O avanço da ultra-direita que
ameaça o mundo não é uma consequência da “fadiga da democracia” como dizem
alguns, e sim da fadiga do capitalismo, que não consegue sair da crise iniciada
em 2008 sem golpear a democracia, os direitos políticos e sociais conquistados
pela luta dos povos. Carecemos de uma alternativa consistente ao capitalismo,
uma proposta elaborada democraticamente que desenhe uma outra sociedade, que
garanta a preservação do planeta, a extinção da miséria e a redução das
desigualdades.
Na entrevista abaixo* o
professor suíço Jean Ziegler ilumina elementos para tal proposta e aponta nesta
direção.
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Ziegler: “as sociedades multinacionais privadas são as verdadeiras
donas do mundo”. Foto: Henning Kaiser / Picture Alliance / Getty Images
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A Esperança está na Sociedade Civil Planetária, segundo Jean Ziegler.
Descrentes da democracia
representativa, os cidadãos vivem hoje um “desespero silencioso e secreto”, num
mundo controlado pelas corporações globais. Para o sociólogo suíço Jean Ziegler
a esperança está na “sociedade civil planetária.”
1. Vemos em diferentes partes
do mundo uma reação popular contra partidos tradicionais e contra a política.
Também vemos a vitória de políticos como Orbán, Trump, Salvini e Bolsonaro. Por
qual motivo o senhor acredita que estamos vendo essa onda?
O mundo se tornou
incompreensível para o cidadão, que não mais consegue lê-lo. As 500 maiores
empresas multinacionais privadas — reunindo todos os setores, como bancos,
indústria e serviços — têm 52% do PIB do mundo. Elas monopolizam um poder
econômico-financeiro, ideológico e político que um imperador ou papa jamais
teve na história da humanidade. Elas escapam de todos os controles do Estado,
parlamentares, sindicais ou qualquer outro controle social. Têm apenas uma
estratégia: maximização dos lucros no tempo mais curto e não importa a qual
preço humano — ainda que sejam responsáveis, sem dúvida, por um processo de
invenção científica, eletrônica e tecnológica sem precedentes e de fato
extraordinário. Até o fim da União Soviética, um terço dos habitantes do mundo
vivia sob algum tipo de regime comunista. O capitalismo estava regionalmente
limitado. A partir de 1991, o capitalismo se espalhou por todo o planeta e
instaurou uma só instância reguladora: a mão invisível do mercado. Isso
produziu uma ideologia que alienou totalmente a consciência política dos homens
e que dá legitimidade a uma só instância de regulação: o neoliberalismo. Esse
sistema sustenta que não são os homens que fazem a história, mas os mercados, e
que as forças do mercado obedecem às leis da natureza.
2. E qual é a implicação disso
para o cidadão?
É dito ao homem que, por não
ser mais o sujeito da história, cabe a ele se adaptar ao mundo. De fato, entre
o fim da URSS, no começo dos anos 90, e os anos 2000, o PIB mundial dobrou. O
volume do comércio se multiplicou por três e o consumo de energia dobrou em
quatro anos. É um dinamismo formidável, mas isso tudo ocorreu de uma forma
concentrada e nas mãos de um número reduzido de pessoas. Se considerarmos a
fortuna pessoal dos 36 indivíduos mais ricos do mundo, segundo a Oxfam
( organização mundial contra a pobreza ), ela é igual à renda dos 4,7
bilhões de pessoas mais pobres da humanidade. Segundo um relatório da Organização
das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura sobre a insegurança alimentar,
a cada cinco segundos uma criança com menos de 10 anos morre de fome ou de suas
consequências imediatas no mundo. O mesmo relatório diz que, em seu atual
estado de desenvolvimento, a agricultura poderia alimentar normalmente 12
bilhões de seres humanos. Ou seja, quase o dobro da humanidade. Não há
fatalidade. A fome é feita pelas mãos do homem e pode ser eliminada pelos
homens. Uma criança que morre de fome é assassinada.
