O Encontro Que Não Houve

Lincoln Penna*

Maio - 2023**

O presidente Lula não se reuniu com o presidente Zelensky, representante da OTAN na Ucrânia. A razão está na pauta principal dos promotores da reunião, que visavam isolar a Rússia, o que tornava o diálogo de Lula com Zelensky impertinente. A nova composição desse novo Grupo 7, agora engordado por mais dois integrantes desde o início das hostilidades entre Rússia e Ucrânia, Charles Michel (OTAN) e a senhora Ursula von der Leyen, atual presidente da Comissão Europeia, procurou atrair o apoio dos países do Sul, convidados para essa reunião, Brasil e Índia, entre outros. A Rússia foi afastada do grupo original do então G 8 depois da ocupação do território ucraniano.

Fez bem Lula em não se curvar diante das insinuantes investidas dos EUA e da União Europeia para que o Brasil se filiasse à política de apoio incondicional à Ucrânia. O discurso do presidente brasileiro na ocasião foi propositivo, deixando claro a necessidade de se renovar e ampliar a ONU, que ainda mantém o superado direito ao veto por parte de cinco países que formam o Conselho de Segurança Permanente (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China). E mantém um órgão como a OTAN, espólio da Guerra Fria, cujo objetivo é o de não desativar o complexo industrial e militar organizado desde os primeiros desdobramentos do pós-guerra, com finalidades beligerantes para azeitar essa máquina de guerra.

Lincoln Penna

Os compromissos assumidos com a Federação Russa logo após o fim da União Soviética para desativar esse complexo industrial e militar não aconteceram apesar das promessas dos governantes norte-americanos. Ao contrário, incorporou antigos estados que compunham a URSS, de modo a cercar a Rússia e já com vistas ao acelerado e bem-sucedido crescimento da China, atual desafiante da liderança global do Ocidente capitaneado pelos EUA.

Caso acontecesse o encontro que não houve, estaria colocada a questão mais crucial que parece estar sendo escamoteada: afinal, quem deseja a continuidade do conflito sob a alegação de que o país agredido necessita de armamentos para defender-se senão os falcoes que alimentam o orçamento de guerra do país que detém o maior arsenal militar ao sustentar a OTAN, cujo propósito hoje em dia é nenhum, salvo o de manter essa máquina de guerra e evitar a prevalência do multilateralismo nas relações internacionais.

Do outro lado, Lula sustenta a paz sem condições prévias, muito embora tenha dado declarações precipitadas anteriormente dissonantes para quem deseja participar como mediador das hostilidades. Porém, acertou em tempo suas falas posteriores e continua a ser um protagonista importante da parte dos países do Sul em face da prepotência do Norte, centro ainda hegemônico do grande capital internacional.

O que não foi dito por Lula, por uma questão de habilidade diplomática a ele provavelmente chegada, é que esse conflito bélico de fundo estratégico ocorre no âmbito das crises e contradições do capitalismo. Ao contrário dos tempos da bipolaridade da Guerra Fria esta nova versão põe em choque interesses geopolíticos mediados por interesses estratégicos e financiados não assumidamente por parte de grandes grupos ligados às operações armamentistas de grosso calibre.

Não podemos nos iludir que a Federação Rússia de Putin não é a mesma coisa da União Soviética de tempos imemoriais. De qualquer maneira em toda refrega há um lado. No caso dos países que compõem o BRICS este lado torce pela pacificação e fortalecimento dos estados nacionais oriundos tempos atrás do chamado mundo dos emergentes, presentemente fortalecidos pela liderança ostensiva da China a apostar na superação dos problemas ainda decorrentes do colonialismo e do neocolonialismo que infelicitou essas nações, inclusive o Brasil.

Pena que a cobertura do noticiário da mídia nacional insista em dar holofotes a Zelensky e a atribuir o desencontro como se fosse uma falta de oportunidade para Lula ganhar projeção, que a rigor não precisa. O simples fato de ter colocado prioridade às questões sociais (fome) e ambientais (preservação de florestas e situação climática), o tornou diferenciado numa cúpula azeitada para tentar isolar a Rússia como o mal a ser combatido, logo agora que estamos tendo o ressurgimento do fascismo em várias partes do mundo. Mal que não consta nas pautas do jornalismo bem-comportado.

LEIA TAMBÉM: Guerra na Ucrânia

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(*)Lincoln Penna, é historiador, docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ

(**) Republicado conforme o original em Facebook, 23/05/2023, <iframe src="https://www.facebook.com/plugins/post.php?href=https%3A%2F%2Fweb.facebook.com%2Fpermalink.php%3Fstory_fbid%3Dpfbid0569E498CDHr8r4zLWriAehM51oWAQvZjTNaMjc6aWGS7ZcqfBr24bHntonFqG4RDl%26id%3D100082012787834&show_text=true&width=500" width="500" height="291" style="border:none;overflow:hidden" scrolling="no" frameborder="0" allowfullscreen="true" allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; picture-in-picture; web-share"></iframe>

Para os petistas, o governo Lula está em disputa

O artigo abaixo levanta questões importantes, mas, por tentar resumir em poucas páginas acontecimentos de décadas, tropeça em algumas frases como tachar Lênin de jacobino. Alguém que escreveu "O esquerdismo, doença infantil do comunismo" ou lutou pela NEP, dentre outros escritos e posições, jamais poderia ser tachado de jacobino.

Segue o artigo

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­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­Para os petistas, o governo Lula está em disputa

Luiz Carlos Azedo*

Abril/2023

O choque se dá entre a bancada do PT na Câmara e a equipe econômica, liderada por três ex-candidatos à Presidência: Haddad, Alckmin e Simone Tebet

O jacobinismo é uma invenção dos seus adversários. Seu significado restrito refere-se ao período entre 1789 e 1799 da Revolução Francesa, quando os mais ardorosos integrantes do Terceiro Estado, na Assembleia Nacional, formaram o chamado “Club Breton”, que viria se transformar na “Societè des amis de la Constituicion”. Como se reuniam no convento dos dominicanos (ou “jacobins”) da rue Saint-Honoré, em Paris, passaram a ser chamados pejorativamente de jacobinos. Com o tempo, os jacobinos se tornaram paradigma de revolucionários, com uma missão nacional-patriótica, ética e social.

Luiz Carlos Azedo
Tornou-se um conceito político reconhecido, que envolve a estrutura partidária e suas relações com a nação, o Estado e a sociedade. Seu radicalismo político e social, principalmente no exercício do poder, coloca na ordem do dia a questão democracia versus ditadura. E nos remete à velha relação entre a ética da responsabilidade e a das convicções, ou seja, entre os fins e os meios usados na luta política. Ironicamente, após a Comuna de Paris (1871), Karl Marx questionaria o caráter revolucionário universal do jacobinismo, restringindo-o ao papel histórico que desempenhou ao completar a revolução burguesa, porém, sem impedir a restauração de Napoleão.

