris e da primeira Internacional dos Trabalhadores, foi um pioneiro das preocupações com a Terra e a proteção do meio ambiente. É dele a seguinte sentença, notável tanto pela profundidade do “insight” quanto pela concisão de sua formulação: “O homem é a natureza tomando consciência dela mesma” (L’homme est la nature prenant conscience d’elle-même). Sentença relevante para a discussão da evolução, repetida, com pequenas variações (como: “no homem a natureza toma consciência de si mesma”), por pensadores de diversas orientações, como Nietschee Allan Watts.
A sentença de Reclus parece sugerir a existência de um “propósito” na natureza, que assim ficaria, de certa forma, “humanizada”. Muitos pensadores e especialistas nos advertem contra esta idéia. O próprio Jacques Monod afirmava:
“O primeiro postulado científico é a objetividade da natureza: a natureza não tem nenhuma intenção ou meta”.
“A ciência moderna ignora toda imanência. O destino se inscreve na medida em se que cumpre, não antes. O universo não estava grávido da vida, nem a biosfera, do homem. Nosso número saiu no jogo de Monte Carlo.”
Seja como for, se admitirmos que, como acima dito, a evolução humana atualmente possível ficou restrita à esfera dos fatos da consciência, da psique, da cultura, da organização social, podemos aceitar como desenvolvimentos evolutivos possíveis certos cenários vislumbrados – com maior ou menor clareza – por alguns pensadores. Embora muitos dos cenários anunciados possam ser considerados utópicos, não é absurdo admitir que as aspirações, os sonhos e as utopias de quem quer que seja são também, em certa medida, aspirações, sonhos e utopias da própria espécie humana. E a evolução possível de nossa espécie só poderá ocorrer no sentido da realização de pelo menos algumas delas.
Para ilustrar o que dissemos, apresentamos em seguida três textos inspirados e inspiradores de autores de épocas, origens e formação diversas: Rudyard Kipling(1865-1936), Francisco de Assis (1182-1226) e Lev Trotsky (1879-1940). Eles nos propõem ou nos anunciam modos mais perfeitos de sermos humanos, refletindo idéias de algumas das escolas de pensamento que têm influenciado nossa caminhada no mundo: o Cristianismo, o Estoicismo e o Marxismo. Embora só um dos mencionados textos mencione explicitamente o “super-homem”, o homem melhor, o homem novo, é dele que todos falam.
Ouçamos essas vozes. Elas tocam a sensibilidade de todos, independentemente de suas convicções, por serem fruto da labuta, da fé, do suor e do pranto, assim como da paixão, das lutas e do júbilo de multidões de pessoas, anônimas ou não, que passaram por este planeta. Elas expressam aspirações, sonhos e utopias de toda a espécie humana.


Se


Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais - tu serás um homem, ó meu filho! 
Rudyard Kipling, 1895 (tradução de Guilherme de Almeida)

Oração de Francisco de Assis

Senhor, fazei de mim um instrumento da Vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe.
É perdoando que se é perdoado.
E é morrendo que se vive para a vida eterna.
(Tradutor desconhecido)

O homem novo

“O homem será capaz de mover rios e montanhas, de construir palácios para o povo no topo do Mont Blanc e no leito do Atlântico; ele naturalmente será também capaz de comunicar a sua vida diária não apenas riqueza, colorido e intensidade, mas também supremo dinamismo... O homem assumirá como tarefa tornar-se mestre de seus próprios sentimentos, elevar os seus instintos até o ápice da consciência, torná-los transparentemente claros, implantar fios de guia (guiding threads) sob o limiar da consciência, criando assim um tipo sócio-biológico mais elevado ou – se quiserem – um super-homem. O homem se tornará incomparavelmente mais forte, mais sábio, mais refinado. O seu corpo – seus movimentos com maior harmonia, sua voz com mais ritmo – mais musical; as formas de existência adquirirão uma teatralidade dinâmica. O ser humano médio será exaltado ao nível de um Aristóteles, Goethe, Marx. Acima deste ápice novos cumes serão elevados.”
Lev Trotsky, Literatur und Revolution, Viena, 1924 (pp. 176-9)
(tradução do inglês por Sérgio de Azevedo Morais)
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(*) Sérgio de Azevedo Morais é engenheiro - UFRJ e Mestre em Ciências - Manchester University, Inglaterra.