3. Isso é sustentável?
De forma alguma. A desigualdade
não é só moralmente vergonhosa. Também faz com que o estado social seja
esvaziado. Os mais ricos não pagam impostos como deveriam. Os paraísos fiscais,
o segredo bancário suíço — que continua —, isso tudo permite uma enorme
opacidade. Empresas são contratadas para criar estruturas que impedem que os
reais donos do dinheiro sejam encontrados em sociedades offshore. Os documentos
revelados pelo Panama Papers mostram muito bem isso. Portanto, podemos dizer
que as maiores fortunas do mundo e as maiores multinacionais pagam os impostos
que querem.
4. E qual a consequência disso?
O fato de que os mais ricos
pilham o país e não pagam impostos gera duas situações: esvazia a capacidade
social de resposta dos governos e impede a contribuição obrigatória dos países
mais ricos às organizações especializadas da ONU que lutam contra a miséria no
mundo. Portanto, esse sistema mata. No fundo, essa ditadura do mercado faz com
que os cidadãos entendam que não é o governo no qual eles votaram que tem o
poder de definir o destino. Isso cria uma insegurança completa e a desigualdade
não é controlável. Se não bastasse, o cidadão é informado que seu emprego passa
por um período profundo de flexibilização. Na França, há 9 milhões de
desempregados, e três quartos dos empregos no setor privado são contratos de
duração limitada. Outros milhões vivem de forma precária, como a maioria dos
aposentados.
5. Quem são, portanto, os
atores que influenciam o destino econômico de um país?
Vou dar um exemplo. As
sociedades multinacionais privadas são as verdadeiras donas do mundo. Nos
Estados Unidos, sob a administração Obama, foi criada uma lei que proibia o
acesso, ao mercado americano, de minerais que tivessem sido extraídos por
crianças, principalmente de minas no Congo. O cobalto, por exemplo, foi um
deles. Essa lei gerou a mobilização de empresas como Glencore, Rio Tinto e
tantas outras. Elas denunciaram que isso era inaceitável, por ser contra a
liberdade dos mercados. Uma das primeiras medidas que Donald Trump tomou ao
assumir o governo, em janeiro de 2017, foi a de acabar com essa lei. Como esse,
existem muitos outros exemplos em meu livro.
6. Em quais setores?
A agricultura é outro. Em 2011,
três semanas antes da reunião do G7 em Cannes, o então presidente da França,
Nicolas Sarkozy, foi à televisão e declarou que proporia que a especulação nas
bolsas e no mercado financeiro fosse proibida, principalmente sobre arroz,
milho, trigo e outros produtos agrícolas de base. Seria uma forma de lutar
contra o aumento de preços dos alimentos básicos, especialmente nos países mais
pobres. Faltando poucos dias para o G7, a França retirou sua proposta, depois
de ter sido pressionada pelas grandes empresas do setor, como Unilever, Nestlé
e outras.
7. O que isso significa para
uma democracia?
É um sistema que priva o
cidadão, mesmo numa democracia, de todo tipo de resposta efetiva à
precariedade, à desigualdade, que destrói o estado social. É nesse contexto que
se cria um desespero silencioso e secreto entre os cidadãos. E, como sempre
ocorreu na história e como ocorreu nos anos 30 na Alemanha, é nesse momento que
vêm os grupos de extrema-direita com sua estratégia de criar um bode
expiatório.
