População, alimentos e meio ambiente

Nos últimos meses cresceu o debate internacional sobre os problemas entrelaçados do desequilíbrio ambiental, da pressão sobre os recursos naturais pelas tecnologias atuais da produção de alimentos, do crescimento populacional global, e da potencial irradiação de novas pandemias nesse contexto.

Quanto ao crescimento da população mundial, cujas tendências, somadas aos padrões de consumo difundidos pelo capitalismo, pressionam os recursos naturais, a produção de alimentos e o equilíbrio ecológico, Sergio A. Moraes, em seu livro “Capitalismo e População Mundial”, abre a perspectiva da análise desse problema mediante a tese de K. Marx da subordinação no longo prazo do crescimento populacional às leis de reprodução do capital.

Em escala planetária, com as fronteiras abertas à integração dos mercados e ao acesso do capital aos imensos reservatórios de trabalhadores de baixo custo de reprodução, não estaria à vista nenhum interesse do capital em fazer valer as conquistas culturais e de conhecimentos das sociedades, engendradas sob este mesmo capitalismo, em prol de uma evolução mais equilibrada da população mundial.

Na sequência reproduzimos o Capítulo 6 do referido livro.

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População, alimentos e meio ambiente*

Sergio Augusto de Moraes**
Junho -  2021

 A “pegada ecológica” é uma metodologia utilizada para medir as quantidades de terra e água (em termos de hectares globais - gha) que seriam necessárias para sustentar o consumo atual da população. Considerando cinco tipos de superfície (áreas cultivadas, pastagens, florestas, áreas de pesca e áreas edificadas), o planeta Terra possui aproximadamente 13,4 bilhões de gha de terra e água biologicamente produtivas.

Segundo dados de 2010 da Global Footprint Network, a pegada ecológica da humanidade atingiu a marca de 2,7 gha por pessoa, em 2007, para uma população mundial de 6,7 bilhões de habitantes na mesma data (segundo a ONU). Isso significa que para sustentar essa população seriam necessários 18,1 bilhões de gha. Ou seja, já ultrapassamos a capacidade de regeneração do planeta no nível médio de consumo mundial atual, com pegada ecológica de 2,7 gha.

Sergio Augusto de Moraes

“Se a população mundial adotasse o consumo médio do continente africano - com pegada ecológica per capita de 1,4 gha - poderia atingir 9,6 bilhões de habitantes. Se o consumo médio mundial fosse igual à média asiática (com pegada ecológica de 1,8 gha), a população mundial poderia ser de 7,4 bilhões de habitantes. Com base na pegada ecológica da Europa (4,7 gha), não poderia passar de 2,9 bilhões de habitantes. Com a pegada ecológica da América Latina (2,6 gha), o limite seria de 5,2 bilhões de habitantes. Com as pegadas ecológicas da Oceania (5,4 gha) e dos Estados Unidos e Canadá (7,9 gha) precisaríamos parar em 2,5 bilhões e 1,7 bilhão de habitantes, respectivamente”.[1]

Esta fotografia da situação atual nos dá uma idéia da dimensão do problema que a humanidade enfrenta. E notem que estamos falando de médias que envolvem os mais ricos e os mais pobres de cada continente ou país.

O professor J. Eustáquio Diniz Alves acima citado conclui:

 

“Não há, evidentemente, como manter esse crescimento nos padrões de produção e consumo atuais. Para que a humanidade possa sobreviver e permitir a sobrevivência das demais espécies, será preciso promover uma revolução na matriz energética, incentivar a eficiência do uso de energia, reciclar e reaproveitar o lixo. Enfim, reduzir os desperdícios em todas as suas formas. Será necessário introduzir inovações tecnológicas nos prédios e casas para melhorar o aproveitamento da energia e a reciclagem de materiais, reforçar e melhorar o transporte coletivo, criar empregos verdes; ampliar as áreas de floresta e mata e a preservação ambiental”.

O autor lista ainda uma série de outras medidas que poderiam reduzir a agressão ao planeta, que vão desde avançar na aquicultura até a redução de bebidas alcoólicas e gastos militares .A projeção da situação atual para os próximos 40 anos  não melhora o quadro. Segundo a FAO:[2]

“(...) a população da terra deverá crescer dos 6,9 bilhões em 2010 para algo em torno de 9,2 bilhões em 2050, crescimento este localizado quase integralmente nas regiões menos desenvolvidas; e as maiores taxas de crescimento são previstas para os países mais pobres. Então algo em torno de 70% da população global deverá ser urbana comparada com os 50% atuais. Se as tendências atuais persistirem, a urbanização e o incremento dos rendimentos nos países em desenvolvimento redundarão num maior consumo de carne o que exigirá aumento da produção de cereais para alimentar os rebanhos. O uso de produtos agrícolas na produção de biocombustíveis também deverá crescer. Nos anos 2020 os países industrializados deverão consumir 150 kg de milho por pessoa  por ano sob a forma de etanol – similar às taxas de consumo alimentar de cereal por pessoa nos países em desenvolvimento(...).

(...)Tais mudanças na demanda levarão a uma significativa necessidade de aumento na produção de todos os principais alimentos. As projeções da FAO sugerem que por volta de 2050 a produção agrícola deverá crescer globalmente uns 70% - e quase 100% nos países em desenvolvimento - para atender somente a demanda por alimentos, excluindo a demanda adicional por produtos agrícolas usados na produção de biocombustíveis. Isto é equivalente a uma produção extra de cereais da ordem de um bilhão de toneladas e a 200 milhões de toneladas de carne a serem produzidos anualmente em 2050, comparados com a produção entre 2005 e 2007”.

O documento da FAO assinala as dificuldades para expandir as áreas de cultivo, as consequências do uso intensivo dos solos e as agressões ao meio ambiente e sugere um outro paradigma: a intensificação sustentável para o aumento da produção de alimentos.

 

“A intensificação sustentável da produção de alimentos, quando efetivamente implementada e suportada, provocará o “duplo ganho” requerido para atingir as duas mudanças de alimentar a população mundial e salvar o planeta” .

 Mais adiante afirma:

 

“Ao mesmo tempo que trará múltiplos benefícios para a segurança alimentar e o meio ambiente, a intensificação sustentável tem muito a oferecer aos pequenos agricultores  e às suas famílias - que constituem mais de um terço da população mundial - pelo aumento de sua produtividade, redução de custos, elevando sua resistência ao desgaste e fortalecendo sua capacidade de lidar com o risco”.