Na Revolução Russa de 1917, o jacobinismo foi resgatado pelo líder comunista Vladimir Lênin, em contraposição à social-democracia da II Internacional. Virou paradigma de chegada ao poder, como na China, em 1949, e em Cuba, em 1959. Confundir a tomada do poder com a revolução passou a ser o grande objetivo da esquerda revolucionária. A fórmula básica era: a política começa onde estão as massas. Para ser bem-sucedida, a insurreição deve se apoiar no proletariado; para inspirá-lo, sua vanguarda é um partido revolucionário, cujos objetivos e interesses devem estar em sintonia com o povo. Uma fórmula supostamente mágica.

No Brasil, houve dois momentos marcantes de jacobinismo. O levante comunista de 1935, liderado por Luiz Carlos Prestes, que nunca teve a menor chance dar certo, mas estava em sintonia com a política insurrecional da chamada III Internacional; e a luta armada contra o regime militar, na década de 1970, liderada pelo líder comunista Carlos Marighella, que também não teve a menor possibilidade de êxito. Desde a crise de 1964, uma parcela da esquerda acreditava que a tomada do poder tornaria o socialismo inexorável. Não foi o que aconteceu, apesar da grande mobilização popular na campanha das Diretas, Já. A derrocada dos militares veio mesmo foi com a eleição de Tancredo Neves, um político moderado, no colégio eleitoral.

O PT é o último grande partido operário criado no século XX, quando a grande indústria taylor-fordista já estava superada pelo toyotismo e os sistemas de produção flexíveis estruturados em cadeias globais de valor. As lideranças de esquerda que participaram da luta armada, que estiveram presas ou no exílio, vertebraram sua organização, sob a liderança do presidente Luiz Inácio lula da Silva, então líder sindical metalúrgico. As outras vertentes são a sindical, cuja influência já não é a mesma, e setores ligados às comunidades eclesiais de base, muito reprimidas pelos papas João Paulo II e Bento XVI. Com o tempo, parlamentares, prefeitos e a burocracia passaram a ter muito mais peso do que as bases sindicais e populares, mas não a ponto de suplantar o prestígio eleitoral de Lula.

Coalizão ampla

O êxito político do PT é invejável. Por cinco vezes, três com Lula e duas com a ex-presidente Dilma Rousseff, venceu as eleições presidenciais. Desde 2002, é a principal força política democrática do país, o que demonstrou durante o governo de Jair Bolsonaro, quando comeu o pão que o diabo amassou. Com a chegada do PT ao poder, as forças com as quais emulava no campo da esquerda, principalmente o PSDB, foram sendo abduzidas pelo transformismo. Durante o governo Bolsonaro, as bases eleitorais da centro-esquerda derivaram à direita, atraídas por narrativas reacionárias. A justa crítica ao jacobinismo petista foi substituída pelo anticomunismo que põe no mesmo balaio até mesmo os liberais.

No primeiro turno das eleições passadas, a política de frente de esquerda deu ao PT a hegemonia no campo da oposição ao governo Bolsonaro, mas não a vitória. Foi preciso ampliar as alianças ao centro, principalmente com atual ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB), que também havia disputado primeiro turno, para derrotar Jair Bolsonaro (PL), por estreita margem. Mais ainda: para Lula tomar posse e articular a base governista no Congresso. Por isso, a formação de um governo de ampla coalizão democrática decorre mais da correlação de forças do que do programa eleitoral de Lula. Esse é o busílis.

Para a cúpula petista, o governo Lula está em disputa, entre seu principal partido, o PT, e seus aliados de centro-esquerda. O choque principal se dá entre a bancada do PT na Câmara e a equipe econômica do governo, liderada por três ex-candidatos a presidente da República: Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSB) e Simone Tebet (MDB). Essa disputa pode paralisar o governo e implodir suas alianças. Os setores radicais do PT precisam se convencer de que o governo Lula não é jacobino. A agenda do governo, para ser bem-sucedida, deve ser focada no programa que unifica a coalizão e não numa disputa esquerda versus direita, que está afastando lideranças que desejariam apoiar o governo, mas o próprio presidente Lula, sob pressão de seu partido, não deixa.

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(*) Publicado originalmente em https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/para-os-petistas-o-governo-lula-esta-em-disputa/ 30/04/2023


 

Memória: Partido Comunista no Brasil, conhecido como Partidão, completaria 101 anos

Luiz Carlos Azedo*

Março - 2023

Ao ensejo dos 101 anos da fundação do Partido Comunista no Brasil – PCB, Luiz Carlos Azedo apresenta-nos um bom resumo dos momentos críticos, de mudanças, ao longo da história daquele partido. Azedo agrega também informações importantes sobre a evolução do núcleo político com origem no PCB que veio a resultar no atual partido Cidadania.

Contudo, ao pretender dar seguimento à história do PCB mediante o  eixo das organizações políticas que trouxeram ao Cidadania, Azedo deixa pelo caminho parte importante da herança do PCB na vida brasileira.

Trazemos assim alguns reparos.

De fato os caminhos mudam conforme as circunstâncias históricas. O importante é não perder de vista a perspectiva do socialismo. Em seu texto, sempre muito bem escrito, Azedo se equivoca ao dizer que o que já foi o PCB é hoje o Cidadania. Não é não. E o que foi o PCB continua, de distintas maneiras, sendo o PCB, apesar das frustradas tentativas de o liquidarem. O próprio texto afirma isto ao revelar os planos de Roberto Freire (que ilustra o texto, quando quem deveria ilustrar seria a foto de um comunista) de levar o Cidadania mais à direita ainda, com uma hipotética união com PSDB, MDB e Podemos. Não há em nenhum desses partidos qualquer traço de luta pelo socialismo, seja por que caminho for. E ser revolucionário não quer dizer que os atuais comunistas no mundo ou no Brasil precisam ou devem repetir a tomada de algum palácio de inverno.

Segue o artigo de Azedo.

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Memória: Partido Comunista no Brasil, conhecido como Partidão, completaria 101 anos**


O futuro proposto por Roberto Freire para o que já foi o Partido Comunista Brasileiro — hoje Cidadania — é uma grande federação de centro

O velho Partidão completaria, ontem [25/03/2023], 101 anos de fundação. Surgiu em março de 1922, com o nome de Partido Comunista do Brasil (PCB), alterando o nome para Partido Comunista Brasileiro, sob o comando de Luiz Carlos Prestes, em 1961, e Partido Popular Socialista (PPS), em 1992, sob liderança de Roberto Freire, que promoveu nova metamorfose partidária ao mudar o nome da legenda para Cidadania. Agora, Freire quer conduzir seu partido, hoje federado com o PSDB, para uma federação ainda mais ampla, com o Podemos e, talvez, o MDB. Como nas mudanças anteriores, a proposta enfrenta resistências, mas, dessa vez, da maioria da Executiva e do Diretório Nacional.

Luiz Carlos Azedo
Às vésperas do aniversário da legenda, Freire convocou uma reunião dos presidentes regionais do Cidadania, ad referendum das instâncias dirigentes, para debater a proposta. “Aproveito para avisar aos companheiros e companheiras que acabei de convidar os presidentes dos nossos diretórios estaduais para conversarmos sobre as perspectivas políticas de uma possível Federação PSDB/Cidadania com o Podemos e o MDB. Não haverá encaminhamento nem decisão alguma. Esse comunicado seria desnecessário, mas é imprescindível, infelizmente, neste momento por nós vivido, para evitar ruídos e mal-entendidos”, justificou.

