O dia em que a Terra parou

Raul Seixas e Claudio Roberto

Essa noite eu tive um sonho
de sonhador
Maluco que sou, eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou
com o dia em que a Terra parou

Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo
o planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém 



O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não tava lá
e o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar

No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou

E nas Igrejas nem um sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá
E os fiéis não saíram pra rezar
Pois sabiam que o padre também não tava lá
E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia o professor também não tava lá
E o professor não saiu pra lecionar
Pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar

No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou

O comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá
E o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
E o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar

No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou (Foi tudo)
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou

Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, acordei

No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou (Eu acordei)
No dia em que a Terra parou (Acordei)
No dia em que a Terra parou (Justamente)
No dia em que a Terra parou (Eu não sonhei acordado)
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou (No dia em que a terra
parou)

OUÇA NA VOZ DE RAUL SEIXAS

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Vacina e proteção para todos!

Tem gente a pensar que se o Butantan e a Fiocruz pudessem produzir 200 milhões de vacinas o povo brasileiro estaria salvo do Covid-19. Mas muitos cientistas não pensam assim, pois evidencia-se a amplitude mundial da catástrofe sanitária e socioeconômica da pandemia do covid-19 e o imperativo de seu enfrentamento na mesma escala global. E o momento é revelador do despreparo das instituições reguladoras internacionais já enfraquecidas pela globalização do capitalismo.

O artigo a seguir, assinado por equipe liderada por Joseph Stiglitz e Michael Spence, ambos “prêmios Nobel” de economia, reforça aquela evidência ao apelar à iniciativa dos países desenvolvidos – ainda que a partir de seus próprios interesses - em prol das populações pobres e das regiões subdesenvolvidas.

Denunciam a resistência de “interesses corporativos das economias avançadas” e de respectivos Governos que “(...) se deixam levar pela miopia”.

Prosseguem os autores: “(...) A ascensão do nacionalismo pandêmico revelou uma série de deficiências nos regimes internacionais de comércio, investimento e propriedade intelectual”.

Ao apontar os imensos recursos financeiros e de conhecimento já disponíveis à sociedade mundial, esta análise dos autores enseja-nos entrever alguns dos limites do capitalismo.

Segue o artigo.

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Ninguém estará a salvo enquanto todos não estiverem*

Joseph Stiglitz/Michael Spence/ Jayati Ghosh**

 Abril/2021

Os Estados Unidos esperam se tornar “independentes” da covid-19 em 4 de julho, seu Dia da Independência, quando houver vacinas para toda a população adulta. Mas, para muitos países em desenvolvimento e emergentes, o final da crise ainda está muito distante. Como mostramos em um relatório para a Comissão para a Transformação Econômica Mundial do Instituto do Novo Pensamento Econômico (INET), para que seja possível uma recuperação global rápida é necessário que todos os países possam se declarar independentes do vírus.

A capacidade de mutação do coronavírus implica que ninguém estará a salvo enquanto ele não tiver sido controlado em todos os lugares. Por isso é essencial efetuar o quanto antes possível uma distribuição universal de vacinas, tratamentos e equipamentos de proteção pessoal. As restrições atuais ao fornecimento desses itens são basicamente artificiais, na medida em que resultam de um regime internacional de propriedade intelectual mal desenhado.

Mas além da tão adiada reforma desse regime, o mais urgentemente necessário é uma suspensão dos direitos de propriedade intelectual atribuídos a produtos essenciais para o combate à covid-19 ou a criação de recursos comuns de patentes (pooling) para seu uso compartilhado. Muitos países reivindicam estas medidas, mas os interesses corporativos das economias avançadas opõem resistência, e seus Governos se deixam levar pela miopia. A ascensão do nacionalismo pandêmico revelou uma série de deficiências nos regimes internacionais de comércio, investimento e propriedade intelectual (algo que a comissão do INET analisará em um relatório posterior).

As economias avançadas, sobretudo os Estados Unidos, têm agido com determinação para reativar suas economias e apoiar famílias e empresas vulneráveis. Entenderam (embora talvez seja uma lição passageira) que, em crises como esta, as medidas de austeridade são profundamente contraproducentes. Mas os países em desenvolvimento, em sua maioria, têm grandes dificuldades para obter recursos que lhes permitam manter os programas de apoio vigentes, por não falar de absorver os custos adicionais impostos pela pandemia. Os Estados Unidos gastaram cerca de 25% de seu PIB em medidas de apoio à economia, conseguindo assim limitar a desaceleração, mas as nações em desenvolvimento só puderam gastar um valor muito menor.

Nossos cálculos, baseados em dados do Banco Mundial, mostram que o gasto nos Estados Unidos, da ordem de 17.000 dólares per capita, foi 8.000 vezes maior que nos países menos desenvolvidos. Além do uso decidido da política fiscal, há três medidas que os países desenvolvidos podem adotar e que os beneficiarão, além de colaborar com a recuperação mundial. Em primeiro lugar, impulsionar uma grande emissão de direitos especiais de saque (DES, na sigla em inglês), o ativo global de reserva do Fundo Monetário Internacional. O FMI pode emitir de forma imediata 650 bilhões de dólares em DES sem necessidade de aprovação dos legislativos nacionais. E o efeito expansivo da medida será muito maior se os países ricos transferirem suas atribuições desproporcionais do DES a outros países com necessidade de efetivo.

O segundo conjunto de medidas também envolve o FMI, dada sua influência sobre a política macroeconômica dos países em desenvolvimento, em particular aqueles que recorrem a ele para resolver problemas de balança de pagamentos. É animador que o FMI tenha sido um ativo propulsor da implementação de abundantes e prolongados programas de ajuda fiscal nos Estados Unidos e na União Européia, e que tenha reconhecido inclusive a necessidade de aumentar os gastos públicos nos países em desenvolvimento, apesar da adversidade das condições externas.

Mas, na hora de estipular os termos dos empréstimos para países com problemas de balança de pagamentos, as ações do FMI nem sempre coincidem com suas declarações. Uma recente análise da ONG Oxfam Internacional sobre os programas de ajuda do FMI, incluindo os vigentes e os recém-encerrados, concluiu que, entre março e setembro de 2020, 76 dos 91 empréstimos negociados pelo Fundo com 81 países incluíam exigências de cortes nos gastos públicos, o que poderia se traduzir na deterioração dos sistemas sanitários e previdenciários, congelamento de salários dos funcionários públicos (incluindo médicos e professores) e redução dos seguros-desemprego, das licenças por doença e de outros benefícios sociais. A austeridade (sobretudo em se tratando de cortes nessas áreas essenciais) não terá nos países em desenvolvimento melhores resultados do que alcançaria nos desenvolvidos. Além disso, aqueles países poderiam contar com uma maior margem fiscal se recebessem mais assistência (incluída a já mencionada emissão dos direitos especiais de saque).

Finalmente, os países desenvolvidos podem organizar uma resposta integral aos enormes problemas de dívida que muitas nações enfrentam. Todo dinheiro gasto em pagar dívidas é dinheiro que não se usa para combater o vírus e reativar a economia. No começo da pandemia, esperava-se que uma suspensão dos pagamentos de dívida de países em desenvolvimento e emergentes seria suficiente; porém, mais de um ano já se passou, e alguns devedores precisam de uma reestruturação integral, em vez dos típicos emplastros que só servem para gerar as condições para a próxima crise.

Os países credores podem fazer muito para facilitar essas reestruturações e estimular uma participação mais ativa do setor privado (que até agora se mostrou bastante resistente a colaborar). Como salienta o relatório da Comissão, se alguma vez houve um momento para fazer valer os princípios de força maior e necessidade, esse momento é agora. Não se pode pedir aos países devedores que paguem o que não podem, sobretudo à custa de tanto sofrimento.