Tais objetivos são meritórios e as medidas indicadas, ainda em pequena escala mundial vem sendo implementadas em diversas regiões e por diversos organismos. Mas seria possível estendê-las a todo o planeta? Torná-las dominantes? Quais as tendências mais fortes do desenvolvimento atual?

 

A concentração de terras

No Brasil, um país que tem uma extensão considerável de terras virgens públicas, portanto sujeitas a uma distribuição menos concentrada, a situação é a seguinte:

 

TABELA - A concentração de terras no Brasil [3]      

 

   Propriedade            % área ocupada

                                          2003         2010

Minifúndios, pequenas                                               

e médias propriedades    48,4            43,8

Grande propriedade         51,6             56,1

E isto não se limita aos produtores nacionais. O ex-ministro Delfim Netto, personagem insuspeito neste sentido, dá um brado de alerta: “Os chineses compraram a África e agora estão tentando comprar o Brasil”[4] e certamente os chineses não produzem nas pequenas ou médias propriedades.

A situação do Brasil não é exceção. Na Europa fenômeno semelhante vem ocorrendo: “metade de toda a terra agrícola na União Europeia está hoje concentrada em 3% de grandes fazendas com mais de 100 ha(...)”e “(...) na Alemanha um total de 1,246 milhões de propriedades em 1966/67 reduziu-se para 299,1 mil fazendas em 2010. Dessas a área coberta por propriedades de menos de 2 ha reduziu-se drasticamente enquanto aquelas com 50 ha ou mais expandiram sua área de 9,2 milhões de hectares em 1990 para 12,6 milhões de hectares em 2007”.[5]

LEIA TAMBÉM: População e Previdência Social sob o Capitalismo

  


[1] A Terra no limite, de J. Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas ENCE/IBGE. Disponível em: <Planeta Sustentável.abril.com.br>.

[2] FAO – Save and Grow – The Challenge (www.fao.org/ag/save-and-grow)

[3] MST – Gerson Teixeira – Agravamento da concentração de terras.

[4] O Estado de São Paulo, 23/08/2010.

[5] John Vidal, The Guardian, 18/04 e 13/05/2013.

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(*) O texto reproduz o Capítulo 6 do livro "Capitalismo e População Mundial", de Sergio Augusto de Moraes, Fundação Astrogildo Pereira e Editora Contraponto, Brasilia-DF, 2016

(**) O autor é Engenheiro pela UFRJ e Mestre em Econometria pela Universidade de Genebra. Trabalhou no Chile para o governo de Salvador Allende, 1971-1973 quando, depois do golpe de Estado de Pinochet, esteve preso no Estadio Nacional. Dali conseguindo livrar-se  pela solidariedade internacional, foi para a Europa, onde ficou seis anos exilado. Voltou ao Brasil em 1979. É autor também do livro "Viver e Morrer no Chile" - 2010, e um dos editores deste Blog "Democracia e Socialismo".   

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Reinventar, articular, reconstruir

A volta de Lula à disputa eleitoral e as recentes pesquisas de intenção de voto expoem a fragilidade e equívocos das forças de uma “terceira via” que pudesse evitar em 2022 a repetição da polarização das eleições de 2018. Marco Aurélio Nogueira põe o dedo na ferida, em especial apontando realisticamente a falta de articulação nacional das forças democráticas e o equívoco de atacarem Lula e o PT ao invés de forçá-los ao entendimento amplo.

Segue o recente artigo de Marco Aurélio.

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Reinventar, articular, reconstruir*

Marco Aurélio Nogueira**
Maio-2021

"Fala-se em ‘terceira via’ para 2022 como se fosse mágica, mas pouco se faz por ela."

O melhor seria passar um pano em tudo e começar de novo.

Só que é impossível. Sociedades, Estados, sistemas políticos, instituições, acumulam pó e sujeira, mas não podem ser limpos com panos e detergentes comuns. Requerem recursos e ingredientes que não se encontram no mercado. E que, hoje, nesse Brasil que está deixando de ser tão brasileiro, fazem uma falta lancinante, que machuca e faz sofrer.

Marco Aurélio Nogueira
Falta-nos, antes de tudo, uma ideia de sociedade futura. Como queremos viver, para além da obviedade de que queremos todos ser felizes e bem tratados, ter um Estado eficiente e instituições que se façam respeitar e regulamentem a vida? Queremos justiça e igualdade (entre gêneros, etnias, orientações sexuais e classes), mas não há pistas de como isso poderá ser alcançado. Reivindicações e desejos saltam na vida cotidiana, mas os atores políticos não sabem como agarrá-los.

Com qual economia, para começo de conversa? Uma pujante, consciente de suas possibilidades, disposta a incluir o País no sistema de intercâmbios internacionais, capaz de gerar renda e empregos, de adotar a sustentabilidade como critério estratégico, de aceitar o Estado como regulador ativo? Ou uma perdulária, sem produtividade, voltada para si, sem tecnologia incorporada? Uma economia atenta aos imperativos categóricos do planeta, a começar da agenda climática e ambiental, ou caolha, dedicada à destruição da natureza, ao desmatamento predatório, à conquista da terra como bem a ser explorado sem cautela e sem interesse coletivo?

Não temos um projeto para revitalizar a Federação, equiparar minimamente Estados e municípios, dar a cada um deles as condições necessárias para progredir. O País está manco, caminha claudicando.

Não temos um plano para recuperar os sistemas vitais, a educação, a saúde, a assistência – a proteção social. Tudo nessas áreas é imperfeito, deixa a desejar, as carências estão expostas à luz do dia, sem que saibamos como abordá-las.

Falta-nos um projeto de Estado, um padrão de governança que tenha estabilidade e produza resultados, que valorize e blinde as instituições contra aventureiros autoritários, ideólogos reacionários, redes irresponsáveis, negacionistas contumazes, oportunistas, corjas de malfeitores que só pensam nas vantagens a obter, que são ignorantes da sociedade existente. Estamos sentindo na pele as consequências do desvario que nos acometeu em 2018 e possibilitou a eleição de uma cúpula de estroinas perversos.

É assustador constatar que estamos assim apesar de possuirmos recursos técnicos, intelectuais, culturais e políticos para reinventar o Brasil. Vivemos como se dependêssemos de um milagre celestial, de uma explosão popular ou das conclusões de uma CPI no Senado. Por que nossos políticos preferem se entregar ao jogo miúdo da pequena política, a lançar granadas de baixa potência e que não atingem o alvo, optando por privilegiar seus interesses partidários, regionais, ideológicos, em vez de oferecer algo consistente à sociedade?

Quero crer que isso se deva a alguns fatores.