A proposta de ampliação da federação com o Podemos havia sido rechaçada pela maioria da Executiva do Cidadania, mas seu diretório nacional não chegou a se manifestar sobre o assunto, em reunião convocada para definir a posição do partido em relação ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Por 65 votos a 35, a legenda decidiu apoiar o governo sem impor condições, uma derrota que Freire assimilou parcialmente, ao comunicar a decisão oficialmente ao próprio presidente da República. A bancada federal, porém, em nota divulgada na mesma ocasião, declarou independência em relação ao governo.

Com cinco deputados — Alex Manente (SP), Arnaldo Jardim (SP), Carmem Zanoto (SC), Any Ortiz (RS) e Amom Mandel (AM) —, o Cidadania sobreviveu à cláusula de barreira, em 2022, por causa da federação com o PSDB, aprovada em congresso por apenas um voto de diferença. Mas essa escolha também foi traumática. As alternativas eram uma chapa própria, encabeçada pelo senador Alessandro Vieira, que deixou o partido, ou uma federação com o PDT, que havia lançado Ciro Gomes. Em consequência da decisão, o governador da Paraíba, João Azevedo, candidato à reeleição, e a senadora Leila Barros, que era candidata ao governo do Distrito Federal, também deixaram a legenda.

A federação com o PSDB foi uma faca de dois gumes. A deputada Paula Belmonte (DF), que pretendia concorrer ao Senado, ficou sem legenda e se viu obrigada a disputar uma vaga na Câmara Distrital. O ex-governador Cristovam Buarque desistiu de disputar uma cadeira na Câmara pelo mesmo motivo. Os deputados Rubens Bueno (PR) e Daniel Coelho (PE), vice-presidentes da legenda, não se reelegeram. O deputado Marcos Marrafon (que era suplente, foi diplomado, mas não conseguiu tomar posse) também. O ex-deputado Arnaldo Jordy (PA) não conseguiu voltar à Câmara. Bem-sucedido no empenho de Freire para viabilizar a candidatura de Simone Tebet (MDB) à Presidência, o partido acabou ensanduichado pela polarização entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente Lula, na aba do chapéu do PSDB, que resolveu não ter candidato próprio.

Na verdade, a mudança do nome da legenda de PPS para Cidadania foi feita sob medida para a candidatura do apresentador de televisão Luciano Huck, acalentada por Freire como uma alternativa nova para o país, capaz de incorporar à legenda os movimentos cívicos que surgiram durante o governo Dilma Rousseff e ganharam força na campanha do impeachment. A idéia era constituir uma nova formação política, organizada em rede, que unisse ex-comunistas, socialistas, social-democratas, liberais progressistas e democratas radicais. Huck renovou seu contrato com a TV Globo, a militância dos movimentos cívicos foi abduzida pelo bolsonarismo e a maioria dos seus quadros, que permaneceram no Cidadania nas eleições municipais de 2020, não teve bom desempenho eleitoral. O projeto original do Cidadania de se tornar um partido social-liberal robusto não avançou.

Há 31 anos na presidência do Cidadania, aos 80 anos de idade, Roberto Freire é o mais longevo líder partidário do país, mas ainda não ultrapassou a marca do legendário dirigente comunista Luiz Carlos Prestes, que comandou o PCB de 1945 a 1980. Eleito para o Comitê Central em 1982, no 7º Congresso, lidera uma geração de dirigentes que hoje discorda da opção transformista que vem dando à legenda.

O caminho proposto por Freire é a formação de uma grande federação de centro, liderada pelo velho MDB, mas o espaço para isso está congestionado pela existência do União Brasil e do PSD. A maioria dos dirigentes do Cidadania prefere apoiar o governo Lula, administrar os conflitos com o PSDB nas eleições municipais e, somente depois, decidir o caminho a seguir.

Mudanças anteriores no antigo PCB já provocaram rachas históricos, dos quais surgiram os atuais Partido Comunista do Brasil (PCdoB), em 1962, encabeçado por João Amazonas, e o novo Partido Comunista Brasileiro (PCB), liderado por Ivan Pinheiro, que conseguiu seu registro em 1996. Em 1967, uma das alas que optara pela luta armada, liderada por Apolônio de Carvalho e Mario Alves, criou o PCBR (R de revolucionário), mas a organização foi dizimada pelo regime militar.

Legado e personagens do velho PCB

O emblemático PCB não surgiu de uma corrente socialista ou social-democrata, mas de um grupo de sindicalistas e intelectuais anarquistas que se encantou com o marxismo. Por isso, o partido demorou a ser aceito pela III Internacional Socialista. Por causa dessa singularidade, sofreu também sucessivas intervenções do Cominter — órgão controlado pelo ditador soviético Joseph Stálin, que substituiu a III Internacional — que resultaram no afastamento de alguns dirigentes históricos, entre os quais o próprio Astrojildo Pereira, Heitor Ferreira Lima e Fernando de Lacerda. Essa tensão entre os soviéticos e o PCB foi permanente, mas não impediu seu alinhamento automático quando houve a invasão na antiga Tchecoslováquia, em 1968, nem permitiu que a corrente eurocomunista liderada por Armênio Guedes, Carlos Nelson Coutinho e Luiz Werneck Viana se mantivesse na legenda, na década de 1980.

Em 1982, o poeta Ferreira Gullar resumiu num poema o lugar histórico do antigo Partidão: “Eles eram apenas nove: o jornalista/ Astrojildo, o contador Cordeiro,/o gráfico Pimenta, o sapateiro José Elias, o vassoureiro/Luís Peres, os alfaiates Cendon e Barbosa/ o ferroviário Hermogênio/ e ainda o barbeiro Nequete/ que citava Lênin a três por dois/ Em todo o país,/ eles não eram mais de setenta/ Sabiam pouco de marxismo/ mas tinham sede de justiça/ e estavam dispostos a lutar por ela…” Segundo Gullar, “o PCB não se tornou o maior partido do Ocidente/ nem mesmo do Brasil/ Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis/ tem que falar dele/ Ou estará mentindo”.

Desde os debates sobre agrarismo e industrialização, nas décadas de 1920 e 1930, protagonizados por Astrojildo Pereira, Otávio Brandão e Heitor Ferreira Lima, o desenvolvimento nacional esteve no centro das preocupações do PCB. O debate sobre a superação do atraso econômico por uma via democrática, porém, esbarrou nos dogmas comunistas e confrontou o sonho de uma revolução socialista. Por isso, ao longo dos anos, intelectuais, dirigentes e militantes renovadores deixaram o PCB.

Os erros de Luiz Carlos Prestes

Ex-capitão do Exército, à frente da coluna rebelde que levou seu nome, Luís Carlos Prestes percorreu o Brasil entre 1925 e 1927, combatendo as tropas dos governos Artur Bernardes e Washington Luís. Foram 25 mil quilômetros de marcha. Procurado por Astrojildo Pereira, o fundador do PCB, na Bolívia, onde a coluna havia se internado, para evitar a rendição, Prestes aderiu ao comunismo.

