Política é divergência, mas há
nela um vórtice que aproxima as pessoas umas das outras. Descalabros
governamentais fazem com que os pedaços que antes se combatiam entre si
percebam que o Mal está em outro local.
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Marco Aurélio Nogueira |
O escritor Antonio Prata
acertou a mão, em sua última e deliciosa crônica, quando escreveu que Bolsonaro vai unir o
Brasil: “acabou o fla-flu: agora é todo mundo contra o Olaria”.
Se me basear nos meus círculos
pessoais e nas redes que frequento, é isso mesmo que está acontecendo. Uma
vertente que por enquanto não se completou, mas que avança célere, na proporção
em que o presidente e seu governo batem cabeças e produzem fatos escabrosos.
Ainda há “resistentes” que respondem ao presidente na mesma moeda: xingou, eu
xingo de volta, que não levo desaforo prá casa. O sectarismo, de resto, não é
privilégio da direita ou dos mais desqualificados: estende-se por todo o campo
político e ideológico. A burrice, a ignorância, também costuma ser
equilibradamente distribuída. O mesmo pode ser dito do ressentimento, que é
típico do bolsonarismo mas também se manifesta em vários setores petistas ou de
esquerda, por exemplo.
Nessa nossa época de
postulações identitárias intermináveis, sempre haverá alimento para
divergências, vetos, atritos e contestações. O que se deve por à frente: a
combatividade feminista, o valor intrínseco da negritude, o orgulho gay ou a
questão democrática? Não seria lógico juntar todo mundo em torno de uma causa
que é maior e beneficia as mais diversas causas particulares? Não seria sensato
trocar o “programa máximo” da revolução por uma convergência
liberal-democrática que formate um espaço de luta comum que dê sustentabilidade
e apoio popular aos confrontos de ideias? Não é muito mais razoável tentar
conquistar com argumentos ponderados os que apoiam o governo do que adotar
diante deles a soberba e a ironia? Não é melhor analisar e discutir as
propostas do que ficar torpedeando estridentemente tudo o que é proposto pelo
governo?
Pode não ser fácil, mas tudo
isso é possível e, creio, a cada dia mais necessário.
Bolsonaro distila ódio porque
se ressente de ter sido visto, desde sempre, como um político de terceira
classe, um maluco-beleza que ninguém levava a sério. Acha-se um predestinado
que clama por reconhecimento. Seus seguidores mais fanáticos são ressentidos
porque perderam posições na sociedade, veem-se como injustiçados que se sentem
perseguidos pela esquerda e jamais tiveram um governo para chamar de seu.
Carregam no peito aquela desconfiança hostil a políticos e burocratas, que
julgam como se estivessem sempre a prejudicá-los. Desprezam a diversidade, o
pluralismo, a cultura e o conhecimento porque não conseguem escapar do círculo
de giz em que se meteram, trancam-se nele como que encantados. Nem sabem que
são reacionários, pois se veem como uma espécie de “povo escolhido”, os únicos
que conhecem a verdade verdadeira.
O ressentimento mistura
elementos que são em si mesmos explosivos: rancor, raiva, ódio, inveja,
sentimentos de humilhação e impotência. Ao promover a combinação diferenciada
desses elementos, o ressentimento introduz material tóxico na sociedade civil e
contamina muitos cidadãos, predispondo-os à “vingança” e convertendo-os em
adversários da liberdade política, da democracia, da igualdade. É por essa via
que o ressentimento prepara o terreno para a expansão da demagogia, do
autoritarismo, do preconceito.
O fato é que uma turba de gente
ressentida chegou ao governo, encarnado na figura de Bolsonaro, que a seu modo
promoveu uma ida ao poder de pessoas que viviam na periferia do poder, e não se
conformavam com isso. Os que foram eleitos pelo PSL são um bom exemplo: de um
dia para o outro foram catapultados para posições de força e influência, sem
saber bem como isso aconteceu e o que fazer a partir de agora.
O quadro é lastimável, de uma
rudeza e de uma grosseria desconhecidas entre nós. O sinal passou a piscar com
insistência, advertindo que o perigo já passou do limite razoável. O pessoal
que nos governa simplesmente não sabe como governar, e com isso o País
aprofunda sua agonia.
Aos poucos, até mesmo alguns de
seus eleitores começam a abandoná-lo, assustados com o despreparo flagrante.
O efeito colateral inevitável,
bem apontado pelo Prata, é que os pedaços que antes se combatiam uns aos outros
passaram a perceber que o Mal está em outro local, que há adversários mais
importantes a serem combatidos, que rixas doutrinárias para ver quem é mais de
esquerda ou tem a versão mais correta do socialismo precisam ser descartadas,
que não faz sentido ficar amarrado no mantra “Lula livre” ou debatendo se o
ex-presidente é ou não um perseguido, que dá perfeitamente para voltar a marcar
encontros com aqueles amigos de sempre que de repente começaram a pensar de
outra forma. Se, antes, temiam-se confraternizações plurais que poderiam
terminar em pancadaria, agora buscam-se adversários de ontem para trocar ideias
e traçar estratégias de ação.
Não é propriamente uma
pacificação ou a decretação de um armistício definitivo. Política é paixão e
sempre haverá nela terreno fértil para divergências. Toda unidade inclui uma
luta entre contrários ou entre pessoas que pensam de outra forma. Do mesmo
modo, porém, política é busca permanente de aliados, mais que de inimigos, e
nela há como que um vórtice aproximando as pessoas umas das outras.
Quem age politicamente em nome
da caça a inimigos (que podem ser muitos e variados), como faz o bolsonariano
típico, termina sempre por derivar para a paranoia da conspiração. Afoga-se em
sua própria saliva e acaba por promover um deserto por onde quer que caminhe.
Quando chega a governar, deixa como legado uma obra miserável, torta,
descompensada.
A crescente percepção de que
algo assim está em marcha no Brasil é o imã que está promovendo reencontros e
reaproximações. Se conseguirmos aproveitar a tendência e melhorarmos a
articulação política em termos nacionais, reunindo classes, setores sociais e
nichos identitários diversos em nome da democracia, da liberdade, da
tolerância, da ciência, da educação e de tudo o que nos faz filhos da
civilização, estaremos dando um passo de gigante que por certo atenuará os
estragos maléficos que estão hoje saltando aos olhos.
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