Primeiro, nossos políticos não têm dimensão intelectual. Não falo de formação escolar ou de diplomas, que todos os exibem a mancheias. Falo de capacidade de compreender o mundo, a sociedade em que atuam, os cidadãos que os elegem. Nesse ponto, falta-lhes o fundamental. Ética pública democrática, domínio da linguagem, generosidade cívica, comunicação. Em muitos falta também honestidade.

Segundo, os partidos vivem em crises que se sucedem sem interrupção e os impedem de atuar como entes coletivos, que saibam disputar o poder sem virar as costas para a sociedade e com coesão suficiente para que sejam confiáveis para o eleitorado. Ora se estapeiam em brigas internas fratricidas, ora se arrastam para obter os apanágios e as prebendas do governo de plantão, ora se entregam aos mandachuvas de sempre, incapazes de confrontá-los ou ponderar sua imprescindibilidade. Gostam de polarizações simplificadoras, da posição confortável de repetir mantras surrados, como se servissem para todo o sempre.

Terceiro, a base do que mais nos falta: capacidade de articulação nacional e democrática. O provincianismo e o tribalismo político predominam. Hoje se admite que em 2022 se vai repor a polarização que nos atazana a vida desde 2018. Fala-se em “terceira via” como se fosse mágica, mas pouco se faz por ela. Não se reconhece que o polo Lula é superior em tudo ao polo Bolsonaro e que, portanto, não se deveria bater em Lula e nos petistas, mas, sim, forçá-los ao entendimento amplo. O PT poderá voltar ao governo, por que não? Tudo terá de ser processado para que o País renasça. Por todos, incluídos Lula e o PT. Sem isso será mais do mesmo.

Lula e o PT, afinal, não são os únicos jogadores e é muito fácil atribuir a eles a responsabilidade pela não existência do que poderia reconstruir o Brasil e unificar os brasileiros. É fácil, mas é um equívoco, que somente serve para ocultar a incompetência que grassa entre os demais jogadores.

LEIA TAMBÉM: Tática e Manobra

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(*) Originalmente publicado em "O Estado de São Paulo", 22 de maio de 2021.

(**) Professor Titular de Teoria Política da Unesp.

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O dia em que a Terra parou

Raul Seixas e Claudio Roberto

Essa noite eu tive um sonho
de sonhador
Maluco que sou, eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou
com o dia em que a Terra parou

Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo
o planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém 



O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não tava lá
e o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar

No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou

E nas Igrejas nem um sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá
E os fiéis não saíram pra rezar
Pois sabiam que o padre também não tava lá
E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia o professor também não tava lá
E o professor não saiu pra lecionar
Pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar

No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou

O comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá
E o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
E o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar

No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou (Foi tudo)
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou

Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, acordei

No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou (Eu acordei)
No dia em que a Terra parou (Acordei)
No dia em que a Terra parou (Justamente)
No dia em que a Terra parou (Eu não sonhei acordado)
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou (No dia em que a terra
parou)

OUÇA NA VOZ DE RAUL SEIXAS

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Vacina e proteção para todos!

Tem gente a pensar que se o Butantan e a Fiocruz pudessem produzir 200 milhões de vacinas o povo brasileiro estaria salvo do Covid-19. Mas muitos cientistas não pensam assim, pois evidencia-se a amplitude mundial da catástrofe sanitária e socioeconômica da pandemia do covid-19 e o imperativo de seu enfrentamento na mesma escala global. E o momento é revelador do despreparo das instituições reguladoras internacionais já enfraquecidas pela globalização do capitalismo.

O artigo a seguir, assinado por equipe liderada por Joseph Stiglitz e Michael Spence, ambos “prêmios Nobel” de economia, reforça aquela evidência ao apelar à iniciativa dos países desenvolvidos – ainda que a partir de seus próprios interesses - em prol das populações pobres e das regiões subdesenvolvidas.

Denunciam a resistência de “interesses corporativos das economias avançadas” e de respectivos Governos que “(...) se deixam levar pela miopia”.

Prosseguem os autores: “(...) A ascensão do nacionalismo pandêmico revelou uma série de deficiências nos regimes internacionais de comércio, investimento e propriedade intelectual”.

Ao apontar os imensos recursos financeiros e de conhecimento já disponíveis à sociedade mundial, esta análise dos autores enseja-nos entrever alguns dos limites do capitalismo.

Segue o artigo.

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Ninguém estará a salvo enquanto todos não estiverem*

Joseph Stiglitz/Michael Spence/ Jayati Ghosh**

 Abril/2021

Os Estados Unidos esperam se tornar “independentes” da covid-19 em 4 de julho, seu Dia da Independência, quando houver vacinas para toda a população adulta. Mas, para muitos países em desenvolvimento e emergentes, o final da crise ainda está muito distante. Como mostramos em um relatório para a Comissão para a Transformação Econômica Mundial do Instituto do Novo Pensamento Econômico (INET), para que seja possível uma recuperação global rápida é necessário que todos os países possam se declarar independentes do vírus.

A capacidade de mutação do coronavírus implica que ninguém estará a salvo enquanto ele não tiver sido controlado em todos os lugares. Por isso é essencial efetuar o quanto antes possível uma distribuição universal de vacinas, tratamentos e equipamentos de proteção pessoal. As restrições atuais ao fornecimento desses itens são basicamente artificiais, na medida em que resultam de um regime internacional de propriedade intelectual mal desenhado.

Mas além da tão adiada reforma desse regime, o mais urgentemente necessário é uma suspensão dos direitos de propriedade intelectual atribuídos a produtos essenciais para o combate à covid-19 ou a criação de recursos comuns de patentes (pooling) para seu uso compartilhado. Muitos países reivindicam estas medidas, mas os interesses corporativos das economias avançadas opõem resistência, e seus Governos se deixam levar pela miopia. A ascensão do nacionalismo pandêmico revelou uma série de deficiências nos regimes internacionais de comércio, investimento e propriedade intelectual (algo que a comissão do INET analisará em um relatório posterior).

As economias avançadas, sobretudo os Estados Unidos, têm agido com determinação para reativar suas economias e apoiar famílias e empresas vulneráveis. Entenderam (embora talvez seja uma lição passageira) que, em crises como esta, as medidas de austeridade são profundamente contraproducentes. Mas os países em desenvolvimento, em sua maioria, têm grandes dificuldades para obter recursos que lhes permitam manter os programas de apoio vigentes, por não falar de absorver os custos adicionais impostos pela pandemia. Os Estados Unidos gastaram cerca de 25% de seu PIB em medidas de apoio à economia, conseguindo assim limitar a desaceleração, mas as nações em desenvolvimento só puderam gastar um valor muito menor.

