Sérgio Abranches: ‘Bolsonaro
nasceu no extremo, sempre foi o que é hoje’
Para cientista político,
presidente não tem sido capaz de buscar a conciliação em um ambiente de crise
política iniciada em 2014.
Entrevista com Sérgio
Abranches, cientista político e sociólogo*
Em um cenário de crise
política, que não acabou com a eleição, o presidente Jair Bolsonaro não tem
sido capaz de buscar uma “conciliação” e dialogar com demais setores da
sociedade. A análise é do sociólogo e cientista político Sérgio Abranches autor
de, entre outros livros, Presidencialismo de Coalizão – Raízes e Evolução
do Modelo Político Brasileiro.
“Ele nasceu no extremo. Sempre foi o que é.
Está na direita, bem lá na ponta”, disse em entrevista ao Estado. Segundo
Abranches, a perda de popularidade de Bolsonaro é “preocupante”. “Qualquer
fagulha pode pegar fogo.” O sociólogo afirmou ainda que a polarização
minou a centro-esquerda e empurrou o PT, principal partido de oposição, para
uma esquerda de “posições que já deveria ter abandonado”, enquanto PSDB e
DEM foram puxados para a direita.
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Nota dos Editores: Desde a derrota nas eleições a
centro-esquerda tem tido dificuldade em se articular. Entendemos que esta dificuldade, tendo como origem principal o deslocamento de seu eleitorado para o voto
anti-petista, está desaparecendo, como vem mostrando as pesquisas de opinião.
Daqui que seus diferentes setores representados, dentre outros, por Ciro Gomes, Geraldo Alkmin,
FHC, Flavio Dino, Rodrigo Maia, bem como por organizações da mídia e da sociedade civil, de que são exemplos a Rede Globo, CNBB, OAB, etc - terão
condições de impor derrotas a Bolsonaro e até batê-lo já nas eleições de 2020.
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Abaixo, a entrevista
completa.
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Sérgio Abranches. Foto: Wilton Junior/Estadão |
Por
que, com apenas oito meses de um novo governo, já se fala em cenários para
2022?
O Brasil está em uma crise
política desde o início do segundo mandato de Dilma Rousseff. A crise não foi
superada. O impeachment agravou a crise e aguçou a polarização. Michel Temer
também não conseguiu superar a crise, que, depois, virou paralisia de governo
no momento em que ele precisou obter o veto para impedir que fosse processado
no Supremo. A polarização que continuou no governo Temer desaguou nas eleições
de 2018, que foram disruptivas, mas pouco construtivas.
Pesquisa
divulgada na segunda-feira mostrou que a desaprovação pessoal do
presidente Bolsonaro subiu de 28% para 53%. Isso é motivo de preocupação?
Há razões para ficar
preocupado. A crise não acabou com o fim da eleição. Continua sendo um governo
no contexto de uma crise política, que se agravou porque o presidente tem uma
atitude de confrontação. Ele não é capaz de um movimento de conciliação, de uma
abertura para setores da sociedade e do mundo. É muito fechado. Em geral,
quando o presidente perde rapidamente popularidade, temos um quadro de instabilidade
da própria governança. Isso pode produzir um tipo de conflito que não seria
positivo para o momento atual.
Temos a continuação da crise
econômica, uma situação social que não é boa, um contexto como o Cerrado na
seca. Qualquer fagulha pode pegar fogo. É um quadro preocupante.
E
o que, na sua avaliação, tem mitigado a crise?
É o desempenho do Congresso que
tem conseguido manter um ritmo de produção legislativa relevante. Isso cria um
espaço de normalidade política que ajuda. Imagine se estivéssemos em um
processo de paralisia do Legislativo, sem a aprovação da reforma da
Previdência, se nada passasse? Aí sim estaríamos em um quadro mais grave.
Mas se olharmos no detalhe, há
claramente uma tensão entre Executivo e Legislativo. O governo tem perdido
muitas decisões, toda hora há atritos. É uma relação ciclotímica por causa
dessa atitude mais acintosa do presidente, que decidiu ser um presidente
minoritário e não formar coalizão.
Há
uma discussão em torno da fusão de partidos, notadamente entre DEM, hoje
representado pela figura do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e pelo PSDB,
liderado pelo governador João Doria. Como avalia essa possibilidade?
É muito provável que haja esse
processo de fusão de partidos à medida que vamos nos aproximando de 2020, a não
ser que o Congresso revogue a proibição de coligações proporcionais, o que
seria muito ruim. O movimento natural é que aqueles com certa afinidade de
valores e comportamentos se fundem. O PSDB se moveu para a direita, é natural
que se funda com o DEM. São partidos de centro-direita. João Doria, Alexandre
Frota (expulso do PSL), as novas relações foram movendo o partido mais para a
direita, ainda que haja uma facção mais à esquerda, claramente minoritária, e
candidata a buscar outra legenda.
O
sr. entende que Bolsonaro foi empurrado para o extremo?
Não, ele nasceu no extremo.
Sempre foi o que é. Ele até andou tentando maquiar a posição dele, dizendo que
é de centro-direita, mas ele é de direita mesmo, lá na ponta.
E
quem vai ocupar o espaço do centro na política nacional?
O espaço que está ficando vazio
na política hoje é a centro-esquerda. O PT está na sua própria crise e não
consegue formular uma nova posição, mais contemporânea e alinhada com os
desafios do século 21. Há uma parte importante da centro-esquerda sem
representação. Com a polarização, o PT foi empurrado para uma esquerda de
posições que já deveria ter abandonado, retrógradas. Já outros partidos foram
sendo puxados para a direita.