8. De que forma?
O discurso é simples. Eles
chegam e declaram ao cidadão: “Sim, sua situação é insuportável. Você tem
razão”. Não falam como outros, que tentam dar esperanças ou dizer que as coisas
vão melhorar. Mas, num segundo momento, o que fazem? Apresentam um bode
expiatório para essa crise. Na Europa, são os imigrantes e os refugiados. A
estratégia do bode expiatório tem funcionado. Basta ver os resultados do
partido Alternativa para a Alemanha. Hoje, ele tem o mesmo número de
representantes no parlamento que o tradicional SPD, o partido social-democrata
alemão, de políticos como Willy Brandt. O mesmo ocorreu na Itália, com Matteo
Salvini; na Hungria, com Viktor Orbán; na Holanda; na Áustria. Além disso, a
consciência coletiva está sendo cimentada por uma ideologia neoliberal de que o
homem não é mais o sujeito da história e que apenas pode se adaptar à situação
e às forças do mercado, que obedecem às leis naturais.
9. Tal cenário ameaça minar a
própria democracia?
Jean-Jacques Rousseau
publicou O contrato social , em 1762, que foi a Bíblia para a
Revolução Francesa. Ele descreveu a soberania popular e o fato de darmos voz a
alguém para nos representar. A delegação é um pilar do contrato social. Mas
esse contrato social, que é a fundação da República, está esgotado. A
democracia representativa está esgotada. O povo não acredita mais nela. O povo
vê que, ao votar em um deputado, não é ele que toma decisões, mas a ditadura
mundial das oligarquias do capital financeiro globalizado. Ao mesmo tempo, esse
povo não está disposto a abrir mão de seu poder nem de sua capacidade de
intervenção. No caso dos coletes amarelos, na França, um dos pontos principais
é o apelo por referendos populares como mecanismo. O que eles estão dizendo é:
o parlamento faz o que quer. Queremos ter o direito de propor leis, de votar
nelas.
10. E quais são as respostas
possíveis?
Retirar das consciências essa
placa de cimento que foi imposta. Liberar a consciência dos homens, que é, por
natureza, uma consciência de identidade. Se um homem, de qualquer classe social
ou de qualquer religião, vir diante dele uma criança martirizada, algo de si se
afunda. Ele se reconhece imediatamente nela. Somos a única criatura na Terra
com essa consciência da identidade. E é por isso que milhões de jovens na
Europa e na América do Norte se mobilizam em imensos cortejos, todas as
semanas, pela sobrevivência do planeta e contra o capitalismo. O que eles estão
dizendo a seus governos? Assim não podemos continuar. Façam algo contra essa
ordem canibal do mundo.
11. A questão climática pode
ser decisiva nesse contexto para modificar a forma de pensamento?
Pelo Acordo de Paris, cada um
dos 190 Estados que o assinaram assumiu obrigações precisas para limitar as
emissões de CO2 na atmosfera. Do total de CO2 emitido, 85% vem de energias
fósseis. O acordo pede que as cinco maiores empresas de petróleo reduzam 50% de
sua emissão até 2030 e deem parte dos lucros ao desenvolvimento de energia
alternativas, como solar, eólica e outras. Mas o que é que ocorreu desde 2015?
As cinco grandes empresas de petróleo do mundo aumentaram sua produção, em
média, em 18%. E financiaram energias alternativas somente em 5%. Os jovens
dizem: isso não funcionará.
12. Onde está a esperança?
Na sociedade civil
planetária. Na miríade de movimentos sociais — Greenpeace, Anistia
Internacional, movimento antirracista, de luta pela terra — que lutam contra a
ordem canibal do mundo. São entidades que não obedecem a um comitê central ou a
uma linha de partido e que funcionam por um só princípio: o imperativo
categórico. Kant dizia: “A desumanidade infligida a um outro humano destrói a
humanidade em mim”. Eu sou o outro e o outro sou eu. Essa consciência, em
termos políticos, cria uma prática de solidariedade entre os indivíduos e de
reciprocidade entre os povos. Mas essa sociedade é invisível. Não tem uma sede.
Ela é visível cinco dias por ano, no Fórum Social Mundial, organizado pelos
brasileiros em Porto Alegre. O escritor francês George Bernanos escreveu: “Deus
não tem mãos que não sejam as nossas”. Ou somos nós que mudaremos essa ordem
canibal do mundo, ou ninguém o fará.