Nossos cálculos, baseados em dados do Banco Mundial, mostram que o gasto nos Estados Unidos, da ordem de 17.000 dólares per capita, foi 8.000 vezes maior que nos países menos desenvolvidos. Além do uso decidido da política fiscal, há três medidas que os países desenvolvidos podem adotar e que os beneficiarão, além de colaborar com a recuperação mundial. Em primeiro lugar, impulsionar uma grande emissão de direitos especiais de saque (DES, na sigla em inglês), o ativo global de reserva do Fundo Monetário Internacional. O FMI pode emitir de forma imediata 650 bilhões de dólares em DES sem necessidade de aprovação dos legislativos nacionais. E o efeito expansivo da medida será muito maior se os países ricos transferirem suas atribuições desproporcionais do DES a outros países com necessidade de efetivo.

O segundo conjunto de medidas também envolve o FMI, dada sua influência sobre a política macroeconômica dos países em desenvolvimento, em particular aqueles que recorrem a ele para resolver problemas de balança de pagamentos. É animador que o FMI tenha sido um ativo propulsor da implementação de abundantes e prolongados programas de ajuda fiscal nos Estados Unidos e na União Européia, e que tenha reconhecido inclusive a necessidade de aumentar os gastos públicos nos países em desenvolvimento, apesar da adversidade das condições externas.

Mas, na hora de estipular os termos dos empréstimos para países com problemas de balança de pagamentos, as ações do FMI nem sempre coincidem com suas declarações. Uma recente análise da ONG Oxfam Internacional sobre os programas de ajuda do FMI, incluindo os vigentes e os recém-encerrados, concluiu que, entre março e setembro de 2020, 76 dos 91 empréstimos negociados pelo Fundo com 81 países incluíam exigências de cortes nos gastos públicos, o que poderia se traduzir na deterioração dos sistemas sanitários e previdenciários, congelamento de salários dos funcionários públicos (incluindo médicos e professores) e redução dos seguros-desemprego, das licenças por doença e de outros benefícios sociais. A austeridade (sobretudo em se tratando de cortes nessas áreas essenciais) não terá nos países em desenvolvimento melhores resultados do que alcançaria nos desenvolvidos. Além disso, aqueles países poderiam contar com uma maior margem fiscal se recebessem mais assistência (incluída a já mencionada emissão dos direitos especiais de saque).

Finalmente, os países desenvolvidos podem organizar uma resposta integral aos enormes problemas de dívida que muitas nações enfrentam. Todo dinheiro gasto em pagar dívidas é dinheiro que não se usa para combater o vírus e reativar a economia. No começo da pandemia, esperava-se que uma suspensão dos pagamentos de dívida de países em desenvolvimento e emergentes seria suficiente; porém, mais de um ano já se passou, e alguns devedores precisam de uma reestruturação integral, em vez dos típicos emplastros que só servem para gerar as condições para a próxima crise.

Os países credores podem fazer muito para facilitar essas reestruturações e estimular uma participação mais ativa do setor privado (que até agora se mostrou bastante resistente a colaborar). Como salienta o relatório da Comissão, se alguma vez houve um momento para fazer valer os princípios de força maior e necessidade, esse momento é agora. Não se pode pedir aos países devedores que paguem o que não podem, sobretudo à custa de tanto sofrimento.

As políticas aqui descritas seriam de grande ajuda para os países em desenvolvimento e custariam pouco ou nada para os países desenvolvidos. A rigor, aliás, o interesse próprio do mundo desenvolvido exige fazer o possível para ajudar aos países em desenvolvimento e emergentes, sobretudo quando isso é tão fácil e beneficiaria grande parte da humanidade. A cúpula política nos países desenvolvidos precisa compreender que ninguém estará a salvo enquanto todos não estiverem, e que a saúde da economia global depende de uma forte recuperação em todas as partes.

LEIA TAMBÉM: Os sete segredos de 2020

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(*) Originalmente publicado em El País, 06 de abril de 2021.

(**) Joseph E. Stiglitz é ganhador do prêmio Nobel de Economia, professor da Universidade Columbia (EUA) e membro da Comissão Independente para a Reforma da Fiscalidade Corporativa Internacional; Michael Spence é ganhador do prêmio Nobel de Economia, professor emérito da Universidade Stanford e pesquisador-sênior do Instituto Hoover; e Jayati Ghosh é secretária-executiva do International Development Economics Associates, professora de Economia na Universidade de Massachusetts em Amherst e integrante da Comissão Independente para a Reforma da Fiscalidade Corporativa Internacional; este artigo também é assinado por Rob Johnson, Rohinton Medhora, Dani Rodrik e outros integrantes da Comissão para a Transformação Econômica Mundial do Instituto do Novo Pensamento Econômico.

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O sadismo intelectual do ajuste fiscal

"O presidente constantemente afirma que se todo mundo ficar em casa a economia acaba. O que acaba a economia é pandemia descontrolada. Essa visão distorcida é um efeito de aparente deslocamento (paralaxe) do objeto observado, no caso a realidade, para se adequar à visão do observador - o presidente e seu ministro da (des)economia -  e assim desconsiderarem aquela realidade".

Luiz Martins de Melo*

Março- 2021

O Estado de bem-estar social foi uma enorme inovação política e social introduzida no capitalismo. Se foi o cálculo econômico, uma maior consciência social ou o fantasma do comunismo que o fez se tornar a política que viabilizou os trinta anos gloriosos do capitalismo no pós-segunda guerra mundial é difícil saber. Provavelmente uma mistura dos três. Essa construção institucional para a vigência de um capitalismo civilizado é o que ainda confere um padrão de vida confortável nas economias desenvolvidas. Ela passou a sofrer um forte ataque de uma concepção liberal-conservadora que fora derrotada no imediato pós-guerra mas que voltara renovada, no final dos anos setenta e início dos oitenta, renovada com as vitórias de Reagan e Thatcher  nos Estados Unidos e Reino Unido. Trump e seu filhote Bolsonaro são um subproduto dessa destruição institucional.

Pandemia no Brasil 2021
O neoliberalismo com uma visão do individualismo possessivo advoga que cada um deve buscar o máximo de satisfação e que essa busca não pode ser limitada pela vida social. Ela é independente. Isso é o que torna o ser humano forte. Sem mimimi. Sem medo da morte. A busca incansável dessa máxima insatisfação individual, custe o que custar, vai fazer com que a sua resultante seja o máximo de ganho para todos. Transforma a morte, e não a vida, em seu objetivo final.  Não existe lugar para os mais fracos.