Está vazia uma centro-esquerda
e até um centro mais moderado, com uma visão mais social, um posicionamento
contemporâneo, reformista, que tenha consciência da crise do emprego, dessa
nova economia, que entenda que a globalização é inevitável e que o mundo hoje é
mais cosmopolita.
Há uma demanda para lideranças
progressistas que pensem saídas para a frente, e não saídas para trás.
O
apresentador de TV Luciano Huck e o ex-governador do Espírito Santo Paulo
Hartung têm mostrado disposição de entrar no jogo político. Eles poderiam
ocupar esse espaço?
Conheço a trajetória do Paulo
Hartung. É um candidato claro a ser um protagonista na formação de um
pensamento social-democrata. Começou na prefeitura de Vitória com uma aliança
PSDB-PT pouco provável. Ele tem uma visão que permite isso. O Luciano Huck não
sei como pensa. Mas, claramente, Paulo Hartung é um político que tenta gravitar
e construir uma alternativa nesse perímetro entre a centro-esquerda e o
centro.
Onde
vê o ministro Sérgio Moro em um cenário eleitoral?
Politicamente, hoje não consigo
ver. Ele tomou uma decisão muito custosa, abandonou uma carreira de juiz
segura, estável, previsível, por um cargo muito incerto, sujeito a chuvas e
trovoadas. O Ministério da Justiça sempre foi um espaço de muito conflito. Todo
ministro é demissível a qualquer momento. É um cargo muito precário. Foi uma
escolha de muito risco e, para tomar esse risco, ele deve ter algum mecanismo
de proteção, um acordo para voltar para a magistratura em um cargo de nomeação,
ou mesmo uma perspectiva de entrar na vida política. O que vejo é que foi uma
troca do certo pelo incerto.
Como
as disputas locais de 2020 ajudarão a definir as nacionais?
As lógicas são muito
diferentes, são sistemas partidários distintos. Partidos importantes no Rio não
necessariamente têm força em capitais do Nordeste ou do Sul. A qualidade de
vida das cidades é muito próxima do cidadão, os temas locais predominam. Mas,
ciclicamente, tem havido momentos em que as eleições municipais coincidem com o
debate nacional.
O discurso se repete quando o
quadro está muito polarizado, em uma crise como a de agora. Se o discurso não
mudar, teremos um debate, sobretudo nas capitais, muito mais nacionalizado. Mas
entendo que a escolha do eleitor continuará sendo baseada em questões locais.
Como
vê o Supremo Tribunal Federal no cenário político, cujo presidente, ministro
Dias Toffoli, chegou a participar em maio de um “pacto” proposto
pelos chefes dos Três Poderes?
A ideia de que o presidente do
STF participe de reuniões políticas e se envolva numa espécie de pacto entre
Poderes é um desvirtuamento da função jurisdicional, sobretudo num momento de
muita judicialização da política. A Corte deveria se manter razoavelmente
impermeável a pressões políticas. Claro que não existe despolitização completa,
mas há um limite a partir do qual a politização se torna danosa para a isenção
do processo jurisdicional.
O STF é a última palavra, a
última instância. Houve um avanço excessivo de decisões autocráticas que minam
o espírito do colegiado, que é um mecanismo de freio e contrapeso
significativo. Ter a participação de juízes de gerações diferentes, nomeados
por fontes políticas diferentes e com visões doutrinárias diferentes dá um
certo equilíbrio ao processo. Quanto menos colegiado e quanto mais autocracia
houver, pior o papel do Supremo como um ponto de equilíbrio.
Como
avalia que a interferência do presidente da República na autonomia de
instituições como a Polícia Federal, a Receita Federal e o Coaf afeta a
qualidade da democracia brasileira?
É um risco importante. O que a
sustenta a democracia é um equilíbrio entre os Poderes. Esse desmonte das
instituições de fiscalização e controle coloca em xeque boa parte da estrutura
dos mecanismos de freios e contrapesos. A investida mais danosa é contra o
Ministério Público Federal.
O Executivo e o Legislativo são
muito permeáveis a pressões, então é preciso uma regulação independente para
coibir abusos. No momento em que vivemos, de sociedade e economia
digitalizadas mas política ainda analógica, é preciso começar a pensar em
freios e contrapesos para fazer a passagem do analógico para o digital. A
lavagem de dinheiro, hoje, é claramente digital.
Nas
últimas semanas o Brasil se viu em uma crise diplomática e no centro das
atenções com o aumento dos incêndios da Amazônia. Paralelamente, o presidente
deseja nomear o filho, deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para a
embaixada em Washington. Um levantamento do ‘Estado’ mostra que o Senado
resiste. Há risco de ele ser barrado?
Quando
a votação é secreta, sempre há risco. Para o bem e para o mal. O mais
importante é o fato de que essa polêmica ambiental incendiou as relações
diplomáticas do Brasil com a França e com a União Europeia. Já a questão da
nomeação de um filho para uma embaixada tão importante representa o desmonte da
diplomacia brasileira. A diplomacia funciona como um amortecedor das paixões
pessoais, colocando as razões de Estado em primeiro plano, que são permanentes.
O Brasil tem tradição de uma diplomacia profissional muito significativa, que
fez com que o País, sem grandes poderes econômicos e militares, sempre tivesse
protagonismo. Toda essa qualidade é colocada em xeque (com essa escolha).
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(*) Entrevista concedida a
Paulo Beraldo, publicada em “O Estado de São Paulo”, 01 de setembro de 2019.