Em novembro 1935, Prestes liderou um levante militar sem chance de dar certo por falta de apoio popular e militar, que se tornaria o mito fundador da “ameaça comunista” no Brasil. Por causa da chamada “Intentona Comunista”, ficou preso por nove anos; sua esposa Olga Benário, uma judia alemã, foi deportada e executada em um campo de concentração nazista, no qual dera à luz a historiadora Anita Prestes, sua filha.

Nada disso impediu que Prestes apoiasse o governo Vargas para que o Brasil entrasse na II Guerra Mundial contra o nazifascismo. Libertado em 1945, foi eleito o senador mais votado do país. Seu mandato, porém, foi cassado, juntamente com o registro da legenda, em 1947, em razão da guerra fria. O PCB voltou à ilegalidade, da qual somente sairia em 1985.

Em 1964, Prestes e o PCB serviram de pretexto para o golpe militar. Uma declaração infeliz sobre a participação dos comunistas no governo João Goulart e o fato de estar articulando a reeleição de Jango foram explorados pelos generais que tomaram o poder. O PCB estava isolado politicamente, embora fosse hegemônico na esquerda brasileira, cuja atuação política viria a influenciar até hoje, a partir de uma idéia-força: a da revolução brasileira.

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(*) Jornalista, colunista do Correio Brasilience.

(**) Publicado originalmente no Correio Brasilience, em 26/03/2023.


Quando os “juros altos” se tornam falsa questão.

Alfredo Maciel da Silveira*

Fevereiro - 2023

É inegável a alta relevância do atual debate brasileiro sobre nossas altíssimas taxas de juros. Principalmente, haverá de ajudar-nos a localizar suas causas estruturais, ainda obscuras para muitos de nós. E diante da persistente inflação que ameaça a estabilidade macroeconômica, enseja novas questões quanto ao imperativo do crescimento econômico acelerado e sustentado. Para muitos, os da chamada “ortodoxia”, não há dilema, não haveria um “nó górdio” a romper. O crescimento econômico viria espontaneamente das forças do mercado (quanto crescer e desde quando, não se sabe...), uma vez garantido o clima de confiança dos agentes econômicos nas gestões fiscal e monetária! Este é o “Brasil Maravilha”, das melhores práticas internacionalmente comprovadas, embasadas nas mais laureadas autoridades acadêmicas...

Mas...

De qual economia, de qual país, estamos mesmo tratando?

Analistas “ortodoxos” não se cansam de nos recordar dos tempos “dilmáticos” recentes, da conjugação de baixa forçada dos juros básicos da economia com aumento do gasto público em despesas correntes, previdenciárias (em cascata ao aumento nominal do salário mínimo) e transferências sociais, com estagnação econômica e alta inflação, fenômeno contemporâneo conhecido como “estagflação”. Um papel central da explicação vem do fato de as expectativas dos “agentes” econômicos, especialmente os do mercado financeiro, anteciparem a alta da inflação que em sequencia se autoconfirma.

Faltam dizer que erros clamorosos de política econômica tem sido reiteradamente cometidos no Brasil. Agora mesmo, volta essa gritaria de que juros baixos estimularão a recuperação econômica, como se algum automatismo houvesse entre uma coisa e outra.

Mais importante. Em nome de um “círculo virtuoso”, em cujo dinamismo acreditaram, entre consumo de bens duráveis e investimento industrial privado, governos do PT levaram à absurda desoneração de impostos dos produtos de “linha branca”, televisores de tela plana, etc, que “decoraram” as moradias dos pobres e reduziram a arrecadação fiscal.

E o investimento público? Ah, este já tendia a zero antes da chegada do “Teto de Gastos” do Meirelles. Superestimaram o dinamismo do investimento privado induzido pelas políticas sociais. Subestimaram grosseiramente a necessidade da sustentação exógena do crescimento, através do gasto autônomo, público, na formação de capital.  Claro que, sob a batuta de Guedes, o investimento público finalmente “zerou”!

A nossa verdadeira questão é bem keynesiana. O Estado precisa criar demanda efetiva, mediante investimento público. Não se trata apenas de estímulos à recuperação cíclica, à volta do “pleno emprego”. O Estado coordena, induz, arrasta, o investimento privado. Através do planejamento de médio e longo prazo “coordena” as expectativas dos agentes da economia real, dos setores realmente produtivos.

Mas Keynes, pra sua época, falava na “eutanásia do rentista”. Foi de uma época em que a baixa dos juros básicos da economia canalizaria os investimentos privados dos rentistas para as oportunidades e riscos da economia real.

Mas vamos à questão. Qual país?

Não cabe aqui retomar as mudanças estruturais do capitalismo global desde então, que flagrantemente consagraram o rentismo. Mas o Brasil é seguramente um “bicho estranho”, à luz dos manuais de macroeconomia. Seria “um país rico, ao mesmo tempo pobre”, como acaba de reconhecer o André Lara Resende, no “Canal Livre”?

A propósito, percorram a Av das Américas no Rio de Janeiro. Vejam os carrões importados, na rua e nas agencias revendedoras. Em seguida, vão ao “Google Mapas”, e observem as dezenas de favelinhas nos interstícios dos condomínios, invisíveis desde a avenida principal. Aqui estamos falando de um Brasil que mira o Hemisfério Norte, aculturado e integrado às economias centrais do capitalismo, e “de costas para um outro Brasil” que mora ao lado. Ainda no Rio de Janeiro, que conheço melhor, já se “institucionalizaram” os “camelódromos” nos pontos de embarque-desembarque do transporte de massas ao longo dos subúrbios.

E nossa amada Brasília, a “Ilha da Fantasia”, com suas “cidades satélites”?...

O mundo mudou muito, e o Brasil mais ainda. Já foi chamado "Belíndia" (Bacha) e "Ornitorrinco" (Chico de Oliveira). E com a revolução tecnológica em curso neste século XXI, reitera-se e aprofunda-se, sob as forças do mercado, nossa “heterogeneidade estrutural” (Anibal Pinto).

Há milhões de empreendedores, empresas pequenas e médias, pessoas físicas e jurídicas, que estão fora do mercado de crédito! Eu vejo aqui mesmo em meu bairro. A política monetária não alcança estes agentes. A retomada do crescimento que alcance tais agentes nada tem a ver com aquelas taxas, a de juros básicos ou da dívida pública!

O mercado de crédito ainda é ultra concentrado. A incipiente bancarização recente da população pobre, mediante bancos digitais, facilita transações mas não expande o crédito.

E o empresário de bairro se autofinancia.  Capital de giro? Crédito rotativo? Tudo capital próprio ou financiamento de fornecedores a juros realistas, pelo interesse mútuo das partes. E muita informalidade. Compras com nota fiscal? O que é isso? E vendas a crédito dos grandes magazines populares já embutem juros astronômicos que compensam a inadimplência, o calote, praticamente certo. É comum o pobre fazer uso do cartão de crédito daquele parente ou amigo ainda “limpo” no SERASA, por exemplo. Como entrar na favela, com mandado de recuperação judicial daquela geladeira que não foi paga? E a concessionária de energia, a Light, por exemplo, que não dá conta dos “gatos”? Quanto aos Bancos, cobram juros escorchantes já prevendo negociarem inadimplências.

E quanto aos juros básicos do BC?