Skidelsky mostra que a contrapartida dessa visão de sofrimento e morte está fortemente inserida na corrente hegemônica da macroeconomia com o conceito de austeridade fiscal.

"Pode-se dizer que a insistência na necessidade de dor de curto prazo (por exemplo, austeridade) em prol do ganho de longo prazo, quando o curto prazo pode durar décadas e o longo prazo pode nunca acontecer, atesta um sadismo intelectual refinado".

A idéia de austeridade fiscal desconhece que o cidadão, não o indivíduo, é um pagador de impostos em todas as suas atividades como trabalhador, produtor e consumidor. O Estado de bem-estar social é um direito seu, não um favor do Estado e um entrave para a realização da sua máxima satisfação como indivíduo.

A formação econômica e social do Brasil produziu uma elite que sempre tratou a questão social como um caso de polícia.  A sociedade elitizada e preconceituosa mantém um enorme desprezo pela vida humana dos outros, desde que não estejam entre os reconhecidos como seus iguais. Esse preconceito e discriminação ficaram claros com a enorme penetração do negacionismo na sociedade e a impiedade pela vida dos cidadãos brasileiros mostrado pelo atual governo e compartilhada pelos seus seguidores.  

Essa visão perversa e canhestra é uma concepção distorcida da vida social. Não consegue nem enxergar o custo econômico, o prejuízo na arrecadação de impostos, para ficar na visão deformada do processo econômico do ministro da (des)economia. Não leva em conta nem o impacto na atividade produtiva dos mortos e infectados. Quanto custou e custa ao Estado por ano um cidadão atingido pela Covid-19? As mais de 270 mil mortes vão reduzir a força de trabalho e diminuir o seu potencial de produzir e pagar impostos.

O presidente constantemente afirma que se todo mundo ficar em casa a economia acaba. O que acaba a economia é pandemia descontrolada. Essa visão distorcida é um efeito de aparente deslocamento (paralaxe) do objeto observado, no caso a realidade, para se adequar à visão do observador - o presidente e seu ministro da (des)economia -  e assim desconsiderarem aquela realidade.

No primeiro semestre de 2020 a maioria das previsões para o crescimento da economia apontava para uma queda do PIB que cairia de 6% a 9%. Caiu 4,1%. O elemento central para essa relativa melhora foi a pressão da sociedade e o reconhecimento pelo Congresso da necessidade de um grande gasto público que gerou uma expansão fiscal de 7% do PIB (R$ 524 bilhões), O auxílio emergencial  foi o principal fator para esse desempenho melhor do que o previsto.

O ministro da (des)economia antes do final de 2020, naquela sua visão distorcida, já anunciava que a recuperação era um sucesso garantido, a pandemia estava em queda e não haveria mais necessidade de expansão fiscal. O país estava pronto para iniciar o círculo virtuoso (sic) das reformas liberais que trariam a “fada confiança” de volta e o investimento privado deslancharia e produziria o crescimento econômico. Faltou combinar com o COVID-19.

Essa visão, em conjunto com o permanente negacionismo do presidente e o desastre que é a política de saúde acarretou a completa flexibilização das normas de prevenção e de isolamento social. Evidentemente a pandemia voltou mais forte. A economia voltou a desacelerar. O desemprego aumentou. A crise social e política recrudesceu.

Essa visão comum ao presidente e ao ministro da (des)economia permite que eles assumam uma relação inversa entre a realidade da pandemia e a da economia. Assim propõem um pacote de expansão fiscal inferior ao anterior, de menor valor e duração, quando a crise sanitária está mais grave. E, para não negar o espirito de “Tanatos”, com contrapartidas fiscais. O ajuste fiscal tem de prevalecer sobre a necessidade da vida. A vida não é um direito do cidadão. É uma dádiva para aqueles que forem fortes, não tiverem medo do vírus, e o enfrentarem sem mimimi. Tem que ser macho.

Mas mesmo com essa desconexão da realidade o Bozo sente alguns golpes que o tiram do sério e o acuam. É quando a oposição e a sociedade cobram a sua responsabilidade sobre o auxílio emergencial, a vacinação e as medidas de prevenção social para enfrentar a pandemia. Isso mostra a sua preguiça e o seu medo. Esse deve ser o centro da política de enfrentamento ao Bozo e ao seu ministro da (des)economia.   Isso é o que está fazendo a sua popularidade cair. Vai aumentar a frequência dos panelaços.  Isso é o que vai trazer a possibilidade do impedimento.

Ao que parece a sociedade começa a despertar para a luta mais frontal. A maioria dos governadores se uniu, alguns bolsonaristas inclusive, para cobrar um plano e maior agilidade na vacinação. Outros tomaram medidas mais duras de isolamento social.

Essas são as questões centrais que temos de fortalecer para aumentar a coesão da oposição e isolamento do Bozo. Mesmo que a política tenha autonomia em relação ao econômico e o social não podemos cair na tentação de criarmos  a nossa própria visão distorcida, deslocada da realidade (em paralaxe). É legitimo que qualquer partido comece a pensar em 2022. Que tenham a proposta de candidatos próprios.  Porém, a prioridade é que se construa uma frente comum para o enfrentamento da pandemia: auxilio emergencial, até o fim da pandemia, de R$600,00; vacinação em massa e medidas de prevenção social até que a vacinação produza os seus efeitos de contenção da pandemia. Essa é a agenda de “Eros” da vida.

Não é a hora de discutir as candidaturas. Esse é o campo do Bozo. Ele não é burro. Pode ser ignorante. Mas sabe manejar os cordéis da política, ainda tem uma forte base de apoio popular, armou a população e corteja permanentemente as forças de segurança. O Bozo com sua visão distorcida da realidade e o seu comportamento de quando acuado se tornar mais agressivo, constitui um enorme risco de retrocesso institucional com um possível autogolpe.

 É essa capacidade de os políticos autoritários falarem apenas para suas bolhas e reforçarem o seu discurso radicalizado, na maioria das vezes sem relação com a realidade, que os tornam perigosos institucionalmente pela constante aposta nos extremos. Essa é tese central do livro “Os engenheiros do caos”[1].

"Por trás do aparente absurdo das fake news e das teorias da conspiração, oculta-se uma lógica bastante sólida. Do ponto de vista dos líderes populistas, as verdades alternativas não são um simples instrumento de propaganda. Contrariamente às informações verdadeiras, elas constituem um formidável vetor de coesão. “Por vários ângulos, o absurdo é uma ferramenta organizacional mais eficaz que a verdade”, escreveu o blogueiro da direita alternativa americana Mencius Moldbug. Qualquer um pode crer na verdade, enquanto acreditar no absurdo é uma real demonstração de lealdade – e que possui um uniforme, e um exército".