As políticas aqui descritas seriam de grande ajuda para os países em desenvolvimento e custariam pouco ou nada para os países desenvolvidos. A rigor, aliás, o interesse próprio do mundo desenvolvido exige fazer o possível para ajudar aos países em desenvolvimento e emergentes, sobretudo quando isso é tão fácil e beneficiaria grande parte da humanidade. A cúpula política nos países desenvolvidos precisa compreender que ninguém estará a salvo enquanto todos não estiverem, e que a saúde da economia global depende de uma forte recuperação em todas as partes.

LEIA TAMBÉM: Os sete segredos de 2020

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(*) Originalmente publicado em El País, 06 de abril de 2021.

(**) Joseph E. Stiglitz é ganhador do prêmio Nobel de Economia, professor da Universidade Columbia (EUA) e membro da Comissão Independente para a Reforma da Fiscalidade Corporativa Internacional; Michael Spence é ganhador do prêmio Nobel de Economia, professor emérito da Universidade Stanford e pesquisador-sênior do Instituto Hoover; e Jayati Ghosh é secretária-executiva do International Development Economics Associates, professora de Economia na Universidade de Massachusetts em Amherst e integrante da Comissão Independente para a Reforma da Fiscalidade Corporativa Internacional; este artigo também é assinado por Rob Johnson, Rohinton Medhora, Dani Rodrik e outros integrantes da Comissão para a Transformação Econômica Mundial do Instituto do Novo Pensamento Econômico.

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O sadismo intelectual do ajuste fiscal

"O presidente constantemente afirma que se todo mundo ficar em casa a economia acaba. O que acaba a economia é pandemia descontrolada. Essa visão distorcida é um efeito de aparente deslocamento (paralaxe) do objeto observado, no caso a realidade, para se adequar à visão do observador - o presidente e seu ministro da (des)economia -  e assim desconsiderarem aquela realidade".

Luiz Martins de Melo*

Março- 2021

O Estado de bem-estar social foi uma enorme inovação política e social introduzida no capitalismo. Se foi o cálculo econômico, uma maior consciência social ou o fantasma do comunismo que o fez se tornar a política que viabilizou os trinta anos gloriosos do capitalismo no pós-segunda guerra mundial é difícil saber. Provavelmente uma mistura dos três. Essa construção institucional para a vigência de um capitalismo civilizado é o que ainda confere um padrão de vida confortável nas economias desenvolvidas. Ela passou a sofrer um forte ataque de uma concepção liberal-conservadora que fora derrotada no imediato pós-guerra mas que voltara renovada, no final dos anos setenta e início dos oitenta, renovada com as vitórias de Reagan e Thatcher  nos Estados Unidos e Reino Unido. Trump e seu filhote Bolsonaro são um subproduto dessa destruição institucional.

Pandemia no Brasil 2021
O neoliberalismo com uma visão do individualismo possessivo advoga que cada um deve buscar o máximo de satisfação e que essa busca não pode ser limitada pela vida social. Ela é independente. Isso é o que torna o ser humano forte. Sem mimimi. Sem medo da morte. A busca incansável dessa máxima insatisfação individual, custe o que custar, vai fazer com que a sua resultante seja o máximo de ganho para todos. Transforma a morte, e não a vida, em seu objetivo final.  Não existe lugar para os mais fracos.

Skidelsky mostra que a contrapartida dessa visão de sofrimento e morte está fortemente inserida na corrente hegemônica da macroeconomia com o conceito de austeridade fiscal.

"Pode-se dizer que a insistência na necessidade de dor de curto prazo (por exemplo, austeridade) em prol do ganho de longo prazo, quando o curto prazo pode durar décadas e o longo prazo pode nunca acontecer, atesta um sadismo intelectual refinado".

A idéia de austeridade fiscal desconhece que o cidadão, não o indivíduo, é um pagador de impostos em todas as suas atividades como trabalhador, produtor e consumidor. O Estado de bem-estar social é um direito seu, não um favor do Estado e um entrave para a realização da sua máxima satisfação como indivíduo.

A formação econômica e social do Brasil produziu uma elite que sempre tratou a questão social como um caso de polícia.  A sociedade elitizada e preconceituosa mantém um enorme desprezo pela vida humana dos outros, desde que não estejam entre os reconhecidos como seus iguais. Esse preconceito e discriminação ficaram claros com a enorme penetração do negacionismo na sociedade e a impiedade pela vida dos cidadãos brasileiros mostrado pelo atual governo e compartilhada pelos seus seguidores.  

Essa visão perversa e canhestra é uma concepção distorcida da vida social. Não consegue nem enxergar o custo econômico, o prejuízo na arrecadação de impostos, para ficar na visão deformada do processo econômico do ministro da (des)economia. Não leva em conta nem o impacto na atividade produtiva dos mortos e infectados. Quanto custou e custa ao Estado por ano um cidadão atingido pela Covid-19? As mais de 270 mil mortes vão reduzir a força de trabalho e diminuir o seu potencial de produzir e pagar impostos.

O presidente constantemente afirma que se todo mundo ficar em casa a economia acaba. O que acaba a economia é pandemia descontrolada. Essa visão distorcida é um efeito de aparente deslocamento (paralaxe) do objeto observado, no caso a realidade, para se adequar à visão do observador - o presidente e seu ministro da (des)economia -  e assim desconsiderarem aquela realidade.

No primeiro semestre de 2020 a maioria das previsões para o crescimento da economia apontava para uma queda do PIB que cairia de 6% a 9%. Caiu 4,1%. O elemento central para essa relativa melhora foi a pressão da sociedade e o reconhecimento pelo Congresso da necessidade de um grande gasto público que gerou uma expansão fiscal de 7% do PIB (R$ 524 bilhões), O auxílio emergencial  foi o principal fator para esse desempenho melhor do que o previsto.

O ministro da (des)economia antes do final de 2020, naquela sua visão distorcida, já anunciava que a recuperação era um sucesso garantido, a pandemia estava em queda e não haveria mais necessidade de expansão fiscal. O país estava pronto para iniciar o círculo virtuoso (sic) das reformas liberais que trariam a “fada confiança” de volta e o investimento privado deslancharia e produziria o crescimento econômico. Faltou combinar com o COVID-19.

Essa visão, em conjunto com o permanente negacionismo do presidente e o desastre que é a política de saúde acarretou a completa flexibilização das normas de prevenção e de isolamento social. Evidentemente a pandemia voltou mais forte. A economia voltou a desacelerar. O desemprego aumentou. A crise social e política recrudesceu.

Essa visão comum ao presidente e ao ministro da (des)economia permite que eles assumam uma relação inversa entre a realidade da pandemia e a da economia. Assim propõem um pacote de expansão fiscal inferior ao anterior, de menor valor e duração, quando a crise sanitária está mais grave. E, para não negar o espirito de “Tanatos”, com contrapartidas fiscais. O ajuste fiscal tem de prevalecer sobre a necessidade da vida. A vida não é um direito do cidadão. É uma dádiva para aqueles que forem fortes, não tiverem medo do vírus, e o enfrentarem sem mimimi. Tem que ser macho.

Mas mesmo com essa desconexão da realidade o Bozo sente alguns golpes que o tiram do sério e o acuam. É quando a oposição e a sociedade cobram a sua responsabilidade sobre o auxílio emergencial, a vacinação e as medidas de prevenção social para enfrentar a pandemia. Isso mostra a sua preguiça e o seu medo. Esse deve ser o centro da política de enfrentamento ao Bozo e ao seu ministro da (des)economia.   Isso é o que está fazendo a sua popularidade cair. Vai aumentar a frequência dos panelaços.  Isso é o que vai trazer a possibilidade do impedimento.