Não estou inteiramente convencido quanto ao instrumento da Selic ser eficaz sobre a inflação, com a economia estagnada. Qual a sensibilidade da inflação aos movimentos da Selic? Choques de oferta, sob uma economia estagnada ou em desocupação, criam ondas de inflação, mudanças de preços relativos, que se atenuariam no tempo. Mas não sou peremptório quanto a isso. Altas de preços por choques de oferta tenderiam mesmo a se dissipar como uma onda?  André Lara Resende, em seu artigo "Consenso e Contrassenso" explica como, tanto nos choques quanto no excesso de demanda, cria-se a percepção de alta generalizada de preços além de efeitos de inércia. Para debate, vale a pena reproduzí-lo:

“A inflação é provocada por um excesso de demanda agregada, ou por um choque negativo de oferta que pressiona alguns preços-chave e cria a percepção de que há uma alta generalizada dos preços, que por sua vez cria expectativas de que preços continuarão a subir. Uma vez consolidadas, as expectativas de inflação podem manter a inflação alta, mesmo com desemprego e capacidade ociosa. A inflação consolidada tem um grande componente de inércia. Expectativas de inflação podem ser revertidas através de anúncio de metas por um banco central que tenha credibilidade, conquistada pelo seu histórico de sucesso para manter a inflação dentro da metas. Para isso o banco central utiliza a taxa básica de juros como instrumento para regular a demanda agregada”. “(...) Para vencer a inércia de expectativas ancoradas, tanto de alta quanto de baixa inflação, é preciso provocar muito desemprego, ou muito excesso de demanda(...)”

De qualquer forma, dadas as nossas condições de heterogeneidade estrutural, inclusive quanto à flagrante desbancarização e desfinanceirização de um dos “Brasis”, deixemos então os juros altos satisfazerem o tal “mercado” do outro “Brasil”!

Ainda sobre a falta de crédito, recebi de um amigo, importante empresário de telecomunicações, o seguinte comentário:

"Alfredo, o quadro de acesso ao crédito que você descreve é o que encontramos nos pequenos provedores de banda larga fixa no Brasil. Eles são hoje responsáveis por cerca de 30% das conexões e levaram a Internet com fibra para municípios com menos de 100 mil habitantes. Sem ter acesso a crédito. Fizemos um estudo sobre isto há um ano atrás, para um banco de desenvolvimento internacional"

Nosso problema estrutural, a requerer inadiáveis reformas, vai alcançar em algum futuro o Banco Central em sua relação com o Tesouro. Mas de imediato, reformas terão que vir do lado fiscal, e do financiamento fiscal.

Como a crise social já passou do limite, reformas estruturais envolvendo bancos públicos, empresas públicas, recursos parafiscais e financiamento do investimento público podem vir aí logo à frente...

O Keynes que nos interessa agora é o do investimento público e do investimento privado que vem por arrasto (para os franceses , “effet d’entraînement”) Desnecessário enfatizar nosso imenso passivo social, da saúde, da fome, da educação. Da falta de saneamento básico, de nossas oportunidades competitivas de inserção internacional, de redução do “custo Brasil”, de um país literalmente “atolado” em transporte rodoviário, etc, etc...

O investimento público pode monetizar o Brasil paralelo, desatrelado do “mercado”. Portanto deixemos de lado a “ditadura” dos juros altos! Viva os juros altos deixados para o “Brasil Maravilha”, paraíso dos compradores de títulos públicos. Só não chega a ser o inferno dos emissores de títulos privados porquanto no mesmo “Brasil Maravilha” estes ainda têm pra quem repassarem seus altíssimos custos financeiros, com efeitos distributivos óbvios...

Precisamos debater soluções estratégicas, para contornar as “barreiras” das relações com um poder “encastelado”, o do tal “mercado”. Não é “bater de frente”, mas “dar a volta”.

E como conciliar democracia, crescimento econômico e inclusão social?

Em artigo recente, “Planos para o futuro de forma produtiva” (O estado de São Paulo, 20/11/22) Albert Fishlow tratou da questão do crescimento no Brasil:

“(...) o Brasil chegou a um ponto em que as decisões produtivas se tornaram essenciais. Dilma prometeu dobrar a renda per capita de 2010 até o aniversário de 200 anos da Independência do Brasil, ou seja, 2022. Uma meta mais modesta, mas notável, seria atingir uma taxa de crescimento contínua de 3% até 2026(...)”.

“(...) O Brasil precisa de uma taxa de investimento regular da ordem de pelo menos 24%/25% de seu PIB. Parte dela pode vir de uma ampliação do investimento estrangeiro, mas também deve haver um aumento da poupança doméstica para financiar o crescimento. Isso tem sido altamente variável, caindo para menos de 15% quando o investimento estrangeiro estava em rápida expansão (...)”

 

Comento.

1) A Taxa de Investimento. Num artigo curto, ele não poderia mesmo se estender sobre como alcançá-la; o foco dele é nosso atraso na formação da capacidade produtiva; no atual contexto do novo governo Lula, acrescenta: "(...) Com a decisão de realizar uma grande distribuição de recursos para os mais pobres no início de seu novo governo, restará pouco para o investimento público necessário para estimular o crescimento real do capital social”; sucede (digo eu) que o investimento público é crucial como variável-instrumento reguladora da taxa de crescimento do PIB; trata-se de decisão autônoma de gasto;

2) A taxa de crescimento. A taxa média de crescimento de 3% aa (per cápita) que ele admite para o quadriênio, deve guardar relação com aquela taxa robusta desejável de 25% do investimento sobre o PIB que, uma vez alcançada, deve propiciar taxas de crescimento do PIB muito maiores do que as da renda per cápita; por exemplo, André Lara Resende na já citada entrevista ao “Canal Livre”, admitiu um crescimento de 6% ao ano.

3) Não sei por quanto anda a relação produto/capital média de nossa economia; mas apesar do atraso na produtividade sistêmica de nossa economia nas últimas décadas, que exige taxas de investimento comparativamente mais elevadas, uma taxa de investimento sustentada de 25%, sem ser "chinesa", seria espetacular;

4) Este grande brasilianista, fala pouco mas põe o dedo na ferida!

Concluindo, sem esgotar o assunto.

Em economia, estamos escravizados por preconceitos, "verdades" superadas.

Não por acaso, como se diz agora, é preciso pensar "fora da caixa".

Num espectro amplo de pensamento econômico, ideologia e política, temos uma intelectualidade que vem se revelando brilhante e engajada nesta hora da verdade, na hora da prática! E temos importantes quadros na política, agora experientes com os erros do passado, especialmente quanto às alianças estratégicas. E a crise social, rebatendo na política, empurra-nos à busca premente de soluções. Reiterando: conjugar a longo prazo, democracia, crescimento e inclusão social.

E quanto à liderança?

Negue-se a Lula muitas virtudes. Mas não a da inteligência!...

A víbora fascista está “de bote armado”...

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(*) Doutor em Economia, IE-UFRJ, MSc Eng. de Produção, COPPE-UFRJ. É um dos editores deste Blog.