Temos que atravessar 2021 com a proposta de consolidar a visão no imaginário dos brasileiros de que Bolsonaro é um risco para a vida, para a democracia e para a economia. Para a civilização brasileira.

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[1] da Empoli, Giuliano. Os engenheiros do caos (p. 16). Vestígio Editora. Edição do Kindle.

(*) Economista, Doutor em Economia-UFRJ, professor da Graduação e Pós-graduação do IE-UFRJ. Ex- Diretor da FINEP. Artigo originalmente publicado em "Terapia Política", março/2021, https://terapiapolitica.com.br/2021/03/11/sadismo-refinado-do-ajuste-fiscal/; versão revista e atualizada pelo autor para este blog.

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Quem sabe sabe

Gabeira explica o momento de dispersão das oposições democráticas, o reagrupamento de forças pró-Bolsonaro, e os fracassos e desmandos do governo diante da crise social e da pandemia ainda não devidamente reconhecidos pela população. Aponta a unidade em torno de lutas quotidianas decisivas como vacinação em massa e ajuda emergencial. Recorda lições de conjunturas semelhantes, a indicarem que não se deva extrapolar o quadro presente para 2022. 

À percepção cautelosa e aguçada de Gabeira podemos associar um pensamento recorrente em Gramsci: “(...) Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”

Segue o artigo

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O precoce começo de 22

Fernando Gabeira*

Fevereiro-2021

Algumas religiões desaconselham explicar muito sua fé. O zen-budismo, por exemplo, costuma alertar: quem sabe não fala, quem não sabe é quem fala.

O grande viajante inglês Richard Francis Burton converteu-se ao sufismo e adotou, simultaneamente, uma tática chamada taquia, que consiste em esconder sua fé. A política é uma esfera muito diferente, mas também nela é preciso cuidado para não falar muito ou dar a falsa impressão de que sabe mais que os outros.

Lembro-me de que, em Brasília, os que caíam nessa tentação eram discretamente rejeitados e, quase sempre, chamados de professor de Deus. Conheci vários professores de Deus e, confesso, que sabiam realmente muito menos do que imaginavam saber.

Dito isso, é com humildade que meto a colher nesse debate sobre a oposição a Bolsonaro e as alternativas para derrotá-lo em 2022. Talvez, no chamado centro democrático, seja necessário superar o clima de lamentos, acusações mútuas e desencanto.

Fernando Gabeira
Não há nada de extraordinário na adesão de quadros do DEM e do PSDB a Bolsonaro. Durante a ditadura, o MDB se dividiu, e os que faziam oposição eram chamados de autênticos.

Sempre sobra um pequeno núcleo com visão nacional, e sua tarefa é levar o trabalho adiante, tratando de unificar a partir das lutas cotidianas, das quais não se pode fugir. Coisas simples e decisivas, como vacinação em massa, ajuda emergencial.

No campo da esquerda, houve também uma certa surpresa, no meu entender exagerada, com o lançamento de um candidato do PT, Fernando Haddad. O partido ocupou o poder durante muito tempo, tem uma grande bancada no Congresso, disputou com Bolsonaro o segundo turno.

Todos sabem que lançará candidato próprio. Mesmo nas eleições municipais de São Paulo, com poucas chances segundo as pesquisas, disputou o primeiro turno.

Já defendi a idéia de que é indispensável uma grande frente. No entanto as próprias eleições municipais mostraram possibilidades diferentes.

O candidato de Bolsonaro perdeu tanta consistência em São Paulo que nem chegou ao segundo turno. No Rio, o aliado do presidente chegou ao segundo turno tão combalido que seria derrotado pelo próprio índice de rejeição.

Alguma dessas hipóteses pode acontecer com Bolsonaro, uma vez que ainda não foi metabolizado pela população seu fracasso ao tratar da pandemia, muito menos sua irresponsabilidade em defender e produzir remédios ineficazes contra o coronavírus. E nem foi revelado amplamente à juventude do país seu trabalho de destruição da natureza.

O caminho pela frente, de um lado, é de crise social; de outro, uma aliança entre Bolsonaro e o Centrão, que pode até esboçar algumas respostas, mas, ao longo da história, tem se mostrado um tipo de aliança que cava um abismo entre política e sociedade.

Os que defendem a frente falam também de um projeto nacional, uma visão de como e para onde conduzir o Brasil, sua inserção internacional. É inegável a importância do argumento. No entanto a experiência tem mostrado também que muitos eleitores se definem por algum tema que lhes interessa e avaliam também a trajetória e a personalidade do candidato.

Por isso, talvez, em vez de estarmos vendo apenas a fragmentação de uma potencial frente única, estejamos assistindo às cotoveladas e artimanhas que antecedem o lançamento das candidaturas.

É importante que se lancem e comecem a trabalhar seriamente. Não existe uma certeza de que a eleição que virá repetirá os protagonistas da eleição de 2018. Muito menos a certeza de que, repetindo os protagonistas, repita o resultado.

Tenho dúvidas se conseguiremos deter satisfatoriamente a pandemia antes de 2022. Isso torna o caminho mais complicado, mas não impede a existência de um caminho aberto, ainda não fatalisticamente desenhado; enfim, um que depende daqueles que vão desbravá-lo.

LEIA TAMBÉM: Vida e Democracia

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(*) Fernando Gabeira é jornalista. Publicado originariamente em "O Globo", 15/02/2021.


Os sete segredos de 2020

Fevereiro - 2021

Nesta virada de ano Yanis Varoufakis publica novo artigo, agora focado na atuação dos governos e das instituições financeiras oficiais durante a pandemia, nas regiões do capitalismo mais avançado. 

Cidades fechadas na pandemia. Nápoles, Itália. Foto: Veja.

Varoufakis desmascara um modo de produção degenerado que já deixou de ser o capitalismo que apregoam (denomina-o “tecno-feudalismo”). Mais importante, mostra estarem historicamente construídas, e mais vivas do que nunca, a base produtiva de alta tecnologia e algumas das alavancas institucionais estratégicas para a superação do atual estado de coisas. Medidas propositivas o autor já esboçara no documento dirigido à Internacional Progressista, recentemente publicado neste Blog (ver "Um novo internacionalismo").

É mais um pequeno passo para identificarmos "(...) os meios necessários para por termo aos males descobertos (...) meios que não devem ser tirados da cabeça de ninguém, mas a cabeça é que tem de descobri-los nos fatos materiais da produção, tal qual a realidade os oferece" (F. Engels, “Do socialismo utópico ao socialismo científico”, 1877).