Ao que parece a sociedade começa a despertar para a luta mais frontal. A maioria dos governadores se uniu, alguns bolsonaristas inclusive, para cobrar um plano e maior agilidade na vacinação. Outros tomaram medidas mais duras de isolamento social.

Essas são as questões centrais que temos de fortalecer para aumentar a coesão da oposição e isolamento do Bozo. Mesmo que a política tenha autonomia em relação ao econômico e o social não podemos cair na tentação de criarmos  a nossa própria visão distorcida, deslocada da realidade (em paralaxe). É legitimo que qualquer partido comece a pensar em 2022. Que tenham a proposta de candidatos próprios.  Porém, a prioridade é que se construa uma frente comum para o enfrentamento da pandemia: auxilio emergencial, até o fim da pandemia, de R$600,00; vacinação em massa e medidas de prevenção social até que a vacinação produza os seus efeitos de contenção da pandemia. Essa é a agenda de “Eros” da vida.

Não é a hora de discutir as candidaturas. Esse é o campo do Bozo. Ele não é burro. Pode ser ignorante. Mas sabe manejar os cordéis da política, ainda tem uma forte base de apoio popular, armou a população e corteja permanentemente as forças de segurança. O Bozo com sua visão distorcida da realidade e o seu comportamento de quando acuado se tornar mais agressivo, constitui um enorme risco de retrocesso institucional com um possível autogolpe.

 É essa capacidade de os políticos autoritários falarem apenas para suas bolhas e reforçarem o seu discurso radicalizado, na maioria das vezes sem relação com a realidade, que os tornam perigosos institucionalmente pela constante aposta nos extremos. Essa é tese central do livro “Os engenheiros do caos”[1].

"Por trás do aparente absurdo das fake news e das teorias da conspiração, oculta-se uma lógica bastante sólida. Do ponto de vista dos líderes populistas, as verdades alternativas não são um simples instrumento de propaganda. Contrariamente às informações verdadeiras, elas constituem um formidável vetor de coesão. “Por vários ângulos, o absurdo é uma ferramenta organizacional mais eficaz que a verdade”, escreveu o blogueiro da direita alternativa americana Mencius Moldbug. Qualquer um pode crer na verdade, enquanto acreditar no absurdo é uma real demonstração de lealdade – e que possui um uniforme, e um exército".

Temos que atravessar 2021 com a proposta de consolidar a visão no imaginário dos brasileiros de que Bolsonaro é um risco para a vida, para a democracia e para a economia. Para a civilização brasileira.

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[1] da Empoli, Giuliano. Os engenheiros do caos (p. 16). Vestígio Editora. Edição do Kindle.

(*) Economista, Doutor em Economia-UFRJ, professor da Graduação e Pós-graduação do IE-UFRJ. Ex- Diretor da FINEP. Artigo originalmente publicado em "Terapia Política", março/2021, https://terapiapolitica.com.br/2021/03/11/sadismo-refinado-do-ajuste-fiscal/; versão revista e atualizada pelo autor para este blog.

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Quem sabe sabe

Gabeira explica o momento de dispersão das oposições democráticas, o reagrupamento de forças pró-Bolsonaro, e os fracassos e desmandos do governo diante da crise social e da pandemia ainda não devidamente reconhecidos pela população. Aponta a unidade em torno de lutas quotidianas decisivas como vacinação em massa e ajuda emergencial. Recorda lições de conjunturas semelhantes, a indicarem que não se deva extrapolar o quadro presente para 2022. 

À percepção cautelosa e aguçada de Gabeira podemos associar um pensamento recorrente em Gramsci: “(...) Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”

Segue o artigo

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O precoce começo de 22

Fernando Gabeira*

Fevereiro-2021

Algumas religiões desaconselham explicar muito sua fé. O zen-budismo, por exemplo, costuma alertar: quem sabe não fala, quem não sabe é quem fala.

O grande viajante inglês Richard Francis Burton converteu-se ao sufismo e adotou, simultaneamente, uma tática chamada taquia, que consiste em esconder sua fé. A política é uma esfera muito diferente, mas também nela é preciso cuidado para não falar muito ou dar a falsa impressão de que sabe mais que os outros.

Lembro-me de que, em Brasília, os que caíam nessa tentação eram discretamente rejeitados e, quase sempre, chamados de professor de Deus. Conheci vários professores de Deus e, confesso, que sabiam realmente muito menos do que imaginavam saber.

Dito isso, é com humildade que meto a colher nesse debate sobre a oposição a Bolsonaro e as alternativas para derrotá-lo em 2022. Talvez, no chamado centro democrático, seja necessário superar o clima de lamentos, acusações mútuas e desencanto.

Fernando Gabeira
Não há nada de extraordinário na adesão de quadros do DEM e do PSDB a Bolsonaro. Durante a ditadura, o MDB se dividiu, e os que faziam oposição eram chamados de autênticos.

Sempre sobra um pequeno núcleo com visão nacional, e sua tarefa é levar o trabalho adiante, tratando de unificar a partir das lutas cotidianas, das quais não se pode fugir. Coisas simples e decisivas, como vacinação em massa, ajuda emergencial.

No campo da esquerda, houve também uma certa surpresa, no meu entender exagerada, com o lançamento de um candidato do PT, Fernando Haddad. O partido ocupou o poder durante muito tempo, tem uma grande bancada no Congresso, disputou com Bolsonaro o segundo turno.

Todos sabem que lançará candidato próprio. Mesmo nas eleições municipais de São Paulo, com poucas chances segundo as pesquisas, disputou o primeiro turno.

Já defendi a idéia de que é indispensável uma grande frente. No entanto as próprias eleições municipais mostraram possibilidades diferentes.

O candidato de Bolsonaro perdeu tanta consistência em São Paulo que nem chegou ao segundo turno. No Rio, o aliado do presidente chegou ao segundo turno tão combalido que seria derrotado pelo próprio índice de rejeição.

Alguma dessas hipóteses pode acontecer com Bolsonaro, uma vez que ainda não foi metabolizado pela população seu fracasso ao tratar da pandemia, muito menos sua irresponsabilidade em defender e produzir remédios ineficazes contra o coronavírus. E nem foi revelado amplamente à juventude do país seu trabalho de destruição da natureza.

O caminho pela frente, de um lado, é de crise social; de outro, uma aliança entre Bolsonaro e o Centrão, que pode até esboçar algumas respostas, mas, ao longo da história, tem se mostrado um tipo de aliança que cava um abismo entre política e sociedade.

Os que defendem a frente falam também de um projeto nacional, uma visão de como e para onde conduzir o Brasil, sua inserção internacional. É inegável a importância do argumento. No entanto a experiência tem mostrado também que muitos eleitores se definem por algum tema que lhes interessa e avaliam também a trajetória e a personalidade do candidato.

Por isso, talvez, em vez de estarmos vendo apenas a fragmentação de uma potencial frente única, estejamos assistindo às cotoveladas e artimanhas que antecedem o lançamento das candidaturas.

É importante que se lancem e comecem a trabalhar seriamente. Não existe uma certeza de que a eleição que virá repetirá os protagonistas da eleição de 2018. Muito menos a certeza de que, repetindo os protagonistas, repita o resultado.

Tenho dúvidas se conseguiremos deter satisfatoriamente a pandemia antes de 2022. Isso torna o caminho mais complicado, mas não impede a existência de um caminho aberto, ainda não fatalisticamente desenhado; enfim, um que depende daqueles que vão desbravá-lo.