DIREITO DE SAMBAR

Batatinha*

Na voz de Adriana Moreira


É proibido sonhar
Então me deixe o direito de sambar
É proibido sonhar
Então me deixe o direito de sambar

Adriana Moreira




O destino não quer mais nada comigo

É meu nobre inimigo e castiga de mansinho
Para ele não dou bola se não saio na escola
Sambo ao lado sozinho

É proibido sonhar
Então me deixe o direito de sambar
É proibido sonhar
Então me deixe o direito de sambar

Já faz dois anos que eu não saio na escola
A saudade me devora quando vejo a turma passar
E eu mascarado, sambando na avenida
Imitando uma vida que só eu posso enfrentar

Tudo é carnaval
Pra quem vive bem, pra quem vive mal
Tudo é carnaval
Pra quem vive bem, pra quem vive mal

Já faz dois anos que eu não saio na escola
A saudade me devora quando vejo a turma passar
E eu mascarado, sambando na avenida
Imitando uma vida que só eu posso enfrentar

Tudo é carnaval
Pra quem vive bem, pra quem vive mal
Tudo é carnaval
Pra quem vive bem, pra quem vive mal


VEJA TAMBÉM:

Carnaval e Política

Basta um dia - Clara Nunes

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(*) Oscar da Penha (1924 - 1997), mais conhecido como Batatinha, foi um compositor e cantor brasileiro, considerado um dos maiores nomes do samba da Bahia.


Planejamento - O último trem para o Brasil

Alfredo Maciel da Silveira*

Janeiro - 2023

Estava eu nos primeiros dias do ano com artigo sob o título acima, pronto para publicação. O discurso de posse da Ministra Simone Tebet dera-me a motivação para escrevê-lo. Mas sobrevieram os trágicos acontecimentos daquele domingo 8 de janeiro que mudaram o foco das atenções de todos os democratas. De imediato o Blog analisou o caráter terrorista dos ataques e a correlação de forças com a qual se defronta o governo Lula neste primeiro momento. Ver a propósito "Terrorismo em Janeiro de 2023".

Acho que a tragédia daquele domingo só reforça o que pretendo sugerir com aquele título, que parafraseia um outro, "O último trem para Paris", de um livro de autoria do ex- Ministro do Planejamento J. P. dos Reis Velloso.

Ao interpretar a oportunidade histórica que a seu tempo e a seu ver teria sido aproveitada pelo Brasil nos anos 70, através do II Plano Nacional de Desenvolvimento – II PND, o ex-Ministro a comparou com o romance “Earthly Powers”, de Anthony Burgess. Nele, o personagem principal tenta salvar a própria vida, após ser prisioneiro da Gestapo quando estourou a 2ª guerra mundial, conseguindo chegar a Paris, ao fim de sucessivas viagens de trem, através da Itália. Diz Velloso: “Foi, em certo sentido, como se tivéssemos tomado o último trem para Paris” (Velloso, J. P. em seu livro “O último trem para Paris”, 1986).

Mas é hora de voltarmos à oportunidade estratégica sugerida na posse da Ministra Simone.

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Planejamento - O último trem para o Brasil

 O tempo está se esgotando para aquele Brasil concebido e sonhado na Constituição de 1988. Consta lá em seu Art 3º que os objetivos fundamentais eram então os de se construir:

“(...)uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

Passados 35 anos, chegamos a um país em crise social e estagnação socioeconômica, com suas instituições democráticas severamente testadas ao limite da ruptura como acabamos de assistir no oito de janeiro.

Neste contexto foi alentador o discurso de Simone Tebet ao tomar posse no Ministério do Planejamento. No novo governo, Tebet juntamente com Alckmin tipicamente representam na política o “centro democrático”, e quanto à base social, trazem o potencial de agregar interesses empresariais, de classes produtoras e financeiras, da indústria e agronegócio. Pelos Ministérios que dirigirão, respectivamente os do Planejamento e do Desenvolvimento, estão em posições forçosamente estratégicas. Terão que intermediar respostas do governo a desafios inescapáveis e inadiáveis quanto à própria sobrevivência do país, se considerados os propósitos de 1988. Não por acaso, o Planejamento fora elevado a norma constitucional naquela mesma ocasião, mediante o seu artigo 174.

Quanto ao Planejamento, pontuou Tebet:

“O Orçamento  brasileiro está direta e indiretamente presente na vida de todos os quase 210 milhões de brasileiros e brasileiras. O Planejamento fala do futuro do Brasil que queremos ser”. 

“(...) Vamos trabalhar juntos numa pasta e numa área que, de acordo com a determinação, não só do presidente Lula, mas da determinação do nosso também ministro da Casa Civil, Rui Costa, teremos que trabalhar muito no Planejamento a médio e longo prazo(...)”. 

“(...) o que me moveu foi a certeza de que tudo o que nos une é infinitamente maior do que aquilo nos separa: a defesa da democracia e o sonho da cidadania para todos os brasileiros. Isso somente é possível com um crescimento econômico duradouro e sustentável que gere emprego e renda para os brasileiros e que tire o Brasil do mapa da fome(...)”

“(...)vamos tirar do papel a formulação de um plano nacional de desenvolvimento regional. É preciso atacar as desigualdades sociais e regionais que tanto nos envergonham(...)”.

“(...)Estamos remontando este Ministério, que será composto por uma equipe com visão interdisciplinar, compreensiva e horizontal da realidade. Ainda bem que, apesar de todos os percalços, o corpo técnico efetivo e experiente permanece, com o apoio fundamental do IPEA e do IBGE, porque, um país que não conhece sua realidade não tem como enfrentar seus problemas. Teremos, portanto, os melhores diagnósticos, para indicar os caminhos mais apropriados para alterar a triste realidade de sermos um dos países mais desiguais de todo o planeta”.

“(...)Esse diagnóstico será traçado com participação da sociedade civil, por meio de audiências públicas, que é a partir de onde, também e por consequência, construiremos o orçamento público”.

Não bastasse o contexto de crise social, estagnação e ameaça às instituições democráticas, análises dos especialistas quanto ao cenário econômico internacional para 2023 não sugerem qualquer otimismo. Prosseguem a guerra na Ucrânia e a pandemia do COVID ainda fora de controle. O desemprego avança pela utilização de forma maciça das novas tecnologias, pela substituição dos meios de produção por robôs ou softwares inteligentes, pela transformação dos novos modelos de negócios digitais. O desemprego também ocorre pelo crescimento da concentração e centralização do capital nos processos de fusões e aquisições, pela crescente financeirização da economia e ainda, pela flexibilização nas relações de trabalho. Segundo alguns autores poderia estar ocorrendo uma grande acumulação de capital, sobretudo no mercado financeiro, demonstrando que a nova arquitetura do capitalismo global estaria caminhando para uma junção da economia digital com o capital aplicado no mercado financeiro global, integrantes da grande transformação em curso para um “capitalismo da informação”[1].  

Por conseguinte, e apenas para destacar uma das dimensões da problemática brasileira, este é o cenário complexo para a reindustrialização da sua economia, conforme defendida inclusive por vozes de entidades patronais, como a do presidente da CNI, Robson Braga, em artigo recente (O Globo, 20/12/2022). Em suas palavras:

“(...) Partimos da premissa de que não há país forte sem uma indústria competitiva e inovadora. Seu fortalecimento, portanto, é crucial para a retomada do crescimento econômico [duradouro e sustentável] e para a geração de oportunidades de trabalho e renda para todos os brasileiros e brasileiras”.