Segue o artigo.

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Os sete segredos de 2020*

Yanis Varoufakis**

ATENAS - Um castelo de cartas. Um conjunto de mentiras que aceitamos inconscientemente. É assim que nossas certezas parecem durante crises profundas. Esses episódios nos chocam ao reconhecermos como nossas suposições são inseguras. É por isso que este ano pareceu uma maré recuando rapidamente, obrigando-nos a enfrentar verdades submersas. 

Costumávamos pensar, com bons motivos, que a globalização desfigurou os governos nacionais. Os Presidentes curvaram-se diante dos mercados de títulos. Os primeiros-ministros ignoraram os pobres de seu país, mas nunca a Standard & Poor's. Os ministros das finanças se comportaram como os patifes do Goldman Sachs e os sátrapas do Fundo Monetário Internacional. Magnatas da mídia, homens do petróleo e financistas, não menos do que críticos de esquerda do capitalismo globalizado, concordaram que os governos não estavam mais no controle.

Então veio a pandemia. Da noite para o dia, os governos criaram garras e exibiram dentes afiados. Fecharam fronteiras e aterrissaram aviões, impuseram toques de recolher draconianos em nossas cidades, fecharam nossos teatros e museus e nos proibiram de confortar nossos pais moribundos. Eles até fizeram o que ninguém pensava ser possível antes do Apocalipse: cancelaram eventos esportivos.

O primeiro segredo foi assim exposto: os governos retêm um poder inexorável. O que descobrimos em 2020 é que os governos nacionais têm optado por não exercerem  seus enormes poderes de modo a que os enriquecidos pela globalização pudessem exercer os seus.

A segunda verdade é uma que muitos suspeitavam, mas eram tímidos demais para gritar: a árvore que faz brotar dinheiro é real. Os governos que proclamavam sua penúria sempre que chamados a pagar por um hospital aqui ou uma escola ali, de repente descobriram muito dinheiro para pagar férias forçadas e desempregados, nacionalizar ferrovias, assumir companhias aéreas, apoiar montadoras de automóveis e até mesmo sustentar academias e cabeleireiros.

Os que normalmente protestam que o dinheiro não cresce nas árvores, que os governos devem deixar os cavacos da sorte e do azar se espalharem onde quer que seja, engoliram a língua. Os mercados financeiros comemoraram, em vez de lançar um ataque à onda de gastos do estado.

A Grécia é um estudo de caso perfeito da terceira verdade revelada este ano: a solvência é uma decisão política, pelo menos no Ocidente rico. Em 2015, a dívida pública da Grécia de € 320 bilhões (US$ 392 bilhões) superava uma renda nacional de apenas € 176 bilhões. Os problemas do país foram notícia de primeira página em todo o mundo, e os líderes europeus lamentaram nossa insolvência.

Hoje, no meio de uma pandemia que piorou uma economia ruim, a Grécia não é um problema, embora nossa dívida pública seja € 33 bilhões mais alta e nossa receita € 13 bilhões mais baixa, do que em 2015. Poderes da Europa que antes haviam decidido ser suficiente uma década para lidar com a falência da Grécia, então decidiram declarar a Grécia solvente. Enquanto os gregos elegerem governos que transferem consistentemente para a oligarquia sem fronteiras qualquer riqueza (pública ou privada) que resta, o Banco Central Europeu fará o que for necessário - comprar tantos títulos do governo grego quanto necessário - para manter a insolvência do país fora dos holofotes.

O quarto segredo que 2020 revelou foi que as montanhas de riqueza privada concentrada que observamos têm muito pouco a ver com empreendedorismo. Não tenho dúvidas de que Jeff Bezos, Elon Musk ou Warren Buffett têm um talento especial para ganhar dinheiro e controlar mercados. Mas apenas uma pequena porcentagem da sua apropriação acumulada é o resultado da criação de valor.

Considere o aumento estupendo desde meados de março na riqueza dos 614 bilionários da América. Os US $ 931 bilhões adicionais que eles acumularam não resultaram de nenhuma inovação ou engenhosidade que gerou lucros adicionais. Eles ficaram mais ricos durante o sono, por assim dizer, à medida que os bancos centrais inundaram o sistema financeiro com dinheiro fabricado, fazendo com que os preços dos ativos e portanto a riqueza dos bilionários disparassem.

Com o rápido desenvolvimento, teste, aprovação e lançamento das vacinas COVID-19, um quinto segredo foi revelado: a ciência depende da ajuda estatal e sua efetividade é abstraída de seu suporte público. Muitos comentaristas se tornaram líricos sobre a capacidade dos mercados de responder rapidamente às necessidades da humanidade. Mas a ironia não deve escapar a ninguém: a administração do mais anticientífico presidente dos EUA de todos os tempos - um presidente que ignorou, intimidou e zombou de especialistas mesmo durante a pior pandemia em um século - alocou US $ 10 bilhões para garantir que os cientistas tivessem o recursos de que necessitavam.

Mas há um segredo mais amplo: enquanto 2020 foi um ano marcante para os capitalistas, o capitalismo como tal já deixou de sê-lo. Como isso é possível? Como os capitalistas podem florescer à medida que o capitalismo evolui para outra coisa?

Fácil. Os maiores apóstolos do capitalismo, como Adam Smith, enfatizaram suas consequências não intencionais: precisamente porque os indivíduos em busca de lucro não têm consideração por ninguém, eles acabam servindo à sociedade. A chave para converter o vício privado em virtude pública é a competição, que impele os capitalistas a buscarem atividades que maximizem seus lucros. Num mercado competitivo isto serve ao bem comum, aumentando a diversidade e a qualidade dos bens e serviços disponíveis, ao tempo em que baixa constantemente os preços.

Não é difícil ver que os capitalistas podem se sair muito melhor com menos competição. Este é o sexto segredo que 2020 expôs. Liberadas da competição, colossais empresas de plataforma como a Amazon se saíram surpreendentemente bem com a extinção do capitalismo e sua substituição por algo semelhante ao tecno-feudalismo.

Mas o sétimo segredo que este ano revelou foi como receber uma encomenda de prata. Embora introduzir mudanças radicais nunca seja fácil, agora está perfeitamente claro que tudo poderia ser diferente. Não há mais razão para aceitarmos as coisas como são. Pelo contrário, a verdade mais importante de 2020 é capturada no aforisma adequado e elegante de Bertolt Brecht: “Porque as coisas são como são, as coisas não permanecerão como são.”

Não consigo pensar em nenhuma fonte maior de esperança do que esta revelação, entregue num ano que a maioria preferia esquecer.