LEIA TAMBÉM: Vida e Democracia

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(*) Fernando Gabeira é jornalista. Publicado originariamente em "O Globo", 15/02/2021.


Os sete segredos de 2020

Fevereiro - 2021

Nesta virada de ano Yanis Varoufakis publica novo artigo, agora focado na atuação dos governos e das instituições financeiras oficiais durante a pandemia, nas regiões do capitalismo mais avançado. 

Cidades fechadas na pandemia. Nápoles, Itália. Foto: Veja.

Varoufakis desmascara um modo de produção degenerado que já deixou de ser o capitalismo que apregoam (denomina-o “tecno-feudalismo”). Mais importante, mostra estarem historicamente construídas, e mais vivas do que nunca, a base produtiva de alta tecnologia e algumas das alavancas institucionais estratégicas para a superação do atual estado de coisas. Medidas propositivas o autor já esboçara no documento dirigido à Internacional Progressista, recentemente publicado neste Blog (ver "Um novo internacionalismo").

É mais um pequeno passo para identificarmos "(...) os meios necessários para por termo aos males descobertos (...) meios que não devem ser tirados da cabeça de ninguém, mas a cabeça é que tem de descobri-los nos fatos materiais da produção, tal qual a realidade os oferece" (F. Engels, “Do socialismo utópico ao socialismo científico”, 1877).

Segue o artigo.

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Os sete segredos de 2020*

Yanis Varoufakis**

ATENAS - Um castelo de cartas. Um conjunto de mentiras que aceitamos inconscientemente. É assim que nossas certezas parecem durante crises profundas. Esses episódios nos chocam ao reconhecermos como nossas suposições são inseguras. É por isso que este ano pareceu uma maré recuando rapidamente, obrigando-nos a enfrentar verdades submersas. 

Costumávamos pensar, com bons motivos, que a globalização desfigurou os governos nacionais. Os Presidentes curvaram-se diante dos mercados de títulos. Os primeiros-ministros ignoraram os pobres de seu país, mas nunca a Standard & Poor's. Os ministros das finanças se comportaram como os patifes do Goldman Sachs e os sátrapas do Fundo Monetário Internacional. Magnatas da mídia, homens do petróleo e financistas, não menos do que críticos de esquerda do capitalismo globalizado, concordaram que os governos não estavam mais no controle.

Então veio a pandemia. Da noite para o dia, os governos criaram garras e exibiram dentes afiados. Fecharam fronteiras e aterrissaram aviões, impuseram toques de recolher draconianos em nossas cidades, fecharam nossos teatros e museus e nos proibiram de confortar nossos pais moribundos. Eles até fizeram o que ninguém pensava ser possível antes do Apocalipse: cancelaram eventos esportivos.

O primeiro segredo foi assim exposto: os governos retêm um poder inexorável. O que descobrimos em 2020 é que os governos nacionais têm optado por não exercerem  seus enormes poderes de modo a que os enriquecidos pela globalização pudessem exercer os seus.

A segunda verdade é uma que muitos suspeitavam, mas eram tímidos demais para gritar: a árvore que faz brotar dinheiro é real. Os governos que proclamavam sua penúria sempre que chamados a pagar por um hospital aqui ou uma escola ali, de repente descobriram muito dinheiro para pagar férias forçadas e desempregados, nacionalizar ferrovias, assumir companhias aéreas, apoiar montadoras de automóveis e até mesmo sustentar academias e cabeleireiros.

Os que normalmente protestam que o dinheiro não cresce nas árvores, que os governos devem deixar os cavacos da sorte e do azar se espalharem onde quer que seja, engoliram a língua. Os mercados financeiros comemoraram, em vez de lançar um ataque à onda de gastos do estado.

A Grécia é um estudo de caso perfeito da terceira verdade revelada este ano: a solvência é uma decisão política, pelo menos no Ocidente rico. Em 2015, a dívida pública da Grécia de € 320 bilhões (US$ 392 bilhões) superava uma renda nacional de apenas € 176 bilhões. Os problemas do país foram notícia de primeira página em todo o mundo, e os líderes europeus lamentaram nossa insolvência.

Hoje, no meio de uma pandemia que piorou uma economia ruim, a Grécia não é um problema, embora nossa dívida pública seja € 33 bilhões mais alta e nossa receita € 13 bilhões mais baixa, do que em 2015. Poderes da Europa que antes haviam decidido ser suficiente uma década para lidar com a falência da Grécia, então decidiram declarar a Grécia solvente. Enquanto os gregos elegerem governos que transferem consistentemente para a oligarquia sem fronteiras qualquer riqueza (pública ou privada) que resta, o Banco Central Europeu fará o que for necessário - comprar tantos títulos do governo grego quanto necessário - para manter a insolvência do país fora dos holofotes.

O quarto segredo que 2020 revelou foi que as montanhas de riqueza privada concentrada que observamos têm muito pouco a ver com empreendedorismo. Não tenho dúvidas de que Jeff Bezos, Elon Musk ou Warren Buffett têm um talento especial para ganhar dinheiro e controlar mercados. Mas apenas uma pequena porcentagem da sua apropriação acumulada é o resultado da criação de valor.

Considere o aumento estupendo desde meados de março na riqueza dos 614 bilionários da América. Os US $ 931 bilhões adicionais que eles acumularam não resultaram de nenhuma inovação ou engenhosidade que gerou lucros adicionais. Eles ficaram mais ricos durante o sono, por assim dizer, à medida que os bancos centrais inundaram o sistema financeiro com dinheiro fabricado, fazendo com que os preços dos ativos e portanto a riqueza dos bilionários disparassem.

Com o rápido desenvolvimento, teste, aprovação e lançamento das vacinas COVID-19, um quinto segredo foi revelado: a ciência depende da ajuda estatal e sua efetividade é abstraída de seu suporte público. Muitos comentaristas se tornaram líricos sobre a capacidade dos mercados de responder rapidamente às necessidades da humanidade. Mas a ironia não deve escapar a ninguém: a administração do mais anticientífico presidente dos EUA de todos os tempos - um presidente que ignorou, intimidou e zombou de especialistas mesmo durante a pior pandemia em um século - alocou US $ 10 bilhões para garantir que os cientistas tivessem o recursos de que necessitavam.

Mas há um segredo mais amplo: enquanto 2020 foi um ano marcante para os capitalistas, o capitalismo como tal já deixou de sê-lo. Como isso é possível? Como os capitalistas podem florescer à medida que o capitalismo evolui para outra coisa?

Fácil. Os maiores apóstolos do capitalismo, como Adam Smith, enfatizaram suas consequências não intencionais: precisamente porque os indivíduos em busca de lucro não têm consideração por ninguém, eles acabam servindo à sociedade. A chave para converter o vício privado em virtude pública é a competição, que impele os capitalistas a buscarem atividades que maximizem seus lucros. Num mercado competitivo isto serve ao bem comum, aumentando a diversidade e a qualidade dos bens e serviços disponíveis, ao tempo em que baixa constantemente os preços.

Não é difícil ver que os capitalistas podem se sair muito melhor com menos competição. Este é o sexto segredo que 2020 expôs. Liberadas da competição, colossais empresas de plataforma como a Amazon se saíram surpreendentemente bem com a extinção do capitalismo e sua substituição por algo semelhante ao tecno-feudalismo.

Mas o sétimo segredo que este ano revelou foi como receber uma encomenda de prata. Embora introduzir mudanças radicais nunca seja fácil, agora está perfeitamente claro que tudo poderia ser diferente. Não há mais razão para aceitarmos as coisas como são. Pelo contrário, a verdade mais importante de 2020 é capturada no aforisma adequado e elegante de Bertolt Brecht: “Porque as coisas são como são, as coisas não permanecerão como são.”

Não consigo pensar em nenhuma fonte maior de esperança do que esta revelação, entregue num ano que a maioria preferia esquecer.

LEIA TAMBÉM: Um novo internacionalismo

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(*) Publicado originalmente em Project Syndicate - 28 de dezembro de 2020 - https://www.project-syndicate.org/commentary/seven-secrets-revealed-by-2020-by-yanis-varoufakis-2020-12?utm_source=project-syndicate.org&utm_medium=email&utm_campaign=authnote& 

(**) Yanis Varoufakis, ex-ministro das finanças da Grécia, é líder do partido MeRA25 e professor de Economia na Universidade de Atenas.

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Vida e Democracia

No Brasil e no mundo andam juntas a defesa da vida e da democracia. É o que descreve e demonstra o precioso texto de Werneck Viana a seguir.

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Hic Rhodus hic salta*

Luiz Werneck Vianna**

Janeiro - 2021

Nesse tempo de espantos algo já se pode dizer: perderam todos os que se empenharam em imprimir uma marcha à ré no movimento das coisas no mundo com a derrota no processo eleitoral de Donald Trump que os liderava a partir do poder e da influência que o governo dos EUA exerce na cena mundial. Em poucos dias, Joe Biden, cuja campanha se orientou por princípios opostos de política externa será ungido com a faixa presidencial, devolvendo o seu país ao seu leito natural historicamente constituído, exemplar no processo de criação da ONU.  O eixo do mal, portador de versões degradadas do nacionalismo em moldes populistas, perde a sustentação do pino que garantia seu funcionamento, e as peças que ainda lhe restam não terão como operar sem o amparo do sistema de quem faziam parte.

Luiz Werneck Vianna
Cerra-se um ciclo que se iniciou no governo Thatcher, aprofundou-se com Reagan e culminou com Donald Trump, em que se tentou com a fórmula neoliberal nos devolver ao capitalismo vitoriano. As promessas de um novo tempo, contudo, se encontram embaçadas pelo flagelo da pandemia que nos assola e tolhe a livre movimentação das forças sociais embora estimulem a procura por soluções cooperativas supranacionais. Nesse sentido, o esforço mobilizado para o combate contra ela ainda mais reforça o processo de transição em que estamos envolvidos para uma era de superação do modelo de estado-nação em favor de organizações multinacionais que se comprometam com os ideais da igual-liberdade.

Essa transição não será um processo fácil, à sua frente poderosos obstáculos, políticos, sociais e econômicos, como se constatou dramaticamente com a insurreição frustrada da invasão do Capitólio quando se intentou obstar a certificação das eleições por um golpe de mão. O cenário dantesco daquele episódio foi registrado ao vivo e a cores, e seu macabro inventário tem sido exposto pela imprensa americana com a identificação dos seus personagens, conformando um quadro assustador de supremacistas brancos, neonazistas, de milicianos, de uma gente sem eira e beira, inflada pela cólera do ressentimento social, escória cevada com as bênçãos do governante do país.

Conduzir essa transição demanda soluções enérgicas e criativas que destravem seu caminho, a primeira resposta contundente foi a do impeachment de Trump, que contou com a aprovação de 10 votos de representantes republicanos, e as que devem ser apresentadas por Biden em seu discurso de posse no próximo dia 20 em nome do que ele sustenta serem os remédios para a cura da alma americana da doença do trumpismo que teria posto em risco os valores fundacionais da sua sociedade.

Tal como testemunha o caso brasileiro, mais do que uma patologia própria aos EUA o trumpismo se constituiu em um sistema. Sua derrocada importará em efeitos de dominó nos países que integravam sua constelação, entre os quais o Brasil, contudo a necessária admissão dessa nova condicionante da política brasileira, bem longe de recomendar uma postura quietista, de cega confiança de que a mudança no estado de coisas da nossa realidade possa provir do mundo exterior, deve servir de estímulo aos esforços de erradicação do trumpismo tupiniquim.

O princípio da realidade nos aconselha a constatar as dificuldades políticas e sociais que se antepõem a esse necessário e inafastável empreendimento diante da gravidade das circunstâncias a que estamos expostos. Mas, em que pesem as restrições, inclusive as impostas pela pandemia que dificulta os encontros e as mobilizações no espaço público, são necessários os primeiros passos na longa marcha que se tem pela frente, pois não se podem dar as costas à fortuna que nos alicia para a ação. Caso contrariada por um ator surdo às suas mensagens, ela pode nos entregar à nossa própria má sorte com o resultado nefasto de prolongar o abjeto governo que aí está.

A tragédia amazônica, se permanecermos inertes, será o destino de todos se nos faltar o alento para a reconquista do que nos tem sido subtraído pelo governo Bolsonaro em suas práticas demofóbicas e antidemocráticas. A investida das forças democráticas, na hora atual, deve ter como objetivo principal a defesa da vida e de todas as instituições da área da saúde que se empenham contra a orientação genocida imposta pelas autoridades governamentais, ora representada pela bizarra inépcia do ministro Pazzuelo.

Nessa direção, o movimento ofensivo deve transcorrer nas esferas institucionais, incluído o poder judiciário, com ênfase especial no Congresso, a que não pode faltar o recurso ao impeachment de Bolsonaro, principal responsável pela catástrofe sanitária do país, movimento a ser respaldado pelas agências da sociedade civil por meio de manifestos, panelaços e do que mais estiver à mão.

Cassandras nos aconselham a não partir para o mar alto, e nos relembram dos políticos liliputianos com que contamos, mas não nos vem de João Doria, governador de São Paulo, de perfil e robusto histórico conservador, a qualificação de Bolsonaro como facínora? Não se faz política sem alma, remoendo cálculos intermináveis de avaliação de forças esperando dos céus uma chuva que não vem, pois sempre chega a hora do hic Rhodus hic salta. Pois ela chegou. Já contamos mais de 200 mil mortos, basta, fora.

LEIA TAMBÉM: Tática e Manobra

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 (*) Em expressão literal: “Aqui é Rhodes. Salta aqui”. Significa: mostre aqui, prove o que você pode. Provem de uma fábula de Esopo, que trata de um fanfarrão que se nega a participar de uma prova de saltos, contando vantagem de ter saltado mais que todos em Rhodes. A frase passou a usar-se como uma exigência da demonstração imediata do que pode ser facilmente provado. A interpretação no contexto político, Werneck Vianna pode ter trazido de K. Marx em “O 18 Brumário de Luis Bonaparte.”

(**)Luiz Werneck Vianna, sociólogo, PUC-Rio; Publicado originalmente em https://gilvanmelo.blogspot.com/2021/01/luiz-werneck-vianna-hic-rhodus-hic-salta.html  domingo, 17 de janeiro de 2021

#AdeusBolsonaro


Um novo internacionalismo

Dezembro- 2020

Yanis Varoufakis, economista, membro do partido SYRIZA, da Grécia, tornou-se mundialmente conhecido desde quando fora ministro das finanças do governo de esquerda grego em 2015. Esteve à frente dos embates que por fim levaram infelizmente à capitulação do povo grego perante as instituições oficiais centrais do sistema financeiro internacional. Desde então Varoufakis voltou-se para uma riquíssima militância e produção intelectual quanto à crise global do sistema capitalista e às vias de construção de um mundo pós-capitalista, democrático e solidário.

Juntou-se a vários intelectuais e lideranças políticas do mundo em prol da organização de uma "Internacional Progressista" - recentemente criada - com vistas à coordenação mundial das forças progressistas, seja na pesquisa e conhecimento do movimento, crises e transformações do capitalismo, seja na elaboração de estratégias e planos de ação coordenados de amplas forças progressistas ao redor do mundo. Conforme Varoufakis:

Se a nossa Internacional Progressista simplesmente criar espaço para a discussão aberta nas praças das cidades (como fez o Occupy Wall Street há uma década) ou apenas buscar emular esforços como o Fórum Social Mundial, ela acabará novamente fracassando. Para ter sucesso, precisaremos de um plano de ação comum e de uma estratégia de campanha incomum, que incentivem os progressistas ao redor do mundo a implementarem esse plano. Por último, mas não menos importante, precisaremos da vontade compartilhada para visualizar uma realidade pós-capitalista.

Por sua vez, este Blog tem abordado reiteradamente a temática da crise do capitalismo no Sec. XXI que aponta em direção a um novo  internacionalismo, com um novo “intelectual coletivo” nas condições contemporâneas de um mundo integrado e conectado, força dirigente das massas oprimidas para a superação do capitalismo. São exemplo a seguintes publicações do Blog:

 “A época histórica. Fim da história?” (2017);

“Bernie Sanders em Davos – propõe um novo movimento progressista mundial” (2018);

“Fadiga do Capitalismo” (entrevista de Jean Ziegler - 2019).

No artigo a seguir, Varoufakis analisa com seu grande conhecimento da situação concreta, as manobras defensivas do capital financeiro internacional, reveladoras de seus poderes econômico e político, em prejuizo de grandes massas da população. Recapitula a ascenção dos movimentos populares diante da crise. Num primeiro momento sob as bandeiras da esquerda. Mas em seguida, diante do seu refluxo e fracasso, abrindo caminho à ascenção das forças de direita mais reacionárias.

Yanis Varoufakis

Segue o artigo.

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Plano de ação para a Internacional Progressista

Yanis Varoufakis*

Nossa era será lembrada pela marcha triunfante do autoritarismo e seu rastro, em que a vasta maioria da humanidade passou por dificuldades desnecessárias e os ecossistemas do planeta sofreram uma destruição climática que podia ter sido evitada. Por um breve período — que o historiador britânico Eric Hobsbawm descreveu como “o curto século 20” — as forças do establishment se uniram para lidar com os desafios à sua autoridade. Foi uma fase rara, em que as elites tiveram que enfrentar um leque de movimentos progressistas, todos buscando mudar o mundo: social-democratas, comunistas, experimentos de autogestão, movimentos de libertação nacional na África e na Ásia, os primeiros ecologistas, radicais, etc.

Cresci na Grécia de meados da década de 1960, governada por uma ditadura de direita estimulada pelos Estados Unidos, sob o comando de Lyndon Johnson (cujo governo foi um dos mais progressistas internamente, mas que não hesitou em apoiar fascistas na Grécia ou em bombardear o Vietnam). O medo e a aversão ao populismo de direita que encontramos hoje estampado nas páginas do New York Times, simplesmente não existiam naquela época.

As coisas mudaram depois de 2008, o ano em que o sistema financeiro ocidental implodiu. Após 25 anos de financeirização sob o manto ideológico do neoliberalismo (entenda mais no artigo de Ann Pettifor sobre o sistema financeiro global), o capitalismo global teve um espasmo semelhante ao de 1929, que quase o deixou de joelhos. A reação imediata dos governos a esta crise, para apoiar as instituições financeiras e os mercados, foi ligar as impressoras dos bancos centrais e transferir as perdas bancárias para as classes trabalhadoras e médias, por meio dos chamados “resgates”.

Essa combinação de um socialismo para poucos e uma rígida austeridade para as massas, desencadeou duas coisas. Em primeiro lugar, deprimiu o investimento real global, pois as empresas sabiam que as massas tinham pouco para gastar em novos bens e serviços. Isso gerou descontentamento entre muitos, enquanto poucos recebiam grandes doses de “liquidez”.

Em segundo lugar, eclodiram inicialmente levantes progressistas — dos Indignados na Espanha e os Aganaktismeni na Grécia, ao Occupy Wall Street e a várias forças de esquerda na América Latina. Esses movimentos, no entanto, tiveram vida relativamente curta e foram tratados de modo eficiente pelo establishment, tanto de forma direta, com o esmagamento da primavera grega em 2015, por exemplo; como indireta, como no enfraquecimento de governos esquerdistas latino-americanos quando caiu a demanda chinesa por suas exportações.

À medida em que as causas progressistas foram sendo eliminadas uma a uma, o descontentamento das massas teve que encontrar uma expressão política. Imitando a ascensão de Mussolini na Itália, que prometeu cuidar dos mais fracos e fazer com que eles se sentissem orgulhosos de serem italianos novamente, testemunhamos a ascensão do que podemos chamar de Internacional Nacionalista, mais claramente expressa nos argumentos de direita alimentando a saída da Grã-Bretanha da União Europeia e nas vitórias eleitorais de nacionalistas de direita: Donald Trump nos Estados Unidos; Jair Bolsonaro no Brasil; Narendra Modi na Índia; Marine Le Pen na França; Matteo Salvini na Itália e Viktor Orban na Hungria.

E assim, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o grande confronto político deixou de ser entre o establishment e os diversos progressismos, para se tornar um conflito entre diferentes partes do establishment. Uma parte aparece como os baluartes da democracia liberal; a outra, como os representantes do movimento anti-liberal.

Evidentemente, esse choque entre o establishment liberal e a Internacional Nacionalista é totalmente ilusório. Na França, o centrista Macron precisou da ameaça do nacionalismo de extrema-direita de Le Pen, sem o qual ele nunca seria presidente. E Le Pen precisou de Macron e das políticas de austeridade do establishment liberal, que geraram o descontentamento que alimentou suas campanhas. Da mesma forma nos Estados Unidos, onde as políticas dos Clinton e dos Obama, que resgataram Wall Street, alimentaram o descontentamento que criou Donald Trump — cuja ascensão reforça, em um círculo sem fim, as defesas de Clinton e Biden contra alguém como Bernie Sanders. Foi um mecanismo de reforço entre o establishment e os chamados populistas, replicado em todo o mundo.

No entanto, o fato do establishment liberal e a Internacional Nacionalista serem co-dependentes, não significa que o choque cultural e pessoal entre eles não seja autêntico. A autenticidade de seu confronto, apesar da falta de qualquer diferença política real entre eles, tornou quase impossível para os progressistas serem ouvidos, devido à cacofonia causada pelas muitas variantes conflitantes do autoritarismo.

É exatamente por isso que precisamos de uma Internacional Progressista — um movimento internacional de progressistas para conter a falsa oposição entre duas variedades do autoritarismo globalizado (o establishment liberal e a Internacional Nacionalista) que nos prendem em uma típica agenda de negócios que destrói as perspectivas de vida e desperdiça as oportunidades de frear a catástrofe climática.

A questão, então, é: o que uma Internacional Progressista faria? Com que propósito? E por quais meios?

Se a nossa Internacional Progressista simplesmente criar espaço para a discussão aberta nas praças das cidades (como fez o Occupy Wall Street há uma década) ou apenas buscar emular esforços como o Fórum Social Mundial, ela acabará novamente fracassando. Para ter sucesso, precisaremos de um plano de ação comum e de uma estratégia de campanha incomum, que incentivem os progressistas ao redor do mundo a implementarem esse plano. Por último, mas não menos importante, precisaremos da vontade compartilhada para visualizar uma realidade pós-capitalista.

Permitam-me destrinchar esses três pré-requisitos, um a um:

Pré-requisito 1: Um plano de ação progressista comum

Os fascistas e os banqueiros têm um programa comum. Se você conversar com um banqueiro no Chile ou na Suíça, com um apoiador de Trump nos Estados Unidos ou com um eleitor de Le Pen na França, você ouvirá a mesma narrativa. Os banqueiros dirão que a regulamentação e os controles de capital são prejudiciais ao progresso; que a engenharia financeira aumenta a eficiência com que o capital flui para a economia; que o setor privado é sempre melhor na prestação de serviços do que o setor público; que salários mínimos e sindicatos impedem o crescimento ou que as mudanças climáticas só podem ser enfrentadas pelo setor privado.

Por sua vez, a narrativa Internacional Nacionalista é a seguinte: cercas elétricas nas fronteiras são essenciais para preservar a soberania nacional; os imigrantes ameaçam os empregos locais e a coesão social; os muçulmanos, em particular, não podem ser integrados e precisam ser mantidos pra fora; os estrangeiros conspiram com as elites liberais locais para enfraquecer a nação; as mulheres devem ser incentivadas a criar seus filhos em casa; os direitos LGBTQI+ vêm em detrimento da moralidade básica e, por último, mas não menos importante: “Dê-nos o poder de agir de forma autoritária, que nós faremos com que o país volte a ser grandioso e você orgulhoso”.

Os progressistas também precisam de narrativas compartilhadas. Felizmente, sabemos o que deve ser feito: a geração de energia deve transitar maciçamente de combustíveis fósseis para fontes renováveis, principalmente eólica e solar; o transporte terrestre deve ser eletrificado, enquanto o transporte aéreo e o transporte marítimo devem recorrer a novos combustíveis com zero emissão de carbono (como o hidrogênio); a produção de carne deve diminuir substancialmente, com maior ênfase nas culturas orgânicas; e limites estritos ao crescimento físico desde toxinas até cimento são essenciais.

Também sabemos que tudo isso custará pelo menos 10% da receita global, ou quase 10 trilhões de dólares, anualmente – uma soma que pode ser facilmente mobilizada, desde que estejamos prontos para criar instituições para coordenar as várias ações e redistribuir as receitas entre o Norte e o Sul globais. Para conseguir isso, precisamos invocar o espírito do New Deal original de Franklin Roosevelt — uma política que teve sucesso porque inspirou pessoas que haviam perdido a esperança de que existissem maneiras de direcionar os recursos ociosos ao serviço público.

Nosso Green New Deal Internacional terá de utilizar instrumentos de crédito transnacionais e impostos sobre carbono — de modo que o dinheiro arrecadado com a taxação do petróleo possa ser devolvido aos cidadãos mais pobres que dependem de carros a gasolina, a fim de fortalecê-los de modo geral, permitindo, também, que possam comprar carros elétricos. Para aplicar esses recursos em investimentos ecológicos, é necessária uma nova Organização para a Cooperação Ambiental de Emergência, com o fim de reunir a inteligência da comunidade científica internacional em algo como um Projeto Manhattan verde — que vise, em vez do assassinato em massa, o fim da extinção.

Sendo ainda mais ambiciosos, nosso plano comum deveria incluir uma União de Compensação Monetária Internacional, do tipo sugerido por John Maynard Keynes durante a conferência de Bretton Woods em 1944, apresentando restrições bem elaboradas aos movimentos de capitais. Ao reequilibrar salários, comércio e finanças em escala global, tanto a migração involuntária quanto o desemprego involuntário diminuirão, encerrando assim o pânico moral sobre o direito humano de circular livremente pelo planeta.

Pré-requisito 2: Uma campanha incomum

Sem isso, nosso plano comum, o Green New Deal Internacional, permanecerá só no rascunho. E aqui vai uma ideia de campanha: precisamos identificar as empresas multinacionais que abusam dos trabalhadores localmente e atacá-las globalmente, utilizando a grande disparidade de custos para os participantes de, por exemplo, boicotar a Amazon por um dia e os custos dos mesmos boicotes para as empresas-alvo. Boicotes de consumidores globais não são novos, mas agora, usando o poder de megaempresas de plataforma, como a Amazon, contra elas próprias, podem ser muito mais eficazes. Especialmente, em uma segunda fase, eles seriam combinados com ações de greve local envolvendo os sindicatos mais importantes. Essa ação global em apoio aos trabalhadores ou comunidades locais tem um alcance imenso. Com comunicação e planejamento inteligentes, eles podem se tornar uma forma popular de as pessoas no mundo todo compartilharem o sentimento de estar ajudando a tornar o planeta um lugar mais livre e justo.

Claro, para que isso aconteça, nossa Internacional Progressista requer uma organização internacional ágil. O problema das organizações que são capazes de uma coordenação global é que elas, sorrateiramente, reproduzem em si burocracias, exclusão e jogos de poder. Como podemos evitar que o neoliberalismo e o nacionalismo autoritário destruam o mundo sem criar nossa própria variedade de autoritarismo? Reconheço que é mais difícil encontrar a resposta certa para essa pergunta sendo progressistas que rejeitamos as hierarquias, as burocracias e as invasões do paternalismo. Mas temos o dever de encontrá-la.

Pré-requisito 3: Uma visão compartilhada do pós-capitalismo


Consideremos o que aconteceu no dia 12 de agosto de 2020, quando foi divulgada a notícia de que a economia britânica havia sofrido a maior queda de sua história. A Bolsa de Valores de Londres deu um salto de mais de 2%! Nunca tinha acontecido nada comparável a isso. Fatos semelhantes ocorreram em Wall Street, nos Estados Unidos.

Efetivamente, quando a Covid-19 se deparou com a bolha gigantesca na qual governos e bancos centrais têm mantido corporações e instituições financeiras vivas como zumbis, desde 2008, os mercados financeiros finalmente se desvincularam da economia capitalista em seu redor.

O resultado destes desenvolvimentos notáveis é que o capitalismo já começou a evoluir para um tipo de feudalismo tecnologicamente avançado. O neoliberalismo é hoje o que o marxismo-leninismo costumava ser durante os anos 80 soviéticos: uma ideologia totalmente em desacordo mesmo com o regime que a invocou. Após o colapso do bloco soviético em 1991, e do capitalismo financeirizado em 2008, estamos numa nova fase, em que o capitalismo está morrendo e o socialismo se recusa a nascer.

Caso eu esteja certo, mesmo aqueles progressistas que ainda nutrem esperanças de reformar ou civilizar o capitalismo devem considerar a possibilidade de olharmos para além do capitalismo — ou, na verdade, de planejar uma civilização pós-capitalista. O problema é que, como meu grande amigo Slavoj Zizek apontou, a maioria das pessoas acha mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Para combater essa falha de nossa imaginação coletiva, em meu livro mais recente, intitulado  Another Now: Dispatches from an alternative present (“Outro Agora: despachos de um presente alternativo”), tento imaginar o que ocorreria se minha geração não tivesse perdido todos os momentos cruciais que a história nos apresentou. E se tivéssemos aproveitado o momento de 2008 para uma revolução pacífica de alta tecnologia, que tivesse nos levado a uma democracia de economia pós-capitalista? Como seria?

Haveria mercados para bens e serviços, já que a alternativa — um sistema de racionamento do tipo soviético, que confere poder arbitrário ao pior dos burocratas — é deprimente demais. Mas, para que um novo sistema seja à prova de crises, há um mercado que não podemos nos dar ao luxo de preservar: o mercado de trabalho. Por que? Porque, se que o tempo de trabalho é reduzido a um bem de aluguel, os mecanismos de mercado inexoravelmente empurram seu preço para baixo, enquanto mercantilizam todos os aspectos do trabalho (e, na era do Facebook, até do lazer). Quanto maior a capacidade do sistema para fazê-lo, menor o valor de troca de cada unidade de produção que ele gera, menor a taxa média de lucro e, em última análise, mais nos aproximamos de uma nova crise sistêmica.

Uma economia avançada pode funcionar sem mercados de trabalho? Claro que sim! Considere o princípio de a cada um funcionário, uma ação e um voto. Alterar a legislação societária de modo a transformar cada funcionário em um sócio igual (ainda que não igualmente remunerado), através da concessão de um voto não negociável de uma pessoa-uma ação-um voto, é tão inimaginável e radical hoje quanto o sufrágio universal parecia ser no século 19. Se, além dessa transformação fundamental da propriedade da empresa, os bancos centrais proporcionassem a todos os adultos uma conta bancária gratuita, passaríamos a ter uma economia de mercado pós-capitalista.

Com o fim dos mercados de ações, a alavancagem da dívida associada a fusões e aquisições também se tornaria uma coisa do passado. A Goldman Sachs e os mercados financeiros que oprimem a humanidade, subitamente deixariam de existir — sem nem ser preciso bani-los. Livres do poder corporativo, livres da indignidade imposta aos necessitados pelo estado de bem-estar social, da tirania dos lucros e do cabo de guerra entre lucros e salários, as pessoas e comunidades podem começar a imaginar novas maneiras de empregar seus talentos e criatividade.

Chegamos a uma bifurcação. O capitalismo está em crise profunda, embora sigamos a caminho da distopia. Somente uma Internacional Progressista poderá ajudar a humanidade a alterar o seu caminho.

LEIA TAMBÉM:

“A época histórica. Fim da história?”

“Bernie Sanders em Davos –propõe um novo movimento progressista mundial”

“Fadiga do Capitalismo”

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(*) Originalmente publicado em 10/06/2020, blog de Varoufakis, https://www.yanisvaroufakis.eu/2020/10/06/how-progressives-could-still-win-the-21st-century-the-correspondent/ Aqui se republica conforme tradução de Simone Paz em Outras Palavras, 09/10/2020.

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Piketty: "Que venha o socialismo!"

Em Junho de 2019, ao introduzir uma entrevista do Prof. Jean Ziegler publicada neste Blog dizíamos que “(...)Carecemos de uma alternativa consistente ao capitalismo, uma proposta elaborada democraticamente que desenhe uma outra sociedade, que garanta a preservação do planeta, a extinção da miséria e a redução das desigualdades.” Agora, em entrevista ao jornal francês “Le Point”, Thomas Piketty lança um novo livro “Que venha o socialismo” no qual retoma o desafio de desenhar uma alternativa democrática ao capitalismo.

Na apresentação da obra, o autor defende que não podemos nos contentar em sermos “contra” o capitalismo ou o neoliberalismo e que é preciso ser “a favor” de algo. Segundo ele, apesar das críticas existentes, socialismo continua sendo o termo mais adaptado para designar a idéia de um sistema econômico alternativo ao capitalismo. Abaixo a reportagem da “Carta Capital”* diz mais sobre tal proposta.

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Em novo livro, Piketty defende socialismo e diz: ‘desigualdade não gera crescimento’

Autor defende que não se deve somente ser contra o capitalismo ou neoliberalismo; é preciso ser a favor de algo.

A revista francesa Le Point desta semana traz uma entrevista com o economista francês Thomas Piketty. O autor do best seller “O Capital no Século XXI” acaba de lançar um livro no qual reúne suas crônicas econômicas publicadas nos últimos quatro anos.

Após a publicação em 2019 de “Capital e Ideologia”, um livro de mais de 1.200 páginas, e de um filme documentário que estreou este ano e cujo título retoma o nome seu best seller, Piketty lança este mês “Vivement le socialisme!”, título que poderíamos traduzir como “Que venha o socialismo!”.

O economista Thomas Piketty

Na apresentação da obra, o autor defende que não podemos nos contentar em sermos “contra” o capitalismo ou o neoliberalismo e que é preciso ser “a favor” de algo. Segundo ele, apesar das críticas existentes, socialismo continua sendo o termo mais adaptado para designar a idéia de um sistema econômico alternativo ao capitalismo.

Nas páginas da revista Le Point o economista francês mais conhecido da atualidade denuncia novamente o que classifica como uma narrativa da desigualdade, imposta ao mundo desde o início dos anos 1980 pelo que ele chama de “revolução de Ronald Reagan”.

Piketty usa o exemplo dos Estados Unidos, que entre 1930 e 1980 aplicaram impostos visando os mais ricos, que chegaram a 90%.

No entanto, relembra o francês, Reagan foi eleito em 1981 e implementou uma reforma fiscal que reduziu os impostos a uma média de 28%.

“Os Estados Unidos são um caso extremo”, diz Piketty. “Eles inventaram um imposto progressivo bastante elevado, como em nenhum outro lugar, mas logo em seguida, com o mesmo vigor, foram no sentido oposto.”

O economista explica que o objetivo da Casa Branca na época era incentivar o crescimento do país, mesmo que isso representasse um possível aumento das desigualdades.

Renda dos americanos caiu pela metade em 30 anos

Ao avaliar a estratégia de Reagan, Piketty argumenta que a ideia do presidente não era absurda, mas não deu certo. “Trinta anos mais tarde, constatamos que os americanos não alcançaram o aumento de renda esperado e, ao contrário, a taxa de crescimento da renda por habitante caiu pela metade entre 1990 e 2020.”

Além disso, os salários dos mais pobres estagnaram – um fenômeno que, segundo o francês, ajudaria a explicar a instabilidade política atual nos Estados Unidos.

“O sistema de desigualdade no qual se construiu a globalização desde os anos 1980 não apenas foi ineficaz para gerar crescimento, como também é cada vez mais insustentável do ponto de vista político. A classe média e os mais pobres não querem mais isso e votam contra a Europa e a globalização sempre que podem”, lança o economista, citando como exemplo o apoio, principalmente entre o eleitorado mais jovem, às propostas de Elizabeth Warren e Bernie Sanders para a criação de uma taxa anual de 8% para os bilionários nos Estados Unidos.

Se inspirar no que deu certo no século 20

Ainda usando o caso norte-americano, Piketty fala da questão da educação como outro parâmetro da desigualdade. Se o crescimento nos Estados Unidos caiu pela metade desde os anos 1980, isso se deve também à estagnação educativa, acusa o economista.

“O país ainda tem grandes universidades, ricas e no topo dos rankings, mas 70% dos americanos mais pobres não têm acesso a uma boa educação. Os Estados Unidos perderam seu avanço histórico nessa área”, aponta Piketty.

O francês utiliza o exemplo da economia norte-americana antes de Ronald Reagan para, como ele mesmo afirma, se basear no que teria dado certo no mundo durante o século 20.

“Eu mencionei o imposto progressivo dos Estados Unidos – que cobra mais dos que ganham mais – porque ele permitiu reduzir muito a desigualdade sem impedir o crescimento, pois a receita gerada – pelos encargos – serviu para investir na educação, na saúde e nas infraestruturas”, detalha o francês.

“A lição que podemos tirar de tudo isso é que correr em busca de cada vez mais desigualdade não é o que gera crescimento econômico”, resume Thomas Piketty nas páginas da revista Le Point.

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(*) Originalmente publicado em Carta Capital-Economia, 9 de outubro de 2020. 

Leia também: Fadiga do capitalismo.

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