Tebet – a missão

Nas últimas três décadas houve um esvaziamento da cultura técnica e das instituições de Planejamento no Brasil, construída ao longo de cinco décadas, desde os anos 30 do século passado. Mesmo a tentativa de reconstrução pós 2003, nos governos do PT, evidenciou um déficit conceitual e metodológico, por tomar como ponto de partida o PPA – Plano Plurianual, que apesar do nome trata-se de um Orçamento para 5 anos, inclusive restrito ao Governo Federal.

O planejamento abrangente e integrado das atividades econômicas dos setores público e privado no Brasil foi alçado a princípio constitucional desde 1988, primeira vez na história em que foi mencionado nas constituições brasileiras. Através do artigo 174 e seu parágrafo 1º, está organicamente inserido no "Capítulo I, Dos Princípios Gerais da Atividade Econômica", que por sua vez abre o "Título VII, Da Ordem Econômica e Financeira".

Art. 174. Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado.

§1º a lei estabelecerá as diretrizes e bases do planejamento do desenvolvimento nacional equilibrado, o qual incorporará e compatibilizará os planos nacionais e regionais de desenvolvimento. (BRASIL, 1988).

Tal dispositivo ainda permanece na Constituição sem jamais ter sido aplicado.

Mesmo até quase a extinção do Ministério do Planejamento pelo governo anterior, não era sequer referido na sua página de internet (só o foi em seus extertores), onde se fazia referência apenas ao artigo 165, alusivo aos orçamentos, âmbito muito mais restrito portanto, integrante de outro Título, de número VI, "Da Tributação e do Orçamento", em seu "Capítulo II, Das Finanças Públicas". O pouco que se "fez" no Brasil sob a denominação de "Plano" foi regido por este artigo 165, que conceitual e metodologicamente nada tem a ver com o desenvolvimento institucional da concertação entre governo e setor privado, com a interação estratégica entre players relevantes, ou ainda com a produção de informações socioeconômicas consistentes entre si como base da negociação política, elementos essenciais de um planejamento indicativo contemporâneo.

Até agora Tebet aparentemente só tomou conhecimento do Art 165 da Constituição, que trata dos Orçamentos, inclusive do PPA, como se viu, conceito restrito de finanças públicas. Mas já nos destaques de suas palavras mostrados acima, pode-se antever algo mais. Se ela puser em prática o que pretende, vai chegar, pelos desafios da prática, ao conceito de Planejamento Indicativo previsto no Art 174 da Constituição. O dispositivo constitucional já está pronto! É bola quicando na porta do gol!

A questão democrática no planejamento                           

O planejamento tem a vocação de criar representações das demandas, explicitar intenções, revelar conflitos entre elas e os custos envolvidos, lidando assim com a diversidade social. É fato que na sua versão tecnocrática ele faz o oposto disto, alijando temas, encobrindo conflitos e dando suporte a "não decisões".

A difusão de informação, a transparência e horizontalização dos processos decisórios, pode ter consequências sociais e políticas altamente positivas no sentido dos avanços de uma institucionalidade democrática. Todavia, com base na experiência histórica, pode-se arguir sobre a eventual captura do planejamento por um saber tecnocrático e um estatismo autoritário. Há de fato uma inegável ambivalência e um inerente risco daquela captura. Nas décadas recentes, a idéia do planejamento então ficou sendo identificada, em muitos casos com fundadas razões, ao despotismo, ao estatismo, ou a um saber tecnocrático. O atraso metodológico e a exaustão de processos tradicionais que já não respondiam às condições do mundo atual puseram aquela idéia na defensiva. No Brasil, além disso, há que se somar a desarticulação das equipes técnicas, a dispersão dos quadros especializados e o predomínio de uma cultura imediatista na administração pública, como fatores de absoluto vazio de qualquer debate específico sobre o tema. Perdeu-se totalmente a cultura do planejamento, prevalecendo o imediatismo e a improvisação. E nas orientações governamentais - do "apagão" de energia ao "trem bala" - a superposição de neoliberalismo, voluntarismo e dirigismo sem plano.

É certo que os brasileiros até sabem fazer o mapeamento das grandes questões nacionais. Mas na hora de se apontarem as vias de solução, as idéias de "Plano" e "Estratégia", quando aparecem, o fazem de forma muito embrionária ou como panacéia, quando não associadas às condições prévias de um grande "consenso social" e de "reforma do Estado". Sucede que a metodologia deve tratar, antes de tudo, de um ambiente cuja regra é a da competição e do conflito, e sob a ótica de um ator especial, o governo, a quem cabe a iniciativa do desenvolvimento institucional no seu campo de atuação. Daí que a metodologia deve conjugar as dimensões técnica e política, a interação entre informação e negociação, em aprimoramento contínuo do ambiente institucional que lhe é próprio.

O último trem - o planejamento face às relações Estado - sociedade no Brasil de hoje

O Brasil se depara esquematicamente com duas tendências alternativas quanto às relações Estado - sociedade.

Ou se consolida como nação, e para isso tem que "trocar o pneu com o carro em movimento" (democracia, crescimento econômico, inclusão social) onde o permanente é a mudança, guardando autonomia sobre o seu próprio destino;

Ou vira "Mercadolândia" (a nação virando apenas um território de mercado), o "salve-se quem puder", abrindo mão da autonomia.

No primeiro caso, a grande tentação tem sido as soluções autoritárias de todo tipo, escalonando-se as tarefas históricas ao invés de enfrentá-las simultaneamente: ditadura para "salvar" a democracia; "primeiro crescer o bolo para depois distribuir"; instrumentalizar a democracia para "conduzir" o povo (populismos); em aversão e desconfiança face às instituições democráticas.

No segundo caso há uma crença de que o mercado livre garante tudo o mais, a começar pelas liberdades democráticas: democracia e livre mercado vistos como uma unidade; aversão e desconfiança quanto à atuação do Estado.

O século XX demonstrou que a economia brasileira, sob o protagonismo do Estado nacional, fez valer as oportunidades abertas pelos constrangimentos externos. Das crises do mercado do café aos choques dos anos 70, passando pela crise de 29 e duas guerras mundiais, o Brasil saiu de uma economia primário-exportadora para ter nos anos 80 um parque industrial completo.

Mas restou uma enorme agenda socioeconômica e político-institucional em atraso.

Soluções autoritárias de passado recente não teriam sido originalidade nossa e são vistas por vários autores como sendo características dos países que foram retardatários no sistema capitalista (Alemanha, Japão, Rússia, exemplarmente).

Ademais o desencadeamento explosivo de novas e sucessivas demandas sociais, suscitadas pelo próprio desenvolvimento socioeconômico, e pela abertura dos novos canais de participação popular, de vocalização das demandas, de emergência da cidadania, tudo isso trazido por instituições democráticas em construção, de certo modo trazem o risco dessas instituições se tornarem vítimas de seu próprio sucesso.

Mas se há alguma chance de se enfrentar com êxito a simultaneidade dos atrasos daquela agenda, certamente a chance não está na entrega da autonomia do país, mas justamente no aproveitamento consciente das novas oportunidades abertas pelas rápidas transformações do mundo contemporâneo, da economia internacionalizada à geopolítica, o que reporia o Estado nacional como grande protagonista.

Como enfrentar a agenda sem o Planejamento?

O tempo urge. Ao interpretar a oportunidade histórica que a seu tempo e a seu ver teria sido aproveitada pelo Brasil nos anos 70, através do II Plano Nacional de Desenvolvimento – II PND, o ex-Ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso a comparou com o romance “Earthly Powers”, de Anthony Burgess. Nele, o personagem principal tenta salvar a própria vida, após ser prisioneiro da Gestapo quando estourou a 2ª guerra mundial, conseguindo chegar a Paris, ao fim de sucessivas viagens de trem, através da Itália. Diz Velloso: “Foi, em certo sentido, como se tivéssemos tomado o último trem para Paris” (Velloso, J. P. em seu livro “O último trem para Paris”, 1986).

Parafraseando Velloso,  a oportunidade de agora talvez seja a do último trem para o Brasil.


LEIA TAMBÉM:

Brasil sem Planejamento e um futuro já presente

Três Escudos - analisando o liberalismo econômico no Brasil

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(*) Alfredo Maciel da Silveira é Doutor em Economia, IE-UFRJ e MSc. Eng. de Produção, Coppe-UFRJ. É um dos editores deste Blog "Democracia e Socialismo"

[1] Tais elementos de cenário - economia digital, tecnologia, mercado de trabalho -  seguem o artigo de Durval Correa Meirelles, "Cenário Econômico, Financeiro e Empresarial Global e a volta da estagflação na economia brasileira" , Maio/2022, publicado neste Blog.

 

Terrorismo em Janeiro de 2023

Sergio Augusto de Moraes*

Janeiro - 2023

O que aconteceu em Brasília neste oito de janeiro foi uma tentativa de acabar com a democracia no Brasil, mesmo que a maioria dos bolsonaristas que estavam na manifestação que resultou na depredação das sedes dos três poderes não tivessem consciência disto.

Há que se entender que não foi uma ação de meia dúzia de malucos mas sim uma ação maciça, de milhares, apoiada por milhões de bolsonaristas em todo o Brasil e que deve ser  enfrentada não só pela justiça mas também no terreno da política.

Salão Nobre, Palácio do Planalto, destruído após invasão de terroristas. Imagem:  Gabriela Biló/Folhapress

Outro aspecto desse acontecimento é uma certa desatenção do governo Lula e da maioria dos democratas brasileiros que concentraram suas atenções na posse de Lula, sem dar-se conta que os golpistas não se limitariam às manifestações e acampamentos frente aos quartéis. Existe uma organização por trás destas ações que detém a hegemonia nos órgãos de informação. O caso do governador de Brasília é apenas a ponta do iceberg.

Muitos acham que Lula foi leniente com os golpistas. Não é bem assim. Lula e seu governo vêm demonstrando ter idéia da correlação de forças, não só na sociedade mas em particular nas FFAA e nas polícias. Durante quatro anos Bolsonaro trabalhou tais setores visando um golpe caso não ganhasse as eleições. E, mesmo as perdendo no segundo turno, as sementes que plantou usando todos os recursos legais e ilegais germinaram. Ele ainda tem a hegemonia nas FFAA e nas polícias da maioria dos Estados.

Mas fenômenos deste tipo não ocorrem somente aqui. Muitos analistas de política apontam as semelhanças entre este oito de janeiro e o que aconteceu nos EEUU há dois anos. A extrema direita cresce também na Itália, na França, na Hungria e em outros países. Enquanto 36 famílias concentrarem uma renda igual aos 4,5 bilhões mais pobres do mundo estará aberto um terreno fértil para seu crescimento. E nosso País é um campeão das desigualdades.

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(*) O autor é Engenheiro pela UFRJ e Mestre em Econometria pela Universidade de Genebra. Trabalhou no Chile para o governo de Salvador Allende, 1971-1973 quando, depois do golpe de Estado de Pinochet, esteve preso no Estadio Nacional. Dali conseguindo livrar-se  pela solidariedade internacional, foi para a Europa, onde ficou seis anos exilado. Voltou ao Brasil em 1979. É autor também do livro "Viver e Morrer no Chile" - 2010, e um dos editores deste Blog "Democracia e Socialismo."

 

As marcas de nascença (1)

Sergio Gonzaga de Oliveira (*)

Novembro - 2022

Lembrem das avós

Abatidas transtornadas

Lembrem das mães

Exaustas apressadas

Lembrem das filhas

Acuadas desamparadas

Lembrem das irmãs

Grávidas violentadas

Das netas...

Tristes crianças

Assustadas

 


Pensem nas mulheres

No acalanto da vida

No útero ancestral

 

Mas não se esqueçam da violência

Dos abortos clandestinos

Dos cárceres privados

Das esquinas degradadas

Do chão duro das ruas

No frio da madrugada

 

Pensem nas ilusões contidas

Nos empregos, exploradas

Nas filas intermináveis

Nas casas enlameadas

Nas promessas não cumpridas

Nas mortes anunciadas

 

Pensem nos sonhos negados

Na dor dos filhos largados

Na roda dos enjeitados

 

Lembrem dos filhos perdidos

Para a guerra das milícias

Nas batalhas com a polícia

Nas rotas sujas do tráfico

 

Mas não se esqueçam

Não se esqueçam...

Dos lucros nunca taxados

Dos juros inexplicáveis

Das dívidas impagáveis

Marcando a desigualdade

 

Dos olhos que não enxergam

Um sistema alucinado

Fonte de tanta maldade

 

De acordo com a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE, publicado em 2020 e baseado na PNAD-C de 2019, metade da população brasileira vive com um valor inferior ao de um salário mínimo. Pode-se afirmar que a maioria vive na pobreza ou em seu entorno. Quando se cruzam as informações de raça, gênero e renda os dados são chocantes.  As mulheres negras se destacam entre os mais pobres. Embora sejam 28,7% da população total, são 39,8% entre os muito pobres e 38,1% entre os pobres. As mulheres negras, sem cônjuges, com filhos e filhas menores de 14 anos para criar, são os arranjos familiares que mais sofrem com a desigualdade. Segundo o IBGE, esses grupos concentram a maior incidência de pobreza, sendo 86,4% pobres ou extremamente pobres (2).

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(1) Esses versos têm como inspiração a belíssima estrutura poética de "Rosa de Hiroshima", de Vinícius de Moraes, escrita em 1946. Cometi essa transgressão para me unir aos protestos contra as más condições de vida da maioria das mulheres na sociedade brasileira, especialmente as negras e pobres que mais sofrem com a violência cotidiana. Peço perdão aos amantes da poesia de Vinicius por essa ousadia.

(2) Esses dados foram analisados com mais detalhes no artigo “O nó que não desata” que publiquei neste blog em agosto de 2021.

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(*) Sergio Gonzaga de Oliveira é engenheiro pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e economista pela Universidade do Sul de Santa Catarina(UNISUL). Colaborador frequente do blog Democracia e Socialismo.


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