LEIA TAMBÉM: Um novo internacionalismo

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(*) Publicado originalmente em Project Syndicate - 28 de dezembro de 2020 - https://www.project-syndicate.org/commentary/seven-secrets-revealed-by-2020-by-yanis-varoufakis-2020-12?utm_source=project-syndicate.org&utm_medium=email&utm_campaign=authnote& 

(**) Yanis Varoufakis, ex-ministro das finanças da Grécia, é líder do partido MeRA25 e professor de Economia na Universidade de Atenas.

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Vida e Democracia

No Brasil e no mundo andam juntas a defesa da vida e da democracia. É o que descreve e demonstra o precioso texto de Werneck Viana a seguir.

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Hic Rhodus hic salta*

Luiz Werneck Vianna**

Janeiro - 2021

Nesse tempo de espantos algo já se pode dizer: perderam todos os que se empenharam em imprimir uma marcha à ré no movimento das coisas no mundo com a derrota no processo eleitoral de Donald Trump que os liderava a partir do poder e da influência que o governo dos EUA exerce na cena mundial. Em poucos dias, Joe Biden, cuja campanha se orientou por princípios opostos de política externa será ungido com a faixa presidencial, devolvendo o seu país ao seu leito natural historicamente constituído, exemplar no processo de criação da ONU.  O eixo do mal, portador de versões degradadas do nacionalismo em moldes populistas, perde a sustentação do pino que garantia seu funcionamento, e as peças que ainda lhe restam não terão como operar sem o amparo do sistema de quem faziam parte.

Luiz Werneck Vianna
Cerra-se um ciclo que se iniciou no governo Thatcher, aprofundou-se com Reagan e culminou com Donald Trump, em que se tentou com a fórmula neoliberal nos devolver ao capitalismo vitoriano. As promessas de um novo tempo, contudo, se encontram embaçadas pelo flagelo da pandemia que nos assola e tolhe a livre movimentação das forças sociais embora estimulem a procura por soluções cooperativas supranacionais. Nesse sentido, o esforço mobilizado para o combate contra ela ainda mais reforça o processo de transição em que estamos envolvidos para uma era de superação do modelo de estado-nação em favor de organizações multinacionais que se comprometam com os ideais da igual-liberdade.

Essa transição não será um processo fácil, à sua frente poderosos obstáculos, políticos, sociais e econômicos, como se constatou dramaticamente com a insurreição frustrada da invasão do Capitólio quando se intentou obstar a certificação das eleições por um golpe de mão. O cenário dantesco daquele episódio foi registrado ao vivo e a cores, e seu macabro inventário tem sido exposto pela imprensa americana com a identificação dos seus personagens, conformando um quadro assustador de supremacistas brancos, neonazistas, de milicianos, de uma gente sem eira e beira, inflada pela cólera do ressentimento social, escória cevada com as bênçãos do governante do país.

Conduzir essa transição demanda soluções enérgicas e criativas que destravem seu caminho, a primeira resposta contundente foi a do impeachment de Trump, que contou com a aprovação de 10 votos de representantes republicanos, e as que devem ser apresentadas por Biden em seu discurso de posse no próximo dia 20 em nome do que ele sustenta serem os remédios para a cura da alma americana da doença do trumpismo que teria posto em risco os valores fundacionais da sua sociedade.

Tal como testemunha o caso brasileiro, mais do que uma patologia própria aos EUA o trumpismo se constituiu em um sistema. Sua derrocada importará em efeitos de dominó nos países que integravam sua constelação, entre os quais o Brasil, contudo a necessária admissão dessa nova condicionante da política brasileira, bem longe de recomendar uma postura quietista, de cega confiança de que a mudança no estado de coisas da nossa realidade possa provir do mundo exterior, deve servir de estímulo aos esforços de erradicação do trumpismo tupiniquim.

O princípio da realidade nos aconselha a constatar as dificuldades políticas e sociais que se antepõem a esse necessário e inafastável empreendimento diante da gravidade das circunstâncias a que estamos expostos. Mas, em que pesem as restrições, inclusive as impostas pela pandemia que dificulta os encontros e as mobilizações no espaço público, são necessários os primeiros passos na longa marcha que se tem pela frente, pois não se podem dar as costas à fortuna que nos alicia para a ação. Caso contrariada por um ator surdo às suas mensagens, ela pode nos entregar à nossa própria má sorte com o resultado nefasto de prolongar o abjeto governo que aí está.

A tragédia amazônica, se permanecermos inertes, será o destino de todos se nos faltar o alento para a reconquista do que nos tem sido subtraído pelo governo Bolsonaro em suas práticas demofóbicas e antidemocráticas. A investida das forças democráticas, na hora atual, deve ter como objetivo principal a defesa da vida e de todas as instituições da área da saúde que se empenham contra a orientação genocida imposta pelas autoridades governamentais, ora representada pela bizarra inépcia do ministro Pazzuelo.

Nessa direção, o movimento ofensivo deve transcorrer nas esferas institucionais, incluído o poder judiciário, com ênfase especial no Congresso, a que não pode faltar o recurso ao impeachment de Bolsonaro, principal responsável pela catástrofe sanitária do país, movimento a ser respaldado pelas agências da sociedade civil por meio de manifestos, panelaços e do que mais estiver à mão.

Cassandras nos aconselham a não partir para o mar alto, e nos relembram dos políticos liliputianos com que contamos, mas não nos vem de João Doria, governador de São Paulo, de perfil e robusto histórico conservador, a qualificação de Bolsonaro como facínora? Não se faz política sem alma, remoendo cálculos intermináveis de avaliação de forças esperando dos céus uma chuva que não vem, pois sempre chega a hora do hic Rhodus hic salta. Pois ela chegou. Já contamos mais de 200 mil mortos, basta, fora.

LEIA TAMBÉM: Tática e Manobra

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 (*) Em expressão literal: “Aqui é Rhodes. Salta aqui”. Significa: mostre aqui, prove o que você pode. Provem de uma fábula de Esopo, que trata de um fanfarrão que se nega a participar de uma prova de saltos, contando vantagem de ter saltado mais que todos em Rhodes. A frase passou a usar-se como uma exigência da demonstração imediata do que pode ser facilmente provado. A interpretação no contexto político, Werneck Vianna pode ter trazido de K. Marx em “O 18 Brumário de Luis Bonaparte.”

(**)Luiz Werneck Vianna, sociólogo, PUC-Rio; Publicado originalmente em https://gilvanmelo.blogspot.com/2021/01/luiz-werneck-vianna-hic-rhodus-hic-salta.html  domingo, 17 de janeiro